Disrupção ocorre na convergência tecnológica
Tentar desenhar estratégias isoladas para mobilidade, IA e Cloud Computing é o primeiro sintoma do insucesso que colocará em risco a sobrevivência dos CIOs

Nos mais de 30 anos de minha vida profissional venho
acompanhando de perto a trajetória do setor de TI e o papel dos seus gestores.
Os títulos variaram ao longo do tempo. Já convivi com muitos gerentes de CPD
quando o mainframe era a única computação disponível nas empresas. No início da
década de 80 surgiu o termo CIO, em um livro chamado “Information Resource
Management: Opportunities and Strategies for the 1980s”, publicado em 1981. Aos
poucos, a sigla foi se espalhando e hoje é basicamente o título de quem assume
a gestão de TI nas organizações.
Durante algumas décadas, dos anos 90 até poucos anos atrás,
o CIO se manteve firme, controlando de forma monopolista a adoção de
tecnologias nas empresas. A ambição máxima de quem entrava em computação era
chegar a esta posição. Nos últimos anos, principalmente com a rápida
disseminação de tecnologias móveis (smartphones) e conceitos transformadores,
como uso mais intenso de cloud computing e apps móveis, a velocidade da disseminação
das tecnologias nas empresas se acelerou muito.
A inovação tecnológica evoluiu e continua evoluindo exponencialmente, e
em consequência, os métodos, processos e papéis dos CIOs, conforme
estruturados e consolidados ao longo das últimas décadas, se tornou obsoleto.
As inovações disruptivas surgiram e continuam surgindo
diariamente. Apesar destas mudanças, a maioria dos CIOs continuou concentrando
seu foco na gestão dos bastidores, fazendo o “trabalho pesado”, garantindo
(ou tentando) que hackers não invadam seus sistemas, mantendo o parque
computacional operando sem interrupções (em cloud computing torna-se mais
complicado fazer isso com os processos atuais, pois o CIO não tem controle
sobre os equipamentos e nem sobre o data center onde estes equipamentos
operam), mantendo o ERP atualizado, negociando contratos com fornecedores de
tecnologia e assim por diante.
O fato é que a grande maioria dos CIOs não tem conseguido
acompanhar este ritmo, e como resultado, surgem comentários maldosos do tipo “colocar CIO e inovação na mesma frase é uma contradição em termos”. Não
que a culpa seja, necessariamente, dos CIO s(embora conheça muitos que se mantém na
sua zona de conforto tecnológica, sem maiores envolvimentos com o negócio), mas
principalmente devido ao papel que são obrigados a cumprir nas suas empresas.
Eles têm a responsabilidade de manter os sistemas legados, que são o cerne dos
processos atuais, e 80% ou mais do seu budget é para manter “as luzes acesas”
ou seja, o dia a dia da operação da TI sem down-times.
Consequentemente, para falar de inovação acaba-se indo ao
CMO (Chief Marketing Officer) ou ao CEO. Devido a importância da digitalização
da economia e dos negócios, recorre-se à figura de um CDO (Chief Digital
Officer) e pelo tsunami de dados que estão disponíveis para análises cria-se o
Chief Data Scientists, Machine Learning Engineers ou títulos correlatos.
Assim, pelas restrições que os CIOs impuseram ao longo das
décadas, assumindo o controle da homologação de quais tecnologias poderiam
entrar ou não na empresa, os usuários se incomodam em ver que em casa, eles e
seus filhos, usam tecnologias mais avançadas e intuitivas que as que dão
obrigadas a usar no escritório. Isto leva a disseminação da “Shadow IT” e faz
com que os budgets de tecnologia das empresas acabem sendo maiores fora da TI
tradicional.
Além disso, a cada dia vemos mais e mais a intimidade com a
tecnologia, principalmente da nova geração, se espalhando pelas atividades
profissionais. Usar sofisticadas apps em nuvem hoje é tão corriqueiro para um
profissional de TI quanto para um agrônomo, um fazendeiro ou um advogado.
A realidade nua e crua é que o conceito da jornada da
transformação digital está ganhando substância e a transformação digital, como
o primeiro passo para a transformação dos negócios, não espera por ninguém, nem
pelo CIO. Ele já está perdendo _ se já não perdeu _ o controle da inovação digital
nas empresas. Os executivos de negócio estão cada vez mais envolvidos e
conscientes que o futuro e a vantagem competitiva das suas empresas estão no
mundo digital. Já entendem que ficar para trás nesta corrida é perder
competitividade e, pior, colocar em risco a sua própria sobrevivência
empresarial. Já perceberam que a
transformação digital não é um fim em si mesmo, mas apenas o fundamento, os
pilares para algo maior: a transformação dos negócios na era pós-digital. Transformações que serão dramáticas e virarão os negócios atuais de ponta
cabeça. Portanto, se a transformação digital é a fundação, e se a área de TI
pouco pode contribuir, passa-se por cima dela.
Este alerta foi dado no Fórum Mundial de Davos, lá em
janeiro de 2016, quando seu chairman, Klaus Schwab, disse que uma mudança
estrutural estava em andamento na economia mundial, no que já se configura como o início da
Quarta Revolução Industrial. Segundo ele, esta revolução aprofundaria elementos
da Terceira Revolução, da computação e faria uma “fusão de tecnologias,
borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”.
Esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas, terá
impactos nos modelos e formas de fazer de negócios e no mercado de trabalho.
Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas as regiões do
mundo. Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e perdedores. “As mudanças são
tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de
maior promessa ou potencial perigo”. Administrar essa mudança de paradigma é essencial para assegurar a estabilidade econômica e
social e consequentemente a sobrevivência das empresas. O grande desafio,
segundo Schwab, é que as autoridades políticas e os executivos frequentemente
prisioneiros do pensamento tradicional, estão absorvidos demais por questões
imediatas para pensar estrategicamente sobre as formas de disrupção e inovação
que estão modelando o futuro.
A quarta revolução se apoia na terceira, conhecida como
revolução digital, e que permitiu a proliferação de computadores e smartphones.
Esta nova onda de transformações difere da anteriores por três razões:
a) As inovações nunca foram difundidas tão rapidamente como
agora.
b) A queda dos custos marginais de produção e o surgimento
de plataformas que agregam e concentram atividades em vários setores elevam a
economia de escala.
c) Essa revolução afetará todos os países e terá impactos
sistêmico em várias áreas.
O consumidor, por exemplo, fica cada dia mais engajado, e
transforma-se em “ consumi-ator”, com as novas maneiras de usar a tecnologia para
mudar comportamentos e sistemas de produção. O mercado de trabalho será afetado
dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais repetitivos
substituídos pela robotização, com intenso uso de Inteligência Artificial. As mudanças não são perspectivas, mas reais. Já
estão aí. As empresas precisam se antecipar e preparar-se para elas. É questão
de sobrevivência e não de opção.
Diante deste cenário, como ficará o CIO?
A função de manter
“as luzes acesas” continua, mas as luzes serão acesas em data centers espalhados
por provedores de serviços de nuvem. Os sistemas legados também continuam, mas
novos sistemas os substituem pouco a pouco. O ERP, que era o motivador de
muitas áreas de TI, perdem seu espaço, tornando-se legados e “comoditizados”. Os
novos sistemas, apps móveis, contextuais, baseados em algoritmos de IA, estão
sendo desenvolvidos fora da TI atual, em startups ou em labs que não estão
ligados à TI.
O que fazer então para não perder a relevância profissional?

Vejo com satisfação que muitos estão começando a agir, mas observo que a grande
maioria dos CIOs, embora já investindo em tecnologias como mobilidade, IA e
Cloud Computing, ainda fazem ações isoladas e desconectadas das estratégias de
transformação dos negócios. Alguns ainda falam em “estratégia de cloud”,
“estratégia de mobilidade” e “estratégia de IA” como se fossem ações isoladas e
independentes. Não são. Cloud computing será a nova infra, mobilidade (apps e
chaatbots) será é o meio de acesso a informação, mídias sociais refletem os
hábitos da sociedade (seus clientes e funcionários) e IA será o a base das
killer applications. São parte integrante e indissolúveis da transformação
digital e tentar desenhar estratégias isoladas para cada uma é o primeiro
sintoma do insucesso à frente. A disrupção ocorre na convergência tecnológica.
Para continuar relevante, os CIOs precisam assumir de forma
estratégica e proativa a liderança da transformação dos negócios, sendo o
interlocutor de tecnologia junto ao CEO e aos demais C-levels. Não podem
continuar exercendo apenas uma função operacional. Têm que sair do contexto
atual, exemplificado com primor por um CIO americano ao dizer “ My former boss
used to say: “there are only two types of projects: business successes and IT
failures”.
Isso implica mudanças significativas, principalmente contratando
e mantendo expertise adequada para novas expectativas tecnológicas, que vão
muito além de desenvolvedores Java e gerentes de rede. Muda o perfil da TI, muda
o perfil de seus profissionais, e muda o perfil do CIO.
Sim, o CIO pode reocupar o espaço que está sendo perdido. Mas, tem apenas duas alternativas: assumir a
liderança de execução do processo de transformação digital ou perder de vez a relevância. Para assumir a liderança da transformação digital precisa agir, sair da
casca e da zona de conforto. Deve começar a considerar como benchmark as
empresas nativas digitais como Amazon, Spotify, Google, e o que outras indústrias
estão fazendo. As “best practices” do seu setor podem não ser as que oferecem
as melhores experiências digitais para os seus clientes. Seu setor, como um
todo, pode estar caminhando em bloco para a obsolescência. O CIO precisa
ampliar seu horizonte.
A transformação digital muda o cenário para o qual o CIO foi
preparado: estável, de planos estratégicos de TI para cinco anos. Hoje o
competidor não está no radar e você nem sabe quem ele é. É uma startup que que
ele nem ouviu falar. E que não usa as mesmas regras de negócio que você.
Qual o cenário competitivo a que o CIO deve se acostumar? O de
setores de indústria bem definidos, com competidores estabelecidos e
conhecidos, para setores convergindo e assumindo atividades uns dos outros. Com
parceiros e clientes de hoje podendo ser os competidores amanhã. Startups desconhecidas
crescendo de forma rápida e tomando espaço tão arduamente conseguido por
empresas estabelecidas há décadas. Usuários cada vez mais empoderados pela
tecnologia digital, sabendo mais que você sobre você mesmo, e novos modelos
econômicos como a “shared economy” que mudam por completo o seu modelo de
negócios.
Para continuar relevante, o CIO deve entender que a
transformação digital vai atingir de forma disruptiva todos os setores, em
maior ou menor grau. E que é a base da fundação de uma transformação muito mais
ampla, que é a transformação dos negócios na era digital. Portanto é apenas o
ponto de partida, a base, que vai permitir construir novos e inovadores
negócios. A questão é se o CIO quer participar do jogo ou ser mero espectador.
(*) Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e
autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open
Source, Cloud Computing e Big Data
