Profissionais podem enfraquecer seu pensamento crítico ao abusar da IA

Estudos mostram que a IA reduz as oportunidades de exercitar análise e julgamento quando assume as partes mais desafiadoras do trabalho

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Michael Gerlich, da Swiss Business School, discursa no AI For Developing Countries Forum 2025, em Genebra - Foto: reprodução
Michael Gerlich, da Swiss Business School, discursa no AI For Developing Countries Forum 2025, em Genebra - Foto: reprodução

Muito se fala sobre o impacto da inteligência artificial no nosso desenvolvimento, mas me deparei com outra perspectiva sobre o tema há alguns dias, durante uma conversa sobre ganhos e perdas do home office. Algumas coisas são óbvias, como ganhar na qualidade de vida e perder na experiência das trocas contínuas com os colegas. Foi quando me perguntaram se a IA agravaria ainda mais as perdas.

Isso me fez pensar. Ao trocar o escritório pelo quarto de casa, deixamos de ter conversas inesperadas, conflitos, negociações e decisões compartilhadas, que alimentam um processo contínuo de aprendizagem. Mas o trabalho solitário ainda exige a fricção intelectual das tarefas, que preserva a ampliação de capacidades neurológicas, como neuroplasticidade, funções executivas, memória de trabalho e reconhecimento de padrões. Um uso inadequado da IA pode, sim, comprometer isso.

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Por “uso inadequado da IA”, eu me refiro a essa tecnologia assumir, de maneira sistemática, as partes mais difíceis de nossas atividades. Isso pode reduzir justamente os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais. E, aqui, quero deixar claro que não sou contra o home office ou a IA, mas me preocupo com o fato de “abusos” de ambos poderem efetivamente nos atrapalhar.

Especialistas não encontram soluções porque decoraram respostas, e sim porque enfrentaram centenas de situações difíceis ao longo da carreira. Cada problema resolvido ampliou seu repertório mental. Para eles, o desconforto cognitivo faz parte do aprendizado, portanto não buscam atalhos.

Infelizmente, observo, como pesquisador e consultor, muito do uso inadequado da IA. Enquanto isso, proliferam artigos, debates e cursos que enaltecem os ganhos dessa tecnologia, sem triscar nos seus riscos, como se ela fosse uma panaceia. Essa combinação é perigosíssima, e a sociedade precisa lidar com isso com urgência.


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Historicamente, as grandes inovações tecnológicas, via de regra, reduziram o esforço humano. Como exemplos comuns, o arado facilitou o plantio, que depois ficou melhor com a mecanização do campo, assim como calculadoras agilizaram operações matemáticas, ganho que foi ampliado por planilhas eletrônicas. Mas apesar dos inegáveis benefícios, nosso papel de analisar, decidir e criar sempre foi preservado.

A inteligência artificial é a primeira tecnologia capaz de assumir parte do processo de raciocínio. Por isso, ela não transforma apenas a forma como trabalhamos, mas também pode alterar a maneira como aprendemos, ficamos mais experientes e exercitamos o pensamento crítico. Isso explica por que desperta tanto entusiasmo e, ao mesmo tempo, preocupações associadas a maus usos dela.

Estudos acadêmicos vêm surgindo em todo mundo sobre isso. Em um deles, Michael Gerlich, da Swiss Business School (Suíça), encontrou correlação entre o uso mais intenso da IA e menores níveis de pensamento crítico. A causa estaria ligada ao chamado “descarregamento cognitivo”, quando transferimos para a tecnologia tarefas mentais que antes realizaríamos. Ele não afirma que a IA reduz o pensamento crítico automaticamente, e sim que pode diminuir as oportunidades de exercê-lo. Além disso, concluiu que os mais velhos e os mais escolarizados têm mais resistência a esse efeito, sugerindo que a fricção mental acumulada ao longo da carreira funciona como proteção contra o uso inadequado da tecnologia.

Em outro estudo, Hao-Ping Lee, da Universidade Carnegie Mellon (EUA), e um grupo de pesquisadores da Microsoft Research Cambridge (Reino Unido) concluíram que, quanto maior a confiança do trabalhador na capacidade da IA de executar uma tarefa, menor tende a ser seu pensamento crítico na avaliação dos resultados, mesmo sabendo que ela comete muitos erros. Por outro lado, quanto maior a confiança da pessoa na própria capacidade, maior o nível de análise crítica exercido sobre respostas produzidas pela máquina. Vale notar que o estudo mostra que o esforço não desaparece, apenas migra da busca de informação para a curadoria do que vem pronto. Isso sustenta a ideia de que a “muleta” começa a substituir o “músculo”.

Meu temor é que, em uma sociedade em que a rapidez na execução de uma tarefa fica cada vez mais importante que sua qualidade, tal “muleta” se torne um recurso padrão e até obrigatório. Ao recorrer à IA antes mesmo de tentar resolver um problema, profissionais poderão sofrer declínios cognitivos consideráveis.

Leia também: Influência da IA no trabalho muda como jovens escolhem suas carreiras

Bom uso versus mau uso

Devemos resistir à perigosa simplificação de dizer que a IA nos “emburrece”. Quando ela automatiza tarefas repetitivas, burocráticas ou operacionais, ela libera tempo que pode ser usado para atividades muito mais nobres, como criar, investigar, negociar, inovar e decidir. O problema surge quando, em vez disso, delegamos justamente à máquina aquilo que mais contribuiria para nossa evolução intelectual.

Redes neurais frequentemente ativadas tendem a se fortalecer, enquanto as que são pouco usadas ficam menos eficientes. Elas não desaparecem, mas seu desempenho pode diminuir com o tempo. Então, se a IA assume sistematicamente o que nos desafia, pode reduzir os estímulos que promovem os maiores ganhos cerebrais.

Ironicamente, essa não é uma discussão tecnológica, e sim cultural. Fomos educados a valorizar tecnologias que eliminavam esforço. Mas, com a IA, estamos eliminando um tipo de esforço que representa custo, mas também promove nosso aprendizado. Se o cérebro evolui ao enfrentar desafios, reduzi-los a todo momento pode produzir profissionais eficientes para executar tarefas, mas menos preparados para lidar com ambiguidades e construir pensamentos originais.

Isso não é algo hipotético ou restrito. Uma sociedade que se acostuma a aceitar respostas sem examiná-las corre o risco de enfraquecer sua capacidade que sustenta a inovação, a ciência, o jornalismo, a educação e até a democracia. Todos nós precisamos resgatar o hábito de questionar, de comparar evidências e de sustentar argumentos, e a inteligência artificial pode nos ajudar nisso. Esse é o bom uso!

Essa tecnologia disruptiva tem potencial para ampliar extraordinariamente nossas capacidades. Mas isso dependerá menos do que ela consegue fazer e mais do que decidiremos continuar fazendo por conta própria. Precisamos reforçar aquilo que nos colocou na liderança desse planeta, que é nossa disposição para pensar. E isso fica dramático quando a IA nos oferece atalhos para ignorar esse nosso maior diferencial.

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Sobre o Autor

Consultor de mídia e transformação digital, é professor no Mackenzie, ESPM, PUC e Metodista. Online desde 1987, trabalha com mídia digital desde 1995.

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