Sem transparência, não há ESG

Para evitar o greenwashing digital, empresas devem ter compromisso com a divulgação de informações claras sobre suas ações sustentáveis

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9:43 am - 06 de outubro de 2023
Imagem: Shutterstock

Será que aquela marca verde que você compra é zero carbono porque compensa suas emissões com a compra em créditos de carbono ou porque investe em tecnologias que são de fato menos intensas nas emissões? Será que compensar é o mesmo que não emitir? Apesar do balanço geral ser zero, os fatores da soma aqui importam, sim – e fazem toda a diferença.

Falar de carbono não é um assunto trivial. Efeito estufa, poder de aquecimento global, óxido nitroso – são muito os termos técnicos de difícil compreensão. Levar esse tema ao grande público é desafiador – ou proveitoso. Muitas vezes, por trás das declarações bem-intencionadas e das campanhas de marketing de “tecnologia verde”, esconde-se uma realidade de menos virtudes. Isso se chama ‘greenwashing digital’, termo que se refere à prática de empresas de tecnologia que fazem afirmações falsas ou enganosas sobre os seus esforços ambientais e sociais, com o objetivo de melhorar a sua imagem pública e atrair consumidores.

Os gases de efeito estufa são naturais e essenciais para manter a vida na Terra como conhecemos. As mudanças climáticas são causadas pelo excesso desses gases na atmosfera. O Acordo de Paris marca a ação conjunta para combater essas mudanças. Por meio dele, nações se comprometeram a frear o aumento da temperatura média global em bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais.

Ter metas corporativas de carbono está em alta. Foi dada a largada para ser zero carbono até 2030. Será que nesse caso os fins justificam os meios? Um velho aliado para o benchmark no ESG são os selos, isto é, chancelas que nos permitem comparar bananas com laranjas e julgar qual é a mais sustentável.

Quando falamos de carbono, por exemplo, o Science Based Target Initiative (SBTi) é uma dessas ferramentas que nos ajudam a entender o que há por trás das promessas corporativas de zero. Metas submetidas e aprovadas pelo SBTi significam que, de fato, estão cientificamente em linha com o Acordo de Paris. Aquela diminuição de carbono pode colaborar para que o aquecimento global se mantenha nos níveis acordados pelo Acordo. É uma forma de diferenciar, por exemplo, o investimento em tecnologias de baixo carbono da compra de créditos como passo final. Em outras palavras, uma forma de diferenciar comprometimento com embasamento de um potencial marketing.

Esclarece-se aqui que a compra de créditos de carbono, na maioria das vezes menos custosa que investimentos em tecnologia, é bem-vinda e um importante passo na estratégia climática. Mas a tecnologia menos emissiva deve ser estudada e considerada como cartada final em uma estratégia realmente comprometida.

Toda essa discussão, necessária e interessante, ainda está distante do restrito público que chega ao shopping disposto a pagar mais por um tênis neutro em carbono. E pode estar investindo em um atalho da sustentabilidade que não necessariamente está comprometido como, por exemplo, um concorrente que não anuncia em megafones sua neutralidade, mas paga mais caro por uma energia renovável e compra em produtores locais. Isso sem poder, contudo, mostrar o seu compromisso ecológico de forma chamativa ao público e atrair o consumidor com esse diferencial.

No mercado digital isso pode ser bem mais comum do que parece. É preciso lembrar que um dos pilares do ESG é justamente a transparência. Números podem não ser exatos e podem camuflar a realidade. O que há por trás do zero? Como chegamos até ele? O que está incluído ali?

Boas notícias no mundo digital: segundo um estudo da Schneider Eletric, 73% das empresas do setor de tecnologia atribuem um grau elevado de importância ao ESG. Essa conscientização é um primeiro passo fundamental, sinalizando um desejo de mudança e um reconhecimento de que as companhias do mercado de tecnologia têm um papel significativo a desempenhar na construção de um futuro – verdadeiramente – mais sustentável.

Agora, diante disso, essas empresas precisam traduzir as suas intenções em atitudes concretas. Isso envolve a adoção de ações sólidas, a definição de metas específicas e mensuráveis e a divulgação de informações transparentes sobre o seu desempenho ESG. Para que o compromisso com a sustentabilidade seja plausível, é preciso fornecer informações detalhadas sobre as suas práticas, métricas de desempenho e metas de longo prazo.

A falta de transparência abre espaço para o greenwashing prosperar. Sem acesso a dados claros e informações verificáveis, os consumidores e investidores tecnológicos podem ser facilmente enganados por organizações que alegam estar fazendo mais do que realmente fazem. Sigamos levando essa discussão ao público e lembrando que sem transparência não há ESG. Antes de desejar a grama do vizinho, entendamos do que ela é feita. Antes de sermos mais e mais verdes, vamos focar no básico: ser transparentes.

*Fernanda Siqueira é coordenadora de ESG da ODATA.

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