Fashiontechs: tecnologia e o novo tabuleiro global

Em um mercado global mais regulado e protecionista, a tecnologia redefine a competitividade da moda

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No passado, a receita para internacionalizar uma marca de moda parecia simples: buscar manufatura de baixo custo em algum polo produtivo do Oriente e despachar os contêineres rumo aos mercados ocidentais. Hoje, essa bússola clássica está quebrada. O ambiente globalizado, longe de ser plano e pacífico, transformou-se em um labirinto instável onde a geopolítica dita as regras do jogo. A recente “turbulência tarifária”, que elevou as alíquotas de importação de vestuário a picos assombrosos de até 54% em grandes mercados mundiais, provou que a sobrevivência de uma marca não depende apenas do gênio estético de suas coleções, mas sim do seu rigor operacional, tecnológico e legal. 

Nesse novo tabuleiro, as fashiontechs – especialmente as Marcas Nativas Digitais Verticalizadas (DNVBs) – emergem como protagonistas ao demonstrar que a agilidade de software é o melhor escudo contra os choques protecionistas. Diante do encarecimento das importações tradicionais, a resposta inteligente não é a paralisia, mas o “sourcing” dinâmico e o “nearshoring”. Plataformas integradas de inteligência artificial já permitem simular em tempo real tarifas aduaneiras, custos logísticos e velocidade de entrega em múltiplos polos produtivos alternativos (como Vietnã, Camboja ou mesmo produção local de proximidade), redirecionando os pedidos de confecção antes que os impostos estrangulem a margem de lucro. 

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Além disso, a física do estoque foi totalmente ressignificada. O antigo modelo de grandes inventários imobilizados em portos distantes está sendo substituído por ecossistemas omnicanais integrados de alta velocidade. Operações como o BOPIS (comprar online e retirar na loja) e o BOSFS (enviar diretamente da loja física mais próxima) garantem o aproveitamento de 100% do inventário disponível. A tecnologia de identificação por radiofrequência (RFID) e o micro-fulfillment transformam os fundos das lojas em minicentros de distribuição automatizados, reduzindo custos de transporte em até 40% e gastos de retirada do cliente em assombrosos 90%. 

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Contudo, o maior teste para o letramento gerencial contemporâneo reside na conformidade regulatória. Na União Europeia, a Responsabilidade Estendida do Produtor (EPR) e o Passaporte Digital do Produto forçam as marcas a assumirem o descarte final de cada peça, sob pena de multas de até 7.500 euros por unidade em desconformidade.  

O ESG, portanto, deixou de ser uma escolha de relações públicas e tornou-se uma barreira alfandegária legal intransponível. A resposta a esse desafio chama-se “Traceability First” ou seja, rastreabilidade em primeiro lugar: rastrear o produto de ponta a ponta, do cultivo do algodão à prateleira, usando Blockchain para criar um gêmeo digital imutável das peças e molecular markers diretamente nas fibras têxteis. E é aí que as startups relacionadas ao setor de moda ganham espaço, mostrando sua capacidade de ajudar todo o setor produtivo da moda. 

A internacionalização ágil não é mais sobre capital puro, mas sobre a capacidade humana e tecnológica de improvisar e responder com velocidade – uma verdadeira “bricolaje empresarial”, onde não são mais utilizadas as teorias engessadas sobre internacionalização e exportação, mas sim as partes das teorias que interessam para cada negócio. 

Para que esse ecossistema funcione, é urgente requalificar nossa força de trabalho (Workforce Rewired), substituindo processos manuais por competências analíticas sustentadas por inteligência artificial explicável. O futuro da moda global pertence aos líderes que souberem aliar a intuição do design à precisão cirúrgica da governança cibernética e para isso serão necessárias tecnologias, softwares de ponta para acompanhar todo o processo. 

Fotos Evelin Priscila Trindade O potencial das empresas brasileiras de software no mercado internacional Evelin Priscila Trindade é pesquisadora do Think Tank ABES, Doutora em Gestão do Conhecimento, Especialista em Internacionalização e Fashiontechs, Professora Universitária e Fundadora da CIGEB Consultoria. As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, os posicionamentos da Associação.

 

 

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Sobre o Autor

A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) atua com o propósito de contribuir para a construção de um Brasil Mais Digital e Menos Desigual, porque acredita que a tecnologia da informação desempenha um papel fundamental para a democratização do conhecimento e a criação de novas oportunidades, visando melhor qualidade de vida para todos, de forma inclusiva e igualitária. Diante desse propósito, o objetivo da ABES é o de assegurar um ambiente de negócios propício à inovação, ético, dinâmico, sustentável e competitivo globalmente.

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