Ao inovar, resista à tentação de procurar soluções

Se alguém vem até você com um problema, automaticamente você começa a pensar em uma solução. Isso é natural. Todo mundo o faz. Mas assim que você começa a pensar em como solucionar um caso, inconscientemente, você fecha todas as possibilidades de ter um entendimento mais profundo do problema e por isso não consegue encontrar uma solução realmente inovadora.
É o que defendem Bart Barthelemy e Candace Dalmagne-Rouge, diretor e gestora do programa de inovação, respectivamente, no laboratório IDEA do Instituto Wright Brothers, em Ohio, nos Estados Unidos. Em artigo na Harvard Business Review, eles detalham por que pensar em soluções é ineficaz quando se busca realmente inovar.
Para eles, é melhor começar a trabalhar no que eles chamam de ?espaço do problema?, e permanecer com esse direcionamento o maior tempo possível. Não entendeu? Eles exemplificam.
?Uma organização militar veio até nós porque as pessoas que estavam sendo observadas por drones [veículos aéreos não pilotados] estavam usando técnicas com fumaça para enganar as análises em vídeo e outros dados recolhidos pelo equipamento?, escrevem. Ao pedir por ajuda para entender as técnicas de dispersão, os militares já haviam movido do ?espaço do problema? para o ?espaço da solução? devido à maneira com a qual a solicitação foi feita. ?O cliente estava especificando o tipo de solução esperada?, completa.
Assim, os especialistas encorajaram a organização a permanecer no espaço do problema, muitas vezes nomeado de front end pelas organizações, a fim de entender melhor o que se tratava. Dessa maneira, rapidamente os envolvidos se deram conta de que a análise era prejudicada porque há limitações das habilidades de percepção dos analistas. O real problema era entender quais eram essas limitações.
Para explorar ainda mais o caso, Barthelemy e Candace trouxeram pessoas fora da área militar, experts em confundir as pessoas, e outros especialistas em trazer sentido a informações ambíguas. O primeiro grupo incluía um ilusionista e um designer teatral, enquanto o segundo continha um especialista forense e um deficiente visual que estava acostumado a sentir se seu cão-guia estava levando-o a ambientes perigosos ou não.
Os insights desses colaboradores deram novas ideias ao cliente sobre novas rotas a serem seguidas na pesquisa. Por exemplo, o feed de informação dos analistas poderia conter outros tipos de dado, como sons ou até mesmo cheiros?
Voltando à inovação empresarial. O que isso representa para um problema que necessita de uma solução ou prática inovadora?
?Primeiro, force o foco no espaço do problema o maior tempo possível?, ressaltam Barthelemy e Candace. Às vezes, companhias enfrentam restrições nos tipos de soluções que elas têm a seu alcance ? e isso é considerado pela dupla. ?Contudo, frequentemente essas limitações são puramente psicológicas, o resultado de uma mentalidade estreita sobre a natureza do problema?, ponderam.
Ao procurar por questões dentro na esfera do problema, eles sugerem questionar qual o obstáculo real enfrentado e, uma vez identificado, vá ainda mais fundo. Qual a essência desse obstáculo?
?Então busque por diferentes perspectivas do obstáculo. Se afaste de seu campo, encontre pessoas que encontraram o mesmo desafio em sua essência e escute suas ideias?, completam. E essa metodologia não precisa ser difícil, porque pode significar apenas ler revistas ou livros aos quais você nunca deu atenção antes, ou até chamar uma organização até então distante que inclui pessoas que enfrentam esses obstáculos regularmente. ?Não tenha medo de trazer gente de fora para a discussão. Descobrimos que as pessoas com um background abrangente normalmente estão dispostas a ajudar ? eles acham a experiência fascinante?, relata a dupla.
Reflita sobre o ambiente físico no qual você irá explorar o espaço do problema ? muitas companhias reúnem equipes em salas de reunião ou espaços em hotéis, mas isso pode ser um bloqueador. ?Encontre alguma coisa mais útil para a troca de ideias, um espaço confortável onde você pode se desviar das atividades do dia a dia, formar e reformar pequenos grupos, escrever nas paredes?, sugerem.
O planejamento deve ser feito cuidadosamente. Quando trabalhamos com misturar e relacionar ideias, não confie na sorte ? conversas devem ser estruturadas a fim de serem enriquecedoras e não contraproducentes.
Claro que Barthelemy e Candace reconhecem a dificuldade de lidar com isso, e muitas vezes pode haver frustrações pela resistência em focar nos problemas, não nos resultados. Eles contam que quando as pessoas escutam que estão menos interessadas em propor soluções para um problema do cliente do que ouvir as questões envolvidas, elas se sentem frustradas.
?Mas refletir sobre o problema vale o esforço. Se você se apressar em buscar uma solução, você corre o risco de resolver o problema errado?, conclui a dupla de especialistas.
