Diversidade em Conselho é poder!

Diferanças proporcionam aos conselhos mais capacidade para enfrentar os desafios enfrentados por empresas inovadoras

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10:17 am - 31 de março de 2022
Imagem: Shutterstock

Governança em startups é muitas vezes confundida com o estabelecimento de um Conselho Consultivo (ou mesmo de um Conselho de Administração) e as práticas que dele decorrem. Vejo isso em inúmeras das conversas que tenho com empreendedores e empreendedoras, por conta de minha atuação na Anjos do Brasil. Essa visão não poderia ser mais incompleta: governança para startups é um tema muito mais amplo, como mostra o caderno Governança Corporativa para Startups e Scale-ups , publicado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Em qualquer fase do negócio, a governança precisa endereçar os pilares de Estratégia & Sociedade, Pessoas & Recursos, Tecnologia & Propriedade Intelectual, e Processos & Accountability, estabelecendo princípios e diretrizes que permitam o crescimento acelerado, que é marca de uma startup. E não há forma melhor do que a diversidade para provocar, estabelecer e solidificar no conselho esses temas para o crescimento acelerado inerente a empresas nascentes inovadoras de alto impacto.

Embora não seja suficiente enquanto único mecanismo de governança, o Conselho Consultivo em uma startup é uma condição necessária, sendo muitas vezes o farol que sinaliza o que fazer para que essa governança funcione bem. Na maioria dos casos, a startup só estabelece um conselho após a primeira rodada de investimento e por demanda dos investidores anjos ou gestores de venture capital, que o entendem como um instrumento para apoio e agregação de valor, por meio do monitoramento de desempenho e da utilização do investimento. São startups em estágio de validação ou tração que, seguindo o caderno mencionado, têm como foco a estruturação das relações societárias, definições de instâncias de decisão e atração e retenção de talentos, bem como a construção de processos e controles.

Todos os tópicos acima mencionados são pontos-chaves no estabelecimento da cultura da startup e de sua dinâmica de crescimento. Portanto, a escolha dos participantes desse primeiro conselho deve ser feita de modo a incluir todas as competências necessárias para que isso ocorra. Infelizmente, na maioria dos casos não é isso que acontece e os conselhos são montados com as pessoas que estão por perto, sem o nível de reflexão necessária sobre a diversidade de perfis e o valor que ela agregaria.

Diversidade de conhecimentos, gênero, raça, orientação sexual, geografias, gerações e formação, só para citar alguns exemplos, proporciona conselhos que têm muito mais capacidade para endereçar os muitos desafios de criar uma empresa inovadora em cenários de incerteza. Afinal, agregam conhecimentos e pontos de vista diferentes, oferecendo uma ampla gama de ferramentas para que a startup supere obstáculos da sua jornada.

Ainda não temos dados sobre a diversidade em conselhos de startups, mas a experiência nos mostra que eles são similares aos que vemos nos de empresas maduras. Pesquisas recentes, como a da consultoria Comdinheiro, a pedido do Valor, ou da Teva Índices, a pedido de CNN Brasil Business, mostram que a participação feminina nos Conselhos de Administração das maiores companhias de capital aberto brasileiras tem variado entre 11% e 16% nos últimos anos. A de negros é ainda mais baixa, oscilando entre 4% e 6%, conforme o Índice de Equidade Racial Empresarial (IERE).

Conselheiros têm poder, não entendido como capacidade de mando, e sim no sentido próprio da palavra: de influência e de serem geradores de possibilidades e caminhos (nose in, fingers out). Fundamental para qualquer empresa, isso é ainda mais essencial para startups, que precisam construir um futuro realizando o presente todo o tempo. A sociedade demanda que as empresas estejam alinhadas com os valores de propósito e diversidade; logo, isso precisa estar presente nas pessoas que participam em suas instâncias de decisão. Incluir mulheres e negros nos conselhos é uma das decisões de negócios mais inteligentes que se pode tomar!

Conselhos mais diversos, incluindo mulheres e negros, não irão surgir espontaneamente. É necessário – e urgente – que sejamos agentes dessa transformação, atuando intencionalmente em nossos papéis, seja como pessoa que empreende, como pessoa que investe ou por meio de qualquer outro papel de ator do ecossistema. Essa mudança começa com atitudes muito simples, como trazer o assunto à tona e afirmar sua importância, esclarecendo que não é uma demanda vazia ou “de moda”, mas que terá um impacto positivo no negócio. A busca ativa de conselheiros e conselheiras efetivamente diversos, é um segundo passo e nos exige o esforço de ampliarmos nossa rede de contatos. Finalmente, precisamos mudar nossos critérios de mérito, ainda profundamente ligados a externalidades, por outros que reflitam nosso propósito de construção de uma sociedade mais justa. Possibilitar que pessoas diversas estejam em posições de poder é um dos melhores caminhos para essa construção.

*Maria Rita Spina Bueno é Diretora Executiva da Anjos do Brasil e fundadora do MIA – Mulheres Investidoras Anjo. Atua em Conselhos de organizações ligadas ao ecossistema empreendedor, como Artemísia e Rede Mulher Empreendedora. É cofundadora e Conselheira do Dínamo, movimento que atua na formulação de políticas públicas para empreendedorismo e investimento em startups e membro da Comissão de Startups e Scale-ups do IBGC

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