Qual decisão da sua empresa demora mais do que o mercado pode esperar?

Corrida pela IA pode tornar a eficiência um requisito básico e transformar a tomada de decisão no novo campo de disputa

Publicado:

Leitura 4 minutos

decisao_1205245420
decisao_1205245420

*Por Domingos Bruno, especialista do IT Forum Inteligência

Vivemos, provavelmente, a transformação tecnológica mais rápida da história. Em pouco tempo, a Inteligência Artificial saiu dos laboratórios, ganhou espaço nas empresas e passou a ocupar a agenda de CEOs, Conselhos de Administração e investidores. Nunca se falou tanto sobre uma tecnologia em tão pouco tempo.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

Ainda assim, depois de acompanhar sucessivas revoluções tecnológicas ao longo da minha carreira, continuo com a mesma impressão: as tecnologias mudam. As decisões, quase nunca.

É justamente por isso que este artigo não é para quem ainda discute adoção. É para quem já tem IA em produção e começa a perceber que, apesar de toda a inovação, a empresa continua tomando decisões praticamente da mesma forma.

Não é a primeira vez que acreditamos que uma nova tecnologia mudaria completamente as empresas. Já vimos esse entusiasmo com os ERPs, com a internet, com a computação em nuvem e com a transformação digital. Em todos esses momentos existiu a oportunidade de rever a forma como as organizações operam e decidem. Em maior ou menor grau, preferimos preservar o modelo organizacional e capturar apenas parte do potencial que cada tecnologia oferecia. A Inteligência Artificial não inaugura esse desafio. Ela apenas elimina a possibilidade de adiá-lo.

Em uma reunião de conselho onde participo, a conversa seguiu o roteiro que tenho visto com frequência: plataformas, fornecedores, orçamento, governança e riscos. Até que alguém perguntou: ‘Por onde começamos?’. Respondi com outra pergunta: ‘Qual decisão importante desta empresa demora mais do que gostaríamos?’. O silêncio que veio em seguida valeu mais do que qualquer apresentação. Quando a pergunta muda, o problema também muda de lugar. Ele sai da área de tecnologia e vai para a mesa do CEO e do Conselho. Porque o gargalo raramente é tecnológico. Quase sempre é a forma como a organização toma decisões.

Leia também: ERP na nuvem: necessidade técnica ou imposição comercial?

Existe uma narrativa recorrente de que a Inteligência Artificial criará uma nova geração de líderes preparados para ocupar a cadeira de CEO. Discordo. A IA não cria esse perfil. Ela o revela. Da mesma forma, a IA também não cria organizações mais ágeis. Ela revela quais já sabiam aprender, decidir e mudar mais rápido que as outras.

Conheço várias empresas que acumulam projetos piloto, Marketing desenvolve agentes, operações automatizam análises, finanças aceleram projeções, mas nunca os integra ao sistema nervoso central do negócio. A tecnologia distribuiu capacidade analítica por toda a empresa. As decisões, porém, continuam percorrendo praticamente o mesmo caminho hierárquico de sempre. Talvez este seja o verdadeiro gargalo da transformação.

Existe outra consequência da IA que ainda recebe pouca atenção. Quando todas as empresas tiverem acesso às mesmas tecnologias, eficiência deixará de ser diferencial. O que hoje parece vantagem competitiva rapidamente se tornará requisito básico. O diferencial deixará de ser quem automatiza mais e passará a ser quem decide melhor.

É justamente aqui que o papel dos Conselhos e Comitês Executivos muda. Não porque seus membros precisem entender algoritmos, mas porque precisam fazer perguntas melhores. Talvez a pergunta mais importante seja: que mudanças no nosso modelo de gestão essa tecnologia exige e por que ainda resistimos a elas? Quando o topo da empresa começa a fazer essa pergunta, muda também o papel do CIO. Ele deixa de ser gestor de tecnologia para se tornar arquiteto da transformação do negócio.

A Inteligência Artificial continuará evoluindo. Como evoluíram todas as grandes revoluções tecnológicas que a antecederam. A diferença é que, desta vez, talvez ela não nos permita preservar, por muito mais tempo, modelos organizacionais concebidos para um mundo em que informação era escassa e decidir significava concentrar autoridade. No fim, talvez a pergunta mais importante não seja como adotar Inteligência Artificial. Talvez seja outra: o que precisa mudar na organização para que ela consiga capturar todo o potencial dessa tecnologia?

ChatGPT Image 20 de jul. de 2026 15 05 20

Domingos Bruno é Conselheiro e Tech Advisor com mais de 35 anos de carreira, liderando transformações digitais de larga escala em empresas de Consumo, Varejo e Farmacêutica.
linkedin logo linkedin icon transparent free png

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Sobre o Autor

O IT Forum Inteligência é o ecossistema de dados estratégicos e pesquisas de mercado do IT Forum, focado em traduzir o universo tecnológico em estratégias práticas para líderes de negócios e tecnologia

Ver publicações deste autor

Colunas relacionadas