Sinais que me guiam – a governança que inclui

Desafio de pais, educadores, cuidadores e famílias que trabalham com pessoas diagnosticadas dentro do espectro autista é construir pontes

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10:05 am - 28 de setembro de 2022

Eu vivo me perguntando o que foi mesmo que me levou a tornar-me investidor? Por que em startups? E o que me aproximou do tema governança?

Após uma intensa vivência de mais de trinta anos de aprendizado em empresas de tecnologia,e havendo passado pelo menos oito anos entre Inglaterra, Estados Unidos e China, eu tive a oportunidade de interagir com muitos estilos e culturas diversas, aprendendo ao longo dessa jornada a admirar a dinâmica de nossos ecossistemas corporativos com muitos empreendedores, parceiros de negócios e outros stakeholders. Imagino que quando concluí esse longo ciclo corporativo ao final de 2016, o interesse pelos fundamentos da Governança Corporativa e a participação em vários fóruns conectando empreendedores e investidores (IBGC, Cubo, Comunidade GoNew, Capitalismo Consciente etc.) acenderam a chama e o apetite de ser investidor-anjo.

Iniciei então minha nova e desafiadora jornada. Montei um checklist para selecionar as startups a serem investidas e quais os principais itens a considerar, o que investigar no pitch deck, quais modelos de projeções financeiras me dariam mais conforto para investir, que aspectos de governança deveriam estar presentes etc. E com essas “ferramentas” em mãos iniciei minha busca junto às várias plataformas de equity crowdfunding e alguns gestores de venture capital.

A Governança Corporativa capturou minha atenção em especial, e mais à frente explicarei o porquê. Foi quando conheci o Caderno de Governança Corporativa para Startups & Scale-ups do IBGC. Hoje sou membro da Comissão do IBGC que elaborou esse caderno e vem buscando aprimorar e acrescentar novas práticas ao mesmo, como a recém-lançada Métrica de GC para Startups e Scale-ups .

Foi com base nos fundamentos da boa Governança Corporativa e em meu aprendizado da vida pessoal com dois filhos gêmeos (hoje com dez anos de idade), ambos diagnosticados dentro do Transtorno do Espectro Autista, que venho me dedicando na busca de caminhos que nos levem a uma ¨sociedade mais diversa e inclusiva¨ para as futuras gerações. Uma das coisas que aprendi ao longo do caminho é que o autismo não é uma doença (da qual a pessoa vai ou não se curar algum dia), mas sim um conjunto de características especiais que norteiam o comportamento de um autista e suas reações às muitas interações sociais de nosso dia a dia.

O desafio dos pais, educadores, cuidadores,  famílias e equipes que trabalham com pessoas neuroatípicas diagnosticadas dentro do espectro autista é construir essas pontes para o bom convívio social independente e com qualidade, ajudando governo, empresas , escolas e entidades sociais, como a Specialisterne Brasil , que forma jovens autistas em várias áreas de TI (ex: robótica, programação, machine learning) e  trabalha em parceria com o RH de grandes empresas para a integração dos mesmos ao mercado de trabalho. Neste tipo de iniciativa, o ¨S¨ da onda global ESG (Environment, Social, Governance) tem um peso maior.

Tenho a oportunidade de participar, direta ou indiretamente, de outras inciativas, buscando disseminar tanto a INCLUSÃO como boas práticas de GOVERNANÇA, bem como de compartilhar esse aprendizado por meio das mídias sociais, ou mesmo grupos de discussão, com empreendedores, outros Investidores-anjos e gestores de venture capital:

  • PODCAST INTROVERTENDO  – programas de podcast feitos por jovens autistas (em sua maioria diagnosticados já na fase adulta), que discutem os principais temas e desafios do seu dia a dia sob a ótica de quem se encontra dentro do espectro autista.
  • FREEHELPERstartup social que integra seis mil voluntários a 300 ONGs (Organizações Não Governamentais) distribuídas pelo Brasil e se mantém com o suporte de parcerias e colaboradores.
  • INCLUEstartup inclusiva, na qual os empreendedores também são pessoas com necessidades especiais. Ela fornece uma solução com plataforma e treinamento que propiciam visitas agendadas de pessoas com necessidades especiais (ex: deficientes visuais, cadeirantes, neuroatípicos, idosos) aos vários estabelecimentos comerciais onde a solução foi implementada (ex: supermercados, lojas de departamentos).
  • Esporte&Inclusão – plataforma criada pelo professor de educação física Tiago Toledo, especializada em desenvolvimento motor de jovens e adultos neuroatípicos, com a utilização de vídeos educacionais, palestras e atividades presenciais que visam educar pais, psicólogos, cuidadores e professores, viabilizando a INCLUSÃO por meio das práticas esportivas.

Nessa mesma linha de pensamento, eu também recomendo o PODCAST Start Ups N´Downs,  ¨que destrincha os temas do dia a dia para quem empreende em startups e explora tópicos mais sensíveis que nem sempre são cobertos nos livros e cursos de governança¨.

Ao relembrar os pilares e lições ensinadas pelo Capitalismo Consciente (a importância de termos Propósito, Liderança, Cultura da empresa e a interação  com nossos  stakeholders) e refletir sobre tudo o que tenho visto na evolução dos vários ecossistemas de startups e comunidades (plataformas de equity crowdfunding, venture capital, edutechs) com as quais venho aprendendo nos últimos cinco anos, preocupa-me a dificuldade enfrentada por estas empresas e mesmo as com iniciativas de Corporate Venturing.

Entendo que as mesmas enfrentam um desafio enorme para se conscientizarem ou traduzirem para a suas realidades as premissas básicas, aliando GOVERNANÇA e estratégias SOCIAIS, passando por  ética, compliance, regulamentação e incentivos para a prática da INCLUSÃO e DIVERSIDADE, integrando stakeholders internos (empregados) e externos (fornecedores, clientes, parceiros de negócio etc.).

São, de fato, muitos gaps a serem endereçados e sobram perguntas ainda sem respostas. Mas, fica aberta a oportunidade para a criação de novas certificações  (ex : “Governança Social¨) ou novas profissões (ex : “Conselheiro Social¨) para nos ajudar a construir  pontes entre a nossa realidade atual e uma sociedade com mais inovações sociais, novos modelos de negócio de impacto social positivo, mais DIVERSA e mais INCLUSIVA. Sinto-me orgulhoso do que fiz até agora e motivado pelo muito que ainda há por fazer e pelo que poderei contribuir à frente.

* Marcelo Venturi é o orgulhoso pai de dois jovens autistas, além de Executivo de Marketing & Vendas com 30 anos de experiência no mercado de Tecnologia (22 anos na IBM), com vivência internacional de oito anos entre China, Estados Unidos e Inglaterra. No momento, atua como Investidor-Anjo e mentor de Startups, membro da Comissão de Startups e Scale-Ups do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e colaborador de várias iniciativas e instituições com impacto social positivo (¨sempre por uma Sociedade mais DIVERSA e INCLUSIVA¨).

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