Aurélio Conrado Boni, do Bradesco: ?A curiosidade me motiva até hoje?

É cada vez menos comum ter pessoas que constroem suas carreiras dentro de uma organização e que nela permaneçam por vários anos, até décadas. As novas gerações anseiam por mudanças mais aceleradas e não se imaginam dentro de uma empresa por, sei lá, 45 anos. Mas é este período que Aurélio Conrado Boni está no Banco Bradesco. Alçado à vice-presidência executiva de TI no início deste ano, ele se mostra entusiasta da liderança participativa e se classifica como um eterno curioso.
?Hoje essa palavra, curioso, está transformada para inovador. Eu acho que, no começo, quem não tinha curiosidade, ficou parado no tempo. Tinha que tentar entender o que era o mundo, como poderia fazer uso daqueles computadores, ajudar nos negócios a partir da computação. A curiosidade me motiva até hoje, isso é o que mantém a gente vivo no dia a dia?, acredita.
Boni é de um tempo onde tudo precisava ser aprendido do zero. As coisas vinham se desenvolvendo rapidamente na área de TI, mas não havia literatura nacional. Ele lembra que, quando alguém viajava para o exterior, especialmente para os Estados Unidos, a expectativa era muito grande, porque sempre vinha algo novo na bagagem. Atualmente, o acesso é mais fácil. O executivo lembra, como se fosse hoje, de quando fez sua primeira viagem ao exterior para conhecer uma tecnologia que seria implantada no banco.
?Era 1979, meu diretor chegou para mim e falou sobre prospectar um novo equipamento e eu topei. Aí ele me disse: ?Olha, vamos providenciar tudo e você vai para o Japão?. Na época, eu tinha 28 anos. Fiquei no Japão por 19 dias numa fábrica que produzia computadores, fazendo testes, verificando se o equipamento era aderente para trazer ao Brasil e colocá-lo em operação. Fui eu e mais dois colegas. Passamos relatórios para diretoria e, três meses depois, os computadores vieram?, relembra.
Tão inusitada quanto a proposta de ida ao Japão, e o fato de ele tê-la aceitado mesmo antes de saber que cruzaria o oceano, foi o início de Boni na TI. Ele já era funcionário do banco, é verdade. Lá se vão 45 anos de casa, sendo 42 em tecnologia. Mas o que levou um técnico em administração e que, mais tarde, viria a se formar na universidade em administração de empresas a partir para TI? O VP diz que tudo aconteceu naturalmente.
?Em 1970, mais ou menos, a área começou a ter um pouco de notoriedade e comecei a dar uma olhada e ver o que a TI fazia. Na época, eu não sabia nada, não tinha revista, só sabia que havia computador e que estavam operacionalizando todo o banco e que havia uma perspectiva grande de carreira. Quem tinha ingressado para trabalhar com o tal do computador ganhava bem e eu decidi tentar.?
Nascido em 1951, casado, pai de três filhos, sendo que dois seguiram os passos do pai e trabalham com tecnologia, Boni iniciou seu desafio em TI trabalhando no turno da madrugada. Na mesma época, estava na faculdade. Então, saía do curso e corria para o banco. A vida mudou em 1972, logo após o casamento. Ele brinca dizendo que as pessoas ficaram com dó pelo fato de ele ser recém-casado e trabalhar de madrugada, assim, o trocaram de turno.
Em meio a tudo isso, ele se apaixonou pela parte técnica da TI. Conta que se interessava por todos os cursos, chegando a perder a conta da quantidade de treinamentos dos quais participou. Dentro do banco, entretanto, amadureceu e ganhou novas responsabilidades para exercer atividades competentes a um gestor.
?Adoro o que faço. Se não gostasse tanto, talvez, tivesse procurado outro caminho. Esse desafio não é uma novidade a cada dia, é uma a cada momento. Temos um departamento de inovação no banco, aquilo borbulha coisas novas. Gosto dessa procura pelo desconhecido. Você fazer o arroz com feijão todo o dia é fazer o tradicional, o que mais podemos fazer? O dia a dia tem que ser estável, mas não move futuro. Estou numa carreira que até hoje, quando minha equipe senta aqui e fala sobre algo diferente, meus olhos brilham.?
Implantação de caixas eletrônicos, atendimento via telefone, internet banking, diversos serviços que, aos poucos, revolucionaram a forma como o consumidor interage com o banco marcam a carreira de Boni no Bradesco. Ao longo de uma hora de bate papo, o VP citou por diversas vezes a importância vital de uma boa equipe. E hoje, à frente de uma das vice-presidências da instituição, ele leva isso extremamente a sério.
?Talvez, por eu estar há muito tempo na área, acho que consigo, junto com a equipe, levar motivação para o pessoal para concretizar os projetos, muitos estão comigo há mais de trinta anos. As vezes, nos entendemos pelos olhos. Tenho um grupo tão maduro que, quando me trazem as coisas, já vem tudo muito mastigado. Isso é liderança? Pode ser. A equipe tem que compreender aquilo que você quer. A liderança se faz muito pela participação, não gosto de dar missão e ser um cobrador, gosto de participar, claro que não consigo estar nos detalhes (são 3180 pessoas na TI). O clima do departamento que eu lidero é confiante.?
