CEO da Bluefields conta como o fracasso com o modelo do Vale do Silício o levou a um modelo assertivo de negócios
O interesse do CEO da Bluefields, Paulo Humaitá, pelo universo das aceleradoras de startups começou a ganhar forma ainda durante a graduação em Economia na Universidade Estadual de Londrina, concluída em 2009. Embora já tivesse contato com incubadoras de empresas desde essa época, foi uma pesquisa realizada em 2016 que consolidou esse interesse e o levou a transformar a vontade de empreender e de apoiar outros empreendedores em um projeto concreto.
“Queria ajudar empreendedores, de forma técnica e pessoal. Porque empreender com tecnologia talvez seja o projeto mais desafiador da vida de alguém, ainda mais no Brasil”, comenta.
Para dar início ao negócio, Humaitá bateu na porta das grandes empresas de venture capital dos Estados Unidos. A empreitada pelo Vale do Silício passou por compreender os processos de aceleradoras como a Y Combinator e a TechStars, para depois trazer o conhecimento para replicar em empresas brasileiras. A segunda etapa, no entanto, não deu tão certo quanto ele esperava. Em tom de brincadeira, o executivo diz que a primeira fase da Bluefields acelerou a falência, e não a alavancagem, de 20 startups.
Foi então que Humaitá percebeu que o problema estava na tentativa de replicar o modelo estadunidense no Brasil. “O processo deles não funciona para nós. Não eram aquelas estratégias que ajudavam nosso empreendedor”. Entre as metodologias citadas pelo executivo, uma das que mais abria margem para desvios de rota era a de errar rápido. Segundo o CEO, o método funciona muito bem em culturas mais enrijecidas e com um perfil mais planejador, o que não é o caso do brasileiro.
“Enquanto o norte-americano planeja tudo, o brasileiro é o oposto. Não é uma das nossas fortalezas. Somos um povo com perfil mais mão na massa e, para isso, precisamos justamente de planejamento”, indica.
Como exemplo, ele menciona a construção de um MVP, que envolve estudar a viabilidade dos produtos no mercado antes de sua criação, uma etapa muitas vezes ignorada por empreendedores brasileiros e que leva à perda de dois recursos escassos em uma startup: tempo e dinheiro.
A solução então foi adaptar as estratégias recebidas e buscar por outros modelos. Foi quando o empreendedor se deparou com a Sinapis, uma aceleradora de startups queniana que criou uma rede de parceiros mundial e promove encontros de trocas de práticas entre eles. “Quando soube da Sinapis, entrei em contato com a fundadora. Ela disse que procuravam organizações fora da África para parcerias e nos convidou a conhecer o trabalho em Nairobi”, conta Paulo.
Após algumas semanas na capital queniana, aprendendo novas formas de acelerar negócios, a Bluefields foi selecionada como a primeira parceria da organização fora do continente africano, o que provocou seu relançamento um ano depois, agora com uma nova roupagem. “Vejo nosso relançamento em 2017 como o lançamento de uma nova Bluefields, mas com essa herança africana. Faz muito sentido pensar menos no Vale do Silício e mais na África. O contexto empreendedor queniano é muito mais parecido com o nosso do que o do Vale do Silício”, explica o empreendedor.
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Depois de quase dez anos atuando em parceria com a Sinapis, Humaitá aponta o perfil “fazedor” e a forte hospitalidade como os aspectos mais similares entre Brasil e Quênia. Uma das primeiras mudanças foi implementar educação financeira robusta, com trilhas que trouxessem conceitos básicos de administração de negócios.
“Nos Estados Unidos, as pessoas são financeiramente educadas desde a infância. Você produz um suco de limão e começa a calcular custo fixo e variável desde pequeno. O empreendedor brasileiro não tem ideia de como separar custo fixo de variável. Ainda acha que custo fixo é aquele que acontece todo mês”, afirma Humaitá.
Para Salome Ayugi, diretora associada de Projetos Especiais e Operações da Sinapis, as estratégias compartilhadas com Paulo foram criadas também para ajudar com um problema que ambos os países têm: a carga fiscal para abrir um negócio.
