De CIO a CEO: José Ferrara fala sobre sua trajetória profissional

José Ferrara, ou Ferrara, como prefere ser chamado, está à vontade na sala da presidência da Tokio Marine, localizada em um edifício na zona sul da capital paulista. Ele assumiu o cargo em julho deste ano, mas está na companhia desde 2009, quando entrou para assumir a liderança de TI e operações. Foi na TI, é verdade, que ele desenvolveu toda sua carreira ao longo de mais de 30 anos, passando por empresas do setor financeiro e seguradoras. A diferença entre ele e outros executivos que ocupam posto similar está na informalidade e na capacidade de comunicação. Com um sorriso no rosto, ele recebeu a reportagem da IW Brasil para quase uma hora de conversa. O tom descontraído se notava antes mesmo de iniciar a sessão de perguntas, quando o executivo começou a relembrar toda a sua trajetória profissional em TI, premiações que ganhou e as diversas edições do IT Forum as quais teve a oportunidade de participar.
Longe de querer dar uma receita de bolo ou lição de moral aos demais CIOs ? muitos deles são seus amigos pessoais -, Ferrara concordou com a necessidade de o executivo de TI desenvolver um perfil de gestão, trabalhando pontos como empreendedorismo, gestão de pessoas, o pensar o novo. Até para poder pleitear, em algum momento, o posto de CEO de alguma corporação. Como ele mesmo fala na entrevista, o gestor de TI pode ser um ?tirador de pedido? ou ser ?o cara? que pensa a estratégia da empresa e atua como parceiro das demais áreas. A seguir, você confere os principais trechos dessa conversa.
IW Brasil – Quando você percebeu que poderia ir além da TI e até chegar ao cargo de CEO, o que não é tão comum no Brasil?
José Ferrara ? Eu tive uma experiência muito positiva quando trabalhava em banco, quando pela primeira vez tive a oportunidade de participar de uma reunião enquanto analista de sistemas com o então vice-presidente de TI no Unibanco, Eduardo Magalhães. Eles falavam de payback, retorno sobre investimento, e eu pensava: ?o que esses caras estão falando??. Era um grupo de CIOs discutindo a possibilidade de uma rede de ATMs ser compartilhada, e eu seria o cara pelo Unibanco que viabilizaria a conversa e a integração daquelas máquinas espalhadas pelo País com o sistema do banco. Mas, naquele momento, eles discutiam o ROI e eu não entendi nada. E pensei: ?preciso entender desse negócio se quiser um dia ser o Eduardo Magalhães?. Aí voltei para universidade para estudar administração na FGV (mas minha formação básica é Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp). Mais recentemente, estudei gestão em Harvard. Essas experiências me levaram a pensar em ser o futuro CIO e comecei a entender a importância daquilo que aquelas pessoas discutiam na reunião. Eles falavam puramente de negócio e eu falava de projetos, sistemas, programação.
IWB – Depois que você investiu no entendimento do negócio, em que momento você percebeu que poderia ser CEO?
Ferrara ? A partir do momento em que você passa a se conscientizar que faz tecnologia não por tecnologia, mas por suporte ao negócio que sua empresa trabalha, você acaba tendo vocação natural para trabalhar o negócio. Então, entenda sua empresa. Tenha um estilo empreendedor e saiba que isso fará a diferença dentro da corporação. Eu comecei a praticar isso quando passei à função de gerente: deixei de ser analista de sistemas e virei gerente de pessoas, gerente de projetos e passei a treinar essa visão, a avaliar o motivo pelo qual estávamos fazendo determinado sistema para uma área de negócios. Assim, fui ganhando espaço naturalmente. até chegar a diretor de toda a TI. E, nessa posição, você está influenciando muitas vezes toda a busca da excelência operacional dentro da companhia. Quando falo excelência operacional, entenda-se: melhorias em processos, satisfação dos usuários internos, satisfação dos clientes da empresa, do ambiente computacional e dos sistemas para clientes e funcionários. Passa também pelo responsável pela tecnologia a conscientização de que depende deles a busca incessante pela eficiência operacional e isso é dinheiro, redução de despesas ou evitar custos futuros. Ou como aumentar a produção com os mesmos recursos, por meio da tecnologia. Todo CIO precisa ter essa missão em mente.
IWB ? Por que você acha tão importante para um CIO ter uma mente empreendedora? É difícil encontrar um perfil assim?
Ferrara ? Não é difícil ter essa formação, naturalmente o cidadão tem isso, mas quando a pessoa fica muito amarrada à tecnologia, ela tenta fazer o melhor dentro da TI, ter a última tendência implantada e não necessariamente é o momento da empresa comprar aquilo. A dificuldade que vejo no CIO é não conseguir se desprender da tecnicidade que a tecnologia o leva naturalmente. Alguns acham que tecnologia é o início, meio e fim. Eu penso que tecnologia é o meio, o fim é ser presidente. Por acaso tecnologia é o meio e eu tenho domínio sobre isso, então, vamos usar com capacidade de criação, convencer seus pares de que existe uma tecnologia que poderia ser aplicada a um determinado processo da companhia e que trará um salto de produtividade ou poderá gerar novos negócios. A atitude do CIO inteligente é patrocinar boas ideias, ainda que não seja as dele.
