A importância da sintonia entre founders de startups e investidores

A sintonia é um processo de evolução contínua e mútua, no qual um lado ajuda o outro pela capacidade de desafiar e trazer novas perspectivas

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por IBGC
2:55 pm - 01 de dezembro de 2020
Foto: Adobe Stock

Há alguns dias conversei com o sócio fundador de uma das mais respeitadas gestoras de venture capital do Brasil. O motivo: conhecer mais a respeito do founder de uma potencial investida (startup). E a conversa me motivou a falar do tema que dá nome a este artigo.

Aos que acompanham meus artigos há algum tempo, devem se lembrar da fórmula e2 + g2 = s2 (a resultante da soma de um empreendedor excepcional – e2 -, a uma boa governança – g2 -, é uma startup de sucesso – s2). Naquele artigo falei sobre as habilidades que eu valorizava no empreendedor e que me ajudavam a nortear decisões. Pois bem, a conversa evidenciou o quão relevante a equação se mostra, mas pelo aspecto inverso, quando as coisas não dão certo.

Decorrente da conversa surgiu uma outra habilidade fundamental, em especial no momento da crise, saber escutar. Esta única habilidade é determinante na sintonia entre as partes, e pode significar a diferença entre o sucesso e o insucesso da startup. Mais ainda, ela potencializa a contribuição da governança. Nas organizações tradicionais, e que vão evoluindo no seu modelo de governança conforme crescem, é sabido que a melhor contribuição de um Conselho, seja ele de Administração ou Consultivo, se dá pela habilidade de ouvir. Lembro-me como se fosse ontem um dos melhores aprendizados que tive ao fazer o curso para formação de conselheiros: “um bom conselheiro é aquele que sabe fazer boas perguntas, ouvir e ponderar sobre as respostas e assim poder formular novas perguntas”. Esta frase pareceu especialmente desafiadora após décadas de carreira executiva, e me consumiu algum tempo para reconhecer sua importância.

A sintonia é um processo de evolução contínua e mútua, no qual um lado ajuda o outro a melhorar. Não pela capacidade de concordar sempre, ao contrário, pela capacidade de desafiar e buscar o consenso trazendo novas perspectivas. Quem já não ouviu a frase “duas cabeças pensam melhor que uma”? Tomemos como exemplo nossas vidas pessoais. Relacionamentos se aprofundam pela combinação de diversos fatores, não há como negar que sintonia é um dos principais, correto? Relacionamentos para durarem e crescerem demandam respeito às opiniões individuais, busca constante do melhor de cada um dos envolvidos, saber quando insistir e quando recuar de suas posições, sem invadir espaços, e mantendo a harmonia no dia a dia.

Se isto não é “governança”, “at its best”, o que é então?!

E voltando para a realidade corporativa, o Investidor, seja ele VC ou Anjo, que tem a intenção de contribuir além do capital financeiro, normalmente o faz através do instrumento chave da governança que é a formação de um Conselho. Daí vermos em dez, de cada dez, Term Sheets (Termos e condições do investimento) o requisito de formação e representação no Conselho da futura investida. Nem sempre a pedida tem objetivo tão nobre quanto a melhor governança, mas prefiro tratar apenas o aspecto virtuoso da coisa.

A sintonia deve se traduzir em investidores legitimamente interessados, capazes de fazer o melhor pelo negócio, e de founders capazes de tirar o máximo de lições aprendidas e experiência adquirida dos Investidores em situações e experiências anteriores. Desafiar a estratégia, o business plan e a visão de longo prazo só traz benefícios às partes. E se traduzem na construção de pilares sólidos de governança numa organização jovem e ambiciosa, que pretende ser a melhor no que se propõe a fazer.

Enfim, sintonia não é passível de mensuração como são TAM (sigla em inglês para: mercado total endereçável), ARR (sigla em inglês para: receita recorrente anual), e tantos outros. E não será endereçada com a obtenção de uma posição no Conselho. Portanto, buscar sinais que ela ocorrerá antes de investir é, na minha visão, um tremendo fator crítico de sucesso para ambas as partes.

 

*Giancarlo Berry é sócio da AcNext Capital e membro da Comissão de Startups e Scale-Ups do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

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