Boa governança cria bons unicórnios!

Como a Governança Corporativa pode contribuir para mitigar riscos de startups

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6:38 pm - 27 de outubro de 2021
Imagem: Shutterstock

Com uma certa frequência ouvimos e lemos sobre o resultado de estudos e pesquisas com relação à taxa de mortalidade de startups. Um estudo elaborado pela Fundação Dom Cabral em 2015, já apontava que metade das startups brasileiras morrem antes dos quatro anos de existência De acordo com um levantamento mundial feito recentemente pela empresa de pesquisa CB Insights com mais de 110 startups, uma das principais causas é o empreendedor ficar sem dinheiro ou não conseguir levantar capital. Entre as 12 principais causas está a desarmonia entre o time e/ou investidores.

O tema é de suma importância e assombra empreendedores, investidores-anjos e de venture capital, bem como o ecossistema. Será que basta uma boa ideia e algo inovador para atingirmos o tão sonhado reconhecimento de mercado e o sucesso do empreendimento? Aprendi ao longo da minha caminhada como empreendedora, executiva e mentora que a jornada é árdua, que a “big idea”, a grande ideia, a inovação totalmente disruptiva, não é suficiente e não garante o sucesso sem uma boa Governança Corporativa.

Pode parecer estranho pensar em uma estrutura de governança para uma empresa em estágio inicial sem validação do seu produto ou aceitação prévia do mercado, colocando todo o foco, naturalmente, em tracionar e passar o estágio do “vale da morte”.

Minha experiência como empreendedora

Quando decidi me tornar empreendedora, 20 anos atrás, éramos quatro sócios, sendo três investidores (sócios não-executivos) e eu a pessoa técnica que tocava o dia a dia do negócio. Naquela época nem falávamos em startup, mas hoje, com todo conhecimento que angariei, posso dizer, sem titubear, que montei uma startup, que foi adquirida nove anos depois por uma grande organização global.

O maior desafio que enfrentei como empreendedora, de fato, foi a relação com os sócios. Sem investimento próprio, somente com o meu conhecimento, me vi obrigada a aceitar algumas imposições por medo de perder minha cadeira. Com o tempo a sociedade foi se dissolvendo e, no final de três anos, o negócio ficou 100% nas minhas mãos.

Durante o processo de dissolução, sofri muitas perdas por falta de um bom acordo entre os sócios, especialmente oriundas da falta de clareza nos papéis e responsabilidades dos mesmos.

Após nove anos de uma experiência empreendedora, tive a oportunidade de relembrar meus erros e acertos durante um programa de aceleração em que atuei como mentora de uma startup. Tivemos a oportunidade de revisitar todos os processos e implementarmos a governança. Focamos, inicialmente, na elaboração de um acordo de sócios, estruturando os papéis e responsabilidade de cada um, na definição das participações societárias e, em especial, na dinâmica da eventual saída de sócios.

Dois anos depois veio a dissolução da sociedade. Com sorte, o acordo estava lá para proteger o fundador e o negócio. Essa é mais uma história que tinha tudo para dar errado, mas a governança mudou o jogo.

Benesses da Governança para startups

Trazendo o conteúdo mencionado no Caderno de Governança para Startups e Scaleups do IBGC “ninguém se casa já pensando no divórcio, mas uma reflexão prévia sobre as condições do término de um relacionamento pode poupar muitos dissabores”. Isso se aplica, perfeitamente, em um relacionamento de sócios.

O Caderno de Governança Corporativa para Startups e Scaleups, publicado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), ensina aplicar uma boa governança em cada estágio de maturidade das startups, além de abordar o foco que deve ser dado em cada um dos principais pilares de uma organização.

Esse é só um exemplo de como a aplicação de um processo de governança pode ajudar a mitigar riscos e “sofrimentos”. A governança é um item de destaque, pois traz luz para a solução de conflitos entre fundadores, alinhamento entre agentes de governança, definição clara dos papeis e responsabilidades, definição de mecanismos para discussão de estratégias de curto, médio e longo prazos e redução de incertezas. Ajuda e embasa a formalização de regras para situações de conflitos, inclusive de interesses, entre fundadores e novos sócios.

Mas a boa notícia é que hoje temos recursos e ferramentas para preparar uma startup para sua jornada de crescimento de forma bem organizada, com processos próprios, transparência e ética.

O Caderno de Governança para Startups tem servido como guia para muitos mentores, investidores-anjos, gestores de venture capital e empreendedores. Seu modelo de apresentação traz um formato acessível de aplicabilidade e funcionalidade para todos os tipos de empreendimentos, independente da fase que se encontra. Além disso, mostra que pode fazer a diferença para o crescimento e sustentabilidade dos negócios. Boas práticas de governança têm se mostrado relevantes para determinar o sucesso das startups ou até mesmo para prevenir problemas que costumeiramente drenam energia e esforços.

Dessa forma, conforme mencionado no Caderno, “podemos afirmar que a governança corporativa contribui para alavancar valor para a empresa e ajudá-la a caminhar mais longe, mais rápido e com menos risco” e quem sabe chegar à tão sonhada alcunha de unicórnio!

Recomendo a leitura!

* Raquel Teixeira é sócia Líder de EY Private Latam South na EY, lidera os programas de empreendedorismo da EY como Empreendedor do Ano EMPREENDEDOR DO ANO que reconhece e homenageia empreendedores que constroem jornadas de sucesso e WINNING WOMEN que apoia empreendedoras na superação de desafios e barreiras de crescimento dos seus negócios. Atua como mentora para startups e pequenas empresas. Conselheira do Instituto Rede Mulher Empreendedora. Conselheira da Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) e é membro da Comissão de Startups e Scale-ups do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

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