Em qualquer lugar e a qualquer hora: a era da mídia digital

Tradicionalmente, tanto os participantes do mercado (operadores de telecomunicações e meios), quanto os consumidores foram habituados a pensar no conteúdo atrelado ao seu meio de distribuição: programação na TV via ondas eletromagnéticas ou a cabo, filmes no cinema, música nos CDs e rádios, voz no telefone e assim sucessivamente. A internet como meio começou a ?bagunçar? esse esquema, mas a disponibilização de conteúdos audiovisuais complexos esteve, por muito tempo, limitada pelas velocidades de acesso e largura de banda requerida.
Agora, com o crescimento explosivo do acesso de banda larga no Brasil, tanto em plataformas fixas quanto em móveis, abre-se uma nova era na difusão do conteúdo audiovisual que deve, sem dúvida, mexer com a própria estrutura do setor e seus diversos participantes. Para começar, teremos de aprender a enxergar o conteúdo como um produto, até certo ponto independente do meio de distribuição.
Os operadores de telecomunicações são especialistas na provisão do meio (rede) de distribuição de conteúdo. Até agora o mercado de banda larga no Brasil e em outros países opera com base na cobrança pelo acesso. A forte concorrência está fazendo os preços despencarem, contribuindo dessa forma para a popularização. No entanto, para proteger sua rentabilidade, as operadoras precisam agregar valor à sua oferta de banda larga, acrescentando serviços e conteúdo.
Alguns conteúdos como tons e jogos têm sido desenvolvidos por produtores especializados, geralmente pequenas empresas afastadas dos grandes conglomerados de entretenimento. Mas outros conteúdos audiovisuais complexos, como vídeos, filmes e músicas entram no território das grandes produtoras, que transformam-se, agora, em parte integrante da cadeia de valor da indústria.
O nascente mercado de distribuição de conteúdo audiovisual, via banda larga, demanda o desenvolvimento de parcerias dos operadores com os produtores de conteúdo, criando novos modelos de negócios, com múltiplos participantes, e distribuindo o valor entre todos eles (criadores, produtores, integradores de conteúdo para mídias digitais, dentre outros). Surge um ambiente comercial e operacional muito mais complexo do que era o negócio tradicional de telecomunicações, ou dos meios de comunicação tradicionais, controlando sua própria cadeia de distribuição. Nesse ambiente, a oportunidade para cada uma das partes reside mais na exploração inteligente e flexível de suas próprias competências ?core, do que tratar de absorver as capacitações da outra.
Esse panorama apresenta desafios para todos os participantes no mercado. Não surprende, portanto, a grande discussão que a minuta da Lei Geral do Audiovisual, recentemente divulgada pelo Governo, tem gerado e que, pela primeira vez, envolve além da mídia tradicional, representantes do setor de telecomunicações. Dentro dessa discussão, representantes do governo e dos meios têm manifestado sua preocupação pela preservação do conteúdo nacional.
À primeira vista, não parece existir um panorama desfavorável, muito pelo contrário: no mundo todo a demanda por conteúdo local não pára de crescer. Mesmo os grandes conglomerados da mídia global têm começado a incorporar versões locais dos seus produtos e a patrocinar produções locais.
No campo da produção audiovisual, o Brasil é de longe o mercado mais desenvolvido da América Latina, alimentado por sua diversidade cultural e pelo tamanho do seu mercado. O público brasileiro tem preferência natural pelos temas nacionais e isso se manifesta claramente na audiência da TV a cabo, na qual existe ampla disponibilidade de conteúdo internacional, porém com demanda preferencial por conteúdo brasileiro. Em conseqüência, existe um interesse natural dos operadores de redes em disponibilizar este tipo de conteúdo.
Em última instância, essa discussão se relaciona à segunda grande mudança que as novas formas de distribuição de conteúdo audiovisual, em particular a TV Digital, envolvem: o consumidor passa progressivamente de receptor passivo do conteúdo difundido pelos meios, para ganhar cada vez mais autonomia tanto na escolha do conteúdo que deseja, como do momento e da forma em que se deseja accessar esse conteúdo. A próxima fronteira no desenvolvimento da mídia digital estará na interatividade, com um consumidor cada vez mais consciente e envolvido, não só na seleção, mas também na criação, individual e coletiva, de um conteúdo próprio.