IWB ? A carreira em TI tem diversas ondas e hoje não sabemos para onde vai caminhar, qual o futuro desse CIO. Temos discutido muito o tema, falado sobre habilidades falhas como a de comunicação e estratégia. Mas além disso, onde o gestor de TI peca neste momento de desafio?
Ferrara ? O CIO administra uma área que pode ser a área que impulsiona a modernização da companhia, como pode ser crucificada por não entregar o que se pede para ela. Ou seja, ela é o grande telhado de vidro. O CIO tem que sair dessa condição para ajudar o empreendedorismo da companhia. Mas, muitas vezes, essa condição é pela falta de comunicação também e pelo baixo nível de carisma. Às vezes, ele acha que por ter o domínio técnico excederá as expectativas. E não vai! O CIO é como qualquer executivo de outras linhas, ele tem que ter pelo menos uma dose de carisma e aceitabilidade por seus pares.Como você segura esse rojão? Com um bom relacionamento com as pessoas, de forma que seus pares entendam que você adiciona valor à companhia. A parte de comunicação, carisma, estilo empreendedor, no sentido de conquistar os pares e mostrar que está ali para ajudar, é a melhor atitude que o CIO poderia ter. Se ele ficar no casulo, achando que executar bem o projeto encomendado, ou seja, um tirador de pedido, está fadado a ficar ad eternum como CIO. Ou até a perder o emprego.
IWB ? Você concordaria com a afirmação de que entregar o pão quente todos os dias é obrigação do CIO e o restante do tempo ele precisa usar para inovar, empreender e entender melhor o negócio?
Ferrara ? Concordo. Às vezes, entregar atrasado um projeto, ainda que seja algo super estratégico para a companhia, é menos relevante do que deixar sua operação do dia a dia fora do ar. Essa companhia [a Tokio Marine], se ficar um dia sem tecnologia, deixa de faturar R$ 10 milhões. E com isso dá para fazer uma dezena de projetos. Então, se atrasar um projeto, o impacto será menor do que você não der o pãozinho quente todos os dias.
IWB ? Como o departamento de TI da Tokio Marine reagiu à sua promoção?
Ferrara ? Naturalmente. Ficaram todos muitos felizes pela condição. E as pessoas percebem que você põe a cabeça fora da janela o tempo todo e isso pede habilidade. Entrar no terreno alheio pode comprar uma grande encrenca ou mesmo um inimigo, dependendo da forma com a qual você se comunica. Então, há o jeito de dizer para outras áreas que, ao fazer determinada coisa, o processo ficará melhor. Não é muito fácil. As pessoas precisam te enxergar como um cara do bem e que não está ali para tomar o espaço dele. Trabalhei para ser presidente, me preparei. Mas nunca fiquei pelos cantos da companhia falando isso claramente. Tive várias oportunidades de ser e perdi chances ou mesmo não aceitei chances, agora surgiu novamente e resolvi aceitar. Achei que era o momento certo até pela experiência adquirida.
IWB ? Você já consegue pensar na empresa sem a cabeça de TI e sem desejar por a mão no trabalho da TI?
Ferrara ? É difícil. A tendência natural de uma pessoa que foi CIO, por formação, é ter um bom raciocínio lógico, uma sequência organizada de fazer as coisas, rapidez de pensamento ou mesmo ver a problemática e pensar na solução. Quem vem de TI, ao ver um problema, já pensa em uma solução para evitar novas ocorrências do mesmo tipo. Um exemplo: ao notar um procedimento errado que prejudicou o cliente na ponta, você pensa em como resolver e como tecnologia daria suporte. Um cidadão comum pensará em treinamento dos funcionários. Mas você treina e o cara sai e fica num círculo. Então, pense em como a TI pode ajudar para evitar que a pessoa erre, seja no comercial ou no call center. Assim, fica difícil. Mesmo na posição de presidente, quando vejo oportunidade de melhoria na companhia, naturalmente olho para a TI e digo que tem algo interessante para fazer, explicando, por enxergar a solução.
IWB ? Se você fosse contratar um CIO hoje, o que não poderia faltar nele?
Ferrara ? Empreendedorismo, conhecer tecnologia, ter dose de carisma, ser uma pessoa com vocação natural de inovação, enxergar as coisas sob o ponto de vista da inovação, ser uma pessoa que pensa constantemente em melhoria operacional, buscando oportunidade de redução de despesa dentro da companhia. Qualquer área na verdade precisa pensar assim e tecnologia permeia todas elas. O CIO normalmente pensa no orçamento da TI, mas ele precisa pensar na empresa como um todo. Um exemplo simples é o sistema de telefonia, com que se gasta muito. Como reduzir o custo unitário da telefonia? E, claramente, um bom gestor de pessoas e que conheça muito a área de negócio para a qual dará suporte.
*Entrevista originalmente publicada na edição 249 da revista InformationWeek Brasil