“Em países desenvolvidos, a carga fiscal não é tão rigorosa porque criaram infraestruturas que fomentam esse ambiente. Em países como o nosso existe muita burocracia, regulamentações e carga tributária pesada para quem quer começar algo novo”, comenta Ayugi.
Outro fator enfrentado por ambos os ecossistemas é a lacuna de financiamento. Apesar da criatividade, Brasil e Quênia enfrentam desconexão entre a expectativa dos fundos internacionais e as soluções criadas localmente.
“Há uma lacuna de compreensão quando alguém habituado a financiar futuros Ubers e TikToks chega aos nossos ecossistemas. Eles se esquecem de que estamos no ponto em que eles estavam há algumas décadas, com sistemas que dificultam a inovação”, observa Ayugi.
A Sinapis investe em promover diálogos entre fundos internacionais e criadores de startups quenianos, trazendo mais contexto para aqueles que vêm de fora do país. Salome defende que a localização dos programas de aceleração com a realidade de cada país deve ser feita de fim a fim.
“Especialmente agora que o financiamento está diminuindo, não podemos escrever propostas da mesma forma e receber a mesma quantidade de dinheiro. Precisamos ser criativos em relação às fontes de rendimento e queremos ver o que funcionou para outras pessoas para replicar em nosso ecossistema”, enfatiza.
No Quênia, a contextualização se encaminha para agricultura, forte vertical da economia. Ayugi percebe semelhança com o Brasil ao observar a quantidade de fintechs nos dois países.
“A necessidade é a mãe da invenção. Assim como vocês, temos muitas pessoas que não têm acesso a serviços bancários. Serviços de bancos digitais e o M-PESA, que seria o seu Pix, se proliferam por aqui”, pontua.
Desde sua criação em 2011, a Sinapis construiu parcerias com 13 países, incluindo México, Guatemala, Honduras, Libéria, Gana, Camarões, Egito e Moçambique, além de núcleos de operações em Uganda e Ruanda. A organização promove encontros presenciais anualmente entre os representantes de cada um para compartilhar ideias e melhores práticas.
“Além de trazer um senso de comunidade, estes encontros ajudam a ter novas perspectivas e se fortalecer naquele desânimo que pode bater neste mercado de empreendedorismo e aceleradoras”, afirma Salome.
Na Bluefields, a união da troca entre pares com a localização das metodologias para o cenário brasileiro rendeu frutos. Após retornar, Humaitá trouxe o conhecimento aprendido no contexto africano. A companhia logo passou a criar e aplicar uma metodologia própria, que misturava as sabedorias aprendidas com o que percebia como realidade presente apenas no Brasil.
Apesar de trazer essa bagagem educacional e colaborativa, foi preciso construir materiais alinhados às startups de tecnologia, foco principal da Bluefields. “A Sinapis é uma aceleradora com foco ligado a empresas com soluções de impacto. Nós também temos esse olhar, mas historicamente aceleramos mais startups de tecnologia. Precisamos construir do zero a parte de marketing digital, de crescimento tecnológico, de escala no Brasil. Mas tudo alinhado com os exemplos do material que herdamos”, exemplifica Humaitá.
O resultado, em oito anos atuando neste mercado, são mais de 300 startups aceleradas, com 60% delas ainda ativas e gerando cerca de 250 milhões de reais ao ano. Desde 2019, a empresa atende também grandes corporações, trazendo sua metodologia proprietária de inovação para projetos de consultoria para empresas como Bradesco, Tenda, Construtor, Grupo Jato e mais 50 organizações.
E o futuro visa a expansão. Após estabelecer suas raízes em São Paulo, a Bluefields deseja espalhar seus conhecimentos pelo solo nacional, atuando com presença marcante nas cinco regiões do Brasil e, posteriormente, em cinco países da América Latina.
“Assim como nos beneficiamos de uma rede, queremos construir um ecossistema global de inovação, partindo da nossa essência que é olhar para dentro de casa e expandir com o que temos aqui. Por isso a meta é chegar a dez hubs da Bluefields até 2040, sendo cinco nas regiões do Brasil e cinco em países da América Latina”, conclui Humaitá.
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