Alerta em Davos: A Quarta Revolução Industrial já chegou

As máquinas são nossas ferramentas, mas pode chegar o momento em que não seremos mais capazes de controlá-las

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7:07 am - 25 de janeiro de 2016

Agora, em janeiro de 2016, durante o Fórum Mundial de Davos, seu chairman
Klaus Schwab disse que uma mudança estrutural está em andamento na
economia mundial, no que seria o início da Quarta Revolução Industrial.
Segundo ele, esta revolução aprofundaria elementos da Terceira
Revolução, a da computação e faria uma “fusão de tecnologias, borrando
as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”.

Na opinião de Schwab, esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas,
terá impactos nos modelos e formas de fazer negócios e no mercado de
trabalho. Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas
as regiões do mundo. Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e
perdedores. “As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da
história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial
perigo”. O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, inclusive
com trabalhos intelectuais mais repetitivos substituídos pela
robotização. As mudanças são reais. Já estão aí.

Os impactos no mercado de trabalho já vem sendo
debatido, com algumas previsões apocalípticas estimando que em 10 a 15
anos cerca de metade das vagas de funções como operadores de
telemarketing, corretores, carteiros, jornalistas, desenvolvedores de
software e outras terão desaparecido, pelo uso de softwares e robótica
encharcados de algoritmos inteligentes. As vendas de robôs, segundo a International Federation of Robotics tem crescido continuamente. Em 2015
foram vendidos, no mundo todo, 255 mil, e estima-se que em 2018 serão
400 mil.

Mas a grande ameaça aos empregos não está mais na indústria. Os
software inteligentes estão chegando ao setor de serviços. Hoje são
capazes de dirigir veículos, atender clientes em serviços de
telemarketing, preencher formulários de Imposto de renda, etc. Por
exemplo, alguns bancos como o DBS, de Singapura, o Royal Bank of Canada e
aqui no Brasil, o Bradesco, começam a experimentar o Watson da IBM
nesta função de atendimento aos clientes. Nos EUA, os gastos com call
center somam 112 bilhões de dólares e estima-se que cerca de 270 bilhões
de chamadas de clientes não sejam atendidas adequadamente. Uma das
causas principais são os problemas de acesso às informações e o
cruzamento de inúmeros dados em tempo real, tarefa impossível para um
ser humano apoiado por sistemas tradicionais, que disponibilizam
scripts pré-programados. A ideia é colocar sistemas como o Watson,
capazes de cruzar milhões de informações diferentes, como catálogos de
produtos, manuais de treinamento, termos e condições contratuais,
e-mails e chamadas anteriores dos clientes com problema
similares, fóruns de debate sobe o tema, histórico de atendimento do
call center, etc, para eliminar ou diminuir sensivelmente a taxa de
solicitações não atendidas.

Ainda são os primeiros passos, mas com a
evolução exponencial da tecnologia, estes passos se acelerarão muito
rapidamente. Embora o discurso dos fornecedores de tecnologia e das
empresas envolvidas seja sempre o de que o produto vai aprimorar o trabalho
das pessoas e não substituí-las, é inevitável que a cada habilidade
aprendida pelos computadores, milhões de empregos tenderão a
desaparecer. A tecnologia, ao longo do tempo, vai reduzir a demanda
pelos postos de trabalho que demandam menos habilidades, como exatamente
são os operadores de telemarketing. Foi assim nas linhas de produção
robotizadas, nas funções de datilografia, nos ascensoristas e hoje, na
redução significativa das vagas de secretariado.

Mas não é só. Na
Suíça, drones estão sendo testados para entregar documentos em
vilarejos distantes, substituindo os carteiros humanos nestas
atividades. A Amazon também está experimentando drones para entregas
rápidas nos EUA. Um artigo na Fortune  “5 white-collar jobs robots already have taken” aponta algumas outras experiências. O editor da
Robot Report diz que empresas como FedEx estudam a possibilidade de, no
futuro,  dispor de um centro de pilotagem com poucos pilotos voando
a sua imensa frota de aviões cargueiros. Estes aviões operarão como
drones, uma vez que não deverão levar passageiros. Cita também o CEO da empresa
de tecnologia russa Mail.Ru explicando que que está investindo em uma
startup que usará robôs para ensino de matemática nas escolas.

