Inteligência artificial altera a nossa forma de falar e pensar

Estudos mostram que a tecnologia já influencia palavras, estilos de escrita e até raciocínio, ampliando riscos de homogeneização cultural

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Hiromu Yakura, do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, identificou palavras recorrentes na IA – Foto: reprodução
Hiromu Yakura, do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano, identificou palavras recorrentes na IA – Foto: reprodução

Para quem escrever é um modo de vida, como eu, a influência da inteligência artificial generativa nos textos que inundam as redes sociais e até publicações sérias grita. Depois de quase quatro anos de ChatGPT, nem é preciso olhos muito treinados para identificar isso. Menos óbvio e mais grave é como essa dependência tecnológica crescente também está alterando como falamos e até pensamos.

À medida que as pessoas usam mais essa tecnologia para produzir mesmo textos prosaicos, dois fenômenos ocorrem. O primeiro consiste no uso recorrente das mesmas palavras e construções frasais, o que empobrece a transmissão de ideias e a torna mais prolixa. O outro é a diminuição de confiança dos autores em sua própria capacidade produtiva, o que retroalimenta essa dependência.

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Há ainda um terceiro fator que afeta mais cidadãos do chamado Sul Global, como o Brasil. Considerando que os modelos de IA são majoritariamente treinados com conteúdos da América do Norte e da Europa, principalmente em inglês, aos poucos o léxico, a estrutura gramatical, a formulação de ideias e até a ética daqueles países substitui insidiosamente as nossas versões dessas características. Isso inaugura uma nova dominação cultural, muito mais sutil e poderosa.

O uso exagerado e inconsequente da IA em nossas produções também cobra um preço alto em relações interpessoais. Cada vez mais pessoas reprovam publicamente essa prática, passando a questionar as habilidades de quem se vale dela.

Tudo isso resulta da natureza da IA generativa. Nunca houve uma tecnologia que nos impactasse cognitivamente de maneira tão decisiva. Esses desafios não podem ser ignorados, pois têm potencial de alterar sensivelmente a sociedade e os indivíduos.


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Essa prevalência da IA generativa acontece porque ela não está apenas em plataformas como ChatGPT, Claude ou Gemini. Como seu uso se tornou quase uma “obrigação”, essa tecnologia se disseminou pelas redes sociais, em ferramentas de e-mail e em sistemas corporativos. Fica muito difícil fugir de sua influência.

Se a mídia sempre popularizou expressões, a IA generativa agora faz isso de maneira mais intensa. Estudos acadêmicos apontam que mesmo pessoas que não usam essa tecnologia podem ser impactadas por essas mudanças que ela está promovendo. É como alguém sofrendo os efeitos do tabagismo apenas pelo “fumo passivo”.

Um estudo do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano (Alemanha) detalhou, ainda em 2024, esse fenômeno. Liderado por Hiromu Yakura, os pesquisadores identificaram a recorrência de um conjunto de palavras em mais de 360 mil vídeos do YouTube e 771 mil episódios de podcast, comparando o período antes e depois do lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022.

“A influência mensurável sobre a fala espontânea sugere que os seres humanos internalizam as escolhas lexicais dos grandes modelos de linguagem”, afirmam os cientistas. Segundo eles, esses resultados mostram que máquinas treinadas com conteúdo produzido por pessoas agora retroalimentam suas próprias características na linguagem humana, integrando-se a processos contínuos da evolução cultural. “Esse acoplamento suscita preocupações quanto à homogeneização linguística e ao potencial de influência cultural latente, em larga escala, concentrado nas mãos de um pequeno número de grandes fornecedores de IA”, concluem.

Outra pesquisa, liderada por Zhivar Sourati, da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), indicou que a IA generativa não apenas padroniza vocabulário, mas também tende a reforçar estilos de raciocínio dominantes e marginalizar vozes e estratégias alternativas de pensamento. Os autores relacionam esse efeito ao próprio desenho e uso massivo dos modelos, que espelham os padrões dominantes no conteúdo em seu treinamento e amplificam a convergência à medida que mais pessoas, em contextos diferentes, dependem dos mesmos sistemas. “Sem mecanismos que mitiguem esse processo, essa homogeneização pode achatar a diversidade cognitiva que sustenta a inteligência coletiva e a capacidade de adaptação”, alertam os pesquisadores.

É importante notar que a evolução da linguagem é um fenômeno multifatorial, com influência de mídias, modismos, contextos históricos e culturais. A IA certamente está desempenhando um papel intenso nessa mudança, mas ela não está sozinha.

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O jeito de escrever da IA

Por se tratar de máquinas estatísticas, as plataformas de IA ficam “viciadas” em palavras e expressões presentes em textos tidos como bons. O problema é que o abuso desses recursos acaba piorando suas produções.

Termos como “abranger”, “robusto”, “alavancar”, “nuances”, “desvendar” e expressões como “em última análise”, “de maneira geral”, “no mundo acelerado de hoje”, “desempenha um papel fundamental”, “em suma” e “diante desse cenário” ficaram “amaldiçoados” por surgirem demais nos textos da IA.

Isso não quer dizer que essas aparições automaticamente rotulem um texto como “produzido por IA”. Todos esses conteúdos naturalmente continuam legítimos e podem ser utilizados. Eu mesmo gosto de muitos deles.

Ainda assim, é interessante (e preocupante) ver como muitas pessoas estão evitando seu uso, assim como o travessão e os dois pontos (outros recursos abusados pela IA), com medo de serem “confundidos” com robôs. Mas o que “denuncia a IA” é a combinação de estilo excessivamente uniforme, palavras em série e pouca variação sintática.

Um terceiro estudo, liderado por Yalda Daryani, também da Universidade do Sul da Califórnia, sugere que a IA reflete, de forma desproporcional, um perfil demográfico restrito, predominantemente ocidental, liberal, de alta renda, altamente escolarizado, masculino e oriundo de países de língua inglesa, enquanto marginaliza não apenas culturas não ocidentais, mas também grupos diversos dentro das próprias sociedades, como idosos, comunidades religiosas e populações minoritárias.

Os pesquisadores propõem políticas públicas organizando o desenvolvimento da tecnologia para garantir diversidade cultural em todas as etapas de seu desenvolvimento. “Sem esse esforço, a IA corre o risco de corroer a pluralidade cultural da humanidade, substituindo tradições diversas por normas homogeneizadas moldadas por um subconjunto restrito da população mundial”, conclui.

Esses movimentos devem despertar a sociedade para a busca de soluções para o problema. A IA generativa é profundamente poderosa e deve ser aproveitada como recurso para melhorar nossos trabalhos. Mas precisamos de uma consciência em seu uso que hoje raramente é vista. Essa tecnologia deve ampliar nossos horizontes, e não diminuir o brilho da linguagem humana.

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Sobre o Autor

Consultor de mídia e transformação digital, é professor no Mackenzie, ESPM, PUC e Metodista. Online desde 1987, trabalha com mídia digital desde 1995.

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