5 solicitações de BI que a TI deve contestar

Quando eu penso sobre o negócio da tecnologia, me lembro de uma piada do grande comediante Mitch Hedberg: “Eu não fiz faculdade”, dizia ele, “mas se tivesse feito, faria todas as minhas provas em um restaurante, porque o cliente tem sempre razão”.
Embora muitos tecnólogos se recusem a admitir, estamos no ramo dos restaurantes. E realizamos um desserviço aos nossos clientes partindo do pressuposto que eles têm sempre razão.
Sem meias-palavras, clientes do negócio não têm sempre razão. Muito pelo contrário. Pense, por exemplo, em business intelligence, que, aliás, eu considero o nome mais irônico no setor de software. Potenciais clientes de BI raramente entendem tanto de dados e software quanto seus complexos problemas realmente exigem. Poucos, se há algum deles, ambicionam por uma cultura direcionada por dