Depois de abandonar RIM, BlackBerry planeja virada em mobilidade

Mudança na marca. Reestruturação em praticamente todo o corpo diretivo. Nova plataforma. O mesmo desafio: a busca pela liderança no mercado móvel corporativo. 2013 é o ?ano de virada? para a antiga Research In Motion, que há poucos meses assumiu-se como BlackBerry. Sob o slogan ?Uma marca, uma promessa?, a companhia aposta as fichas em sua plataforma BlackBerry 10, totalmente reinventada sob os alicerces do sistema QNX, que existe no mercado há cerca de 20 anos e foi adaptado para o desafio móvel que se configurou nas empresas e na própria fabricante. Anunciado para o mundo no dia 30 de janeiro e apresentado ao mercado brasileiro no último dia 21 de fevereiro, o sistema operacional, que chega em dois modelos de smartphone ? o Z10 e o Q 10 ? é muito mais do que mais um agente para concorrer no duopólio iOS e Android. É a derradeira cartada para a empresa reverter a encolha de seus resultados no balanço, fruto de sua perda de mercado.
Assine a newsletter da CRN.com.br
Curta a Fan Page da CRN.com.br
Na companhia desde 2009, mas há sete meses com o chapéu de diretor geral, João Stricker recebeu a CRN Brasil com exclusividade para uma entrevista. Quando cheguei, ele acabava de fazer as poses cantadas pelo fotógrafo, enquanto ostentava em sua mão o smartphone Z10. Em pouco menos de 40 minutos de conversa, tentou passar um resumo dessa transformação pela qual passa a companhia, que em 2014 fará 30 anos de história e tem em seu ecossistema não somente os quase 14 mil empregados diretos, mas uma cadeia mundial de canais e empresas correlatas. Para o que a companhia possuía em seu portfólio até então, os parceiros fizeram um bom trabalho, nas palavras de Stricker. Mas agora, é preciso especialização para atender à demanda reprimida do mercado que emerge junto da nova BlackBerry.
CRN Brasil – A empresa acaba de mudar de nome e todos os seus principais executivos foram trocados nos últimos tempos. Como você acha que essas movimentações podem impactar o posicionamento no Brasil?
João Stricker – A mudança dos executivos trouxe uma nova forma de trabalho. Quando a liderança muda, muda também a forma de trabalho e como definimos nossa estratégia para o mercado. Além disso, tivemos uma mudança de plataforma, que é o mais relevante. Nós realmente reinventamos a empresa e redesenhamos a plataforma. E isso inclui o Brasil.
CRN Brasil – E o mercado brasileiro já está notando essa mudança de postura?
Stricker – Não sei se tem mudança de postura, a BlackBerry sempre atuou de forma muito próxima aos parceiros. Essa postura continua. O que muda são as estratégias de segmento, pois com o produto novo se altera o target que atingimos e a amplitude da oferta. Sempre atuamos muito forte com o mercado corporativo e com o jovem, por conta do serviço BBM [serviço de troca de mensagens]. Mas com o BlackBerry 10 trazemos coisas das quais o consumidor sentia falta, como multimídia, tela grande, novo browser…
CRN Brasil – Você está há cerca de sete meses como responsável pela operação Brasil, mas tem carreira na BlackBerry desde 2009. Como isso ocorre pessoalmente para você em um momento de virada tão importante?
Stricker – É um desafio bastante interessante e tenho muita confiança na equipe que temos. Ela é formada há alguns anos, passou essa transição da BlackBerry como líder de mercado, essa BlackBerry com foco mais corporativo e agora voltando a buscar segmentos diferenciados. É um desafio bastante interessante, mas tenho muita confiança na equipe. Temos não só uma nova liderança [o CEO Thorsten Heins, no cargo há um ano], definindo uma posição estratégia que faz muito sentido, mas também uma nova plataforma, que traz um potencial para esse mercado.
CRN Brasil – Com as realocações feitas na área de canais [Erlei Guimarães, que cuidava do canal de grandes varejos, agora agrega a área de Enterprise], podemos esperar alguma mudança nos programas?
Stricker – Nós atuamos muito através das operadoras, mas temos os Canais de Valor Agregado [VARs] que fazem a venda principalmente para clientes corporativos do tipo média e pequenas empresas ? e esse canal continua sendo muito importante. No canal de grande varejo continuamos com a forma que estávamos, com relacionamento direto no caso de alguns grandes clientes, mas de forma geral temos o atendimento através das operadoras.
CRN Brasil – E de que tipo de canal você precisa?
Stricker – O VAR é um canal importante, que já se desenvolveu bastante, mas que ainda está em processo contínuo de desenvolvimento.
CRN Brasil – Quando você diz que ele está em desenvolvimento, o que está faltando?
Stricker – A nova plataforma traz muita oportunidade. Então nós temos parceiros que cobrem bem o tamanho do potencial que tínhamos com o sistema antigo, mas com essa nova oportunidade que estamos trazendo, vai-se abrir um novo leque de demanda em relação à BlackBerry. Então precisamos de parceiros especializados, que atuem não só na venda, no software e no serviço, mas também em instalação e suporte. Aí é que existe um passo bastante relevante.
CRN Brasil – Mas o que falta de profissionalização do canal, que poderia dar um boom para esse cara com a nova oferta?
Stricker – A principal questão é que estamos trazendo muita coisa nova. A venda já está estabelecida, então hoje precisamos de especialistas em fazer a instalação e o suporte. Fazer bem essas duas coisas e ter um profundo conhecimento do produto é algo que vai gerar espaço para crescer conosco. Porque o BlackBerry acaba sendo um produto de missão crítica nas empresas. A partir do momento que você coloca isso na mão dos diretores, da força de vendas, é fundamental que aquilo funcione 100% do tempo. E essa nova solução é simples de configurar, mas é muito robusta ? e é nisso que existem muitas oportunidades.
CRN Brasil – Executivos deixaram claro que a empresa quer fazer com a nova plataforma o mesmo obtido com o iPhone seis anos atrás. Como fazer isso aqui no Brasil?
Stricker – No momento de criar a plataforma, uma das decisões tomadas foi inovar, fazer algo diferente. O paradigma do botão, de entrar e sair de aplicativos, foi criado há seis anos [por iOS e iPhone]. Queríamos voltar a ser competitivos, com aplicações, browser, multimídia e inovação. O que nos deu oportunidade foi o QNX, que é a base do sistema operacional que já existe há 20 anos, e que, por exemplo, está em 60% dos carros. É aí que se permite integração entre o smartphone e a computação móvel, e todos os outros aparelhos, como carro geladeira. E é aí que a computação móvel começa a acontecer. O BlackBerry 10 é o primeiro passo para o que queremos com a internet das coisas.
CRN Brasil – Mas como está sendo tropicalizar o discurso para o Brasil?
Stricker – O feedback tem sido fenomenal, estamos trabalhado com operadoras e falando com alguns clientes corporativos, isso antes mesmo do lançamento, e notamos que os diferenciais que criamos são exatamente o que eles estavam sentindo falta. O Hub [tecnologia que agrega os aplicativos mais usados em um ambiente] a capacidade multitarefa do flow [ficar com mais de um aplicativo aberto, sem a necessidade de sair de um para entrar em outro] é algo necessário, porque as pessoas trabalham com várias coisas ao mesmo tempo. E trabalhamos muito com o teclado virtual, de forma que sua experiência fosse tão boa quanto no físico. Por último, existe o elemento importante para o mercado corporativo, que não existia antes. Era o grande dilema entre a vida do CIO, dentro da empresa, e da pessoa, que como usuário tem sua vida privada, que quer trazer seu dispositivo para a empresa. Então é comum vermos pessoas com dois celulares. O que fizemos com o Balance foi trazer essa divisão entre o mundo corporativo e o privado, então não é somente o CIO que protege a rede, porque a pessoa não consegue copiar as informações da empresa para sua área pessoal, mas o próprio usuário sabe que seus arquivos pessoais, suas fotos, não estarão ao alcance da TI.
CRN Brasil – 2013 é o ano da vida da BlackBerry então?
Stricker – Totalmente.
Saiba mais:
