Benefícios obtidos com atraso de 3G não se justificam mais

A demora no processo licitatório, que posterga a implementação da tecnologia 3G no Brasil, permite o País não cometer os mesmos erros ocorridos na Europa. No entanto, este benefício está deixando de se tornar uma vantagem à medida que a adoção da terceira geração não emplaca no Brasil. A opinião é compartilhada por executivos da indústria, consultores e entidades do setor, que fazem coro pedindo mais atenção, principalmente, do governo às telecomunicações. “Não temos a obrigatoriedade de estar na crista da onda, mas este momento já passou. Hoje, 3G está madura, os problemas iniciais foram resolvidos, mas estamos atrasados”, destaca Newton Scartezini, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Elétrica e Eletrônica (Abinee). As indefinições do governo prejudicam possíveis investimentos no País. “O mercado de telecom é de longo prazo. Se não resolvermos isto logo, vamos perder investimento. É fundamental o governo, a Anatel e as empresas chegarem a um consenso”, ressalta Geraldo Guazzelli, diretor-comercial da Nortel. O atraso também compromete a capacidade do País de produzir e exportar produtos com a tecnologia 3G embarcada. Na visão de Ronaldo Sá, sócio e consultor da Orion Consultores, o Brasil está perdendo oportunidades de mercado. “O que ganhamos com 2G em termos de exportação, perdemos com 3G.”Entre os erros cometidos pelos países europeus, Sá cita os altos preços dos terminais. “Criou-se um mito de que 3G é para rico, mas esta é uma forma barata de colocar voz e banda larga na mão das pessoas”, explica. Uma alternativa para reverter este quadro está, segundo o consultor, no modelo proposto pela Anatel, segundo o qual quanto maior a cobertura oferecida pela operadora, menor o preço a ser pago pela licença. Sá cita projeções que apontam que, neste ano, haverá um aumento do acesso à internet por meio de terminais móveis, para comprovar que o mercado está maduro para implementação imediata.3G versus banda larga sem fio Assim como mostrou um estudo da In-Stat, divulgado nesta terça-feira (06/03), as três tecnologias capazes de transportar dados em banda larga sem fio para os terminais dos consumidores – WiFi, WiMAX e 3G – se complementam e não se anulam. O que precisa ficar claro – e o que vai diferenciar as operações – é o modelo de negócio adotado por cada telco. “A Motorola tem a percepção que o processo licitatório tem de ocorrer o quanto antes e o que vai ditar o que é melhor (migrar para 3G, optar pelo WiMAX ou operar nos dois) é o modelo de negócio de cada operadora”, pontua Eduardo Stéfano, vice-presidente de Networks & Enterprise da fabricante. Já Luis Minoru Shibata, diretor-geral do Yankee Group para América Latina, defende que as operadoras móveis vão migrar, naturalmente, para a terceira geração, assim como as fixas o farão em direção à banda larga sem fio. Em ambos os casos, a pendência recaí mais uma vez sobre o governo. E a importância de o órgão regulatório ter uma agenda clara para permitir esta movimentação da indústria fica latente. “Telecom não faz parte da agenda do País – e, enquanto, telecom não entrar na pauta, não evolui”, destaca Minoru. Uma das razões para esta ausência na agenda é a falta da percepção do valor das telecomunicações e de seus serviços, que não é comum para a sociedade em geral. “Se fosse, o Ministério das Comunicações daria mais importância”, contrapõe Minoru. Newton Scartezini, diretor da Abinee, concorda que existe um déficit cultural e de que é preciso educar o governo. “Quando o telefone celular foi lançado também disseram que era para rico. A verdade é que quem tem poder político não tem cultura sobre este assunto. É preciso derrubar mitos.”
