Criar uma startup dá muito trabalho

A realidade é muito dura e cruel. A sua ideia fantástica pode virar pó rapidamente

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7:27 am - 28 de agosto de 2017

No dia a dia em mentorias, atuando em várias bancas de
avaliação e muitas conversas com fundadores de startups, consegui obter alguns
insights interessantes, que compartilho aqui.

Muitas vezes, em um bate-papo com um empreendedor, descobria
que ele só tinha uma ideia, mas que achava que ela, por si, criaria um
unicórnio. Por mais legal que a ideia seja, ela valerá, no máximo uns 5% do
valor do negócio. Os outros 95% são fruto de muito suor, da capacidade de
executar a ideia. Uma ideia sem realização é como você estar em um bote no meio
do oceano e descobrir que no fundo do mar, a dez mil metros de profundidade,
existe um tesouro bilionário. Se você não tiver capacidade e tecnologia para
chegar lá, o tesouro vai continuar inacessível. A ideia, é, na prática, uma
simples hipótese que você imagina sobre alguma coisa. Ela tem que se provar
verdadeira para ter valor.

Para dar certo, uma startup tem que oferecer um produto ou
serviço que resolva um problema. Uma startup é uma bactéria que vive e prolifera
no problema. Sem um problema real para resolver, não existe a razão de ser da
startup. E como achar um problema real? Observe o dia a dia. Se encontrar algo
que parece inconveniente ou caro, com percepção de valor desbalanceada, é um
problema em potencial em busca de uma solução.

Muito bem, você encontrou o problema e teve uma ideia que
vai solucioná-lo. Mas cuidado, não mergulhe direto na criação de um business
plan muito detalhado. Um plano de negócios exaustivo, detalhado não é legal,
pois acaba engessando a solução, torna sua startup inflexível. E muito
provavelmente, a ideia inicial não vai ser a que vai ser implementada. Como
disse o marechal de campo prussiano von Moltke, “Nenhum plano de batalha
sobrevive ao contato com o inimigo”.

Para um bom exemplo de como a ideia
inicial muda significativamente, olhem o Uber. O artigo “Uber’s
co-founder just shared the company’s original pitch deck from 2008 — take a look
,
de Garrett Camp, mostra claramente como a proposta do pitch inicial e o que foi
realmente implementado é muito diferente.

OK, então sem mergulhar a fundo no plano de negócios, apenas
o esboçando, vamos ao pitch. Aqueles discursos que os pitches devem ser de 3 a
5 minutos só valem para despertar atenção para sua startup. Na hora do
“vamos ver” onde entra negociação para o aporte financeiro, você tem
que estar muito bem preparado e não será após 5 minutos de conversa que o
investidor vai colocar dinheiro. Assim, vamos falar um pouco do pitch para você
apresentar a investidores. E não desanime se o seu pitch não gerar resultados
de primeira. O Airbnb também não conseguiu. Lembre-se que eles tiveram muitas
rejeições
antes de conseguir o aporte. Você vai estar em boa companhia. Os
fundadores do  Google fizeram 350 pitches
 e o do Skype 40, antes de conseguirem
financiamento de investidores.

Uma sugestão é o pitch deck  proposto pela Sequoia Capital. A sua
recomendação de pitch
é bem interessante. Basicamente você deve incluir o propósito da empresa (uma
única sentença que define o propósito e razão de ser da startup); o problema
que será atacado; a solução proposta (alguns exemplos de uso sempre serão
bem-vindos); por que agora (porque não existia uma solução antes?); o mercado
potencial (qual TAM- Total Addressable Market e como você chegou a ele); a
competição (quais são as suas vantagens competitivas); o produto ou serviço
(explique as funcionalidades, roadmap e feedback de clientes); como você vai
conseguir clientes (qual a estratégia de aquisição de clientes); business
model; a equipe (especialidades e responsabilidade de cada um, e se tiver um
board, recomendado, indique quem são os seus membros); a motivação do time (que
motivou os fundadores e como a equipe encara a ideia como solução para o
problema); a situação atual (qual seu status e objetivos de curto prazo);
financials (burn rate, captações já efetuadas, etc); a proposta ou deal
colocada na mesa; e como o aporte será usado. No final, se tiver uma demo,
ótimo!

startup

Recomendações básicas
Nunca leia seus slides para a
audiência. As pessoas sabem ler! Não use gráficos complicados, não polua os
slides com muita informação e nem crie muitos slides. Quinze slides é um bom
número. Em caso de dúvida, use sempre a máxima KISS – Keep it Simple! E,
principalmente, seja verdadeiro. Se você está falando com um investidor
competente o suficiente para investir na sua startup, ele também será competente
o suficiente para identificar as omissões ou informações negativas que você
esteja tentando esconder.

Uma outra sugestão: não crie uma startup sozinho. Tenha cofounders
com skills complementares, que compartilhem da mesma paixão pelo propósito, que
sejam confiáveis e comprometidos. E, importante, que haja respeito mútuo. Lutar
uma guerra sozinho é muito mais difícil. Conseguir um bom board de
aconselhamento também é uma boa ideia, pois você adquire experiência e passa
uma imagem de maior profissionalismo ao mercado. Para obter o máximo de seu
board, dê uma olhada no livro “Startup Boards: Getting the Most Out of Your
Board of Directors
”. 

Relembrando, sua ideia nada mais é que uma hipótese a ser
validada. Comece entrevistando potenciais clientes e veja seu interesse.
Construa um MVP para ser a prova de conceito de sua hipótese. Modifique-o à
medida que obtenha feedbacks, positivos e principalmente, os negativos. Não os
ignore. Também não se preocupe em criar um MVP fantástico. MVP significa
Minimum Viable Product e não Maximum Viable Product. O fundador do Linkedin,
Reid Hoffman, disse “”If You’re Not Embarrassed By The First Version Of
Your Product, You’ve Launched Too Late””. É a pura verdade. Timing é
importante, se você perder o trem bala, outros terão passado na sua frente.

Criar uma startup dá muito trabalho. A realidade é muito dura e
cruel. A sua ideia fantástica pode virar pó rapidamente. Mas, se você tiver
resiliência, confiança, eficiência (não gaste dinheiro onde não será
absolutamente necessário) e velocidade, suas chances de vencer aumentam
exponencialmente. Boa sorte!

 

(*) Cezar Taurion é
head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros
sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e
Big Data

 

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