O risco
potencial é bem real. Recomendo a leitura de um paper muito instigante, “The
Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation
, que aborda o tema
“desemprego tecnológico”, com foco nos EUA. À medida que os avanços nas tecnologias de Machine Learning e robótica avançarem, será inevitável a substituição de
funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que envolvam tarefas e
procedimento bem definidos poderão ser substituídas por algoritmos
sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente ano a ano,
torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por
máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países
ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão
de obra barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma
totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos
pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando
as funções são os robôs. Este processo também está ocorrendo na China e
já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e cada uma delas
emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais.

O paper estima que cerca de 47% dos empregos atuais, nos EUA,
estão em risco. Entre estas funções estão motoristas de veículos como
caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas,
desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação,
etc. Esta é uma diferença significativa que a chamada Quarta Revolução
Industrial está provocando. Os “colarinhos azuis” ou operários já estão
diminuindo sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”, empregos nas
tarefas administrativas, também estão correndo o risco. Alguns
artigos mostram que os sistemas cognitivos baseados em algoritmos
inteligentes podem atuar em conjunto (as vezes substituindo) em várias
ocupações antes exclusivas das pessoas. Na medicina, por exemplo, vale a
pena ler o artigo  “The
Robot Will See You Now
, que embora de 2013,
discute ao assunto com clareza.

Tem também artigos bem polêmicos como
Do We Need Doctors or Algorithms?”, em que Vinod Khosla, co-fundador da
Sun Microsystems e hoje investidor em startups de tecnologia, afirma
que no futuro os sistemas inteligentes e robôs substituirão 80% dos
médicos americanos. Claro, gerou e ainda gera uma tremenda polêmica!

Os
advogados não ficam de fora. O artigo publicado no New York Times,
Armies of
Expensive Lawyers, Replaced by Cheaper Software
” estima que
serão necessários bem menos advogados, pois muitas de suas funções, que
são fazer buscas em documentos ou analisar casos similares poderão ser
feitas por algoritmos. No jornalismo temos alguns exemplos de
reportagens financeiras sendo feitas automaticamente por robôs, como descrito no artigo “AP´s  “robot journalists” are writing their own
stories now”
.

E em TI? Muitas funções feitas por desenvolvedores
de código poderão ser automatizadas. Algumas experiências já têm sido
feitas, como o conceito de Programming by Optimisation e de depuração
automática de código.

A Quarta Revolução Industrial afetará de
forma dramática o mercado de trabalho. Os primeiros estudos de seu
impacto mostram que a classe média será a principal prejudicada, pois
ocupam trabalhos em escritórios e são autores de trabalhos intelectuais,
como advogados e desenvolvedores de software, que tenderão a
desaparecer ou demandarão muito menos vagas que hoje. Claro,
novos empregos serão criados, mas exigirão conhecimentos muito
especializados e altos níveis de educação. Novas carreiras e funções,
que ainda não conhecemos, serão criadas, mas a dúvida é se serão em número
suficiente para recompor as vagas que desaparecerão.

Aqui no
Brasil este fenômeno acontecerá mais lentamente, primeiro porque o nível
de automatização de nossa indústria é baixo (temos 10 mil robôs
enquanto a Coréia do Sul compra 30 mil novos robôs por ano e a China
20 mil) e temos abundância de mão de obra não qualificada, que ao lado
de um empresariado conservador, que não investe intensamente  em inovação
tecnológica
, vai segurar o “tranco” por algum tempo.

Mas é
inevitável que a Quarta Revolução Industrial chegue aqui também. Vai
demandar um novo currículo educacional, que abandone a memorização de
fatos e fórmulas para focar mais em criatividade e comunicação, coisas
que as universidades brasileiras, em sua grande maioria, não estimulam.

Recomendo
a leitura do livro “The Future of the Professions” que aborda
discussões muito interessantes sobre o tema. Para os autores,
profissionais como advogados, médicos e contadores acreditam
na excepcionalidade humana. Muitos até admitem que seu conhecimento
especifico, adquirido a duras penas, será igualado, em um futuro
próximo, pelas máquinas. A verdade é que a maioria dos trabalhos
profissionais pode ser desdobrada em conjuntos de tarefas distintas.
Depois que são desmembrados, resta pouco o que não possa ser feito pelas
máquinas.

Enfim, é uma discussão que está apenas começando. Mas a
realidade vai vir rapido e ignorar a transformação que está ocorrendo
no mundo não vai impedi-la de acontecer e chegar aqui. As maquinas são
nossas ferramentas, mas pode chegar o momento em que não seremos mais
capazes de controlá-las. Portanto, precisamos decidir como queremos
viver com elas.

Uma discussão que não pode ser adiada.

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data

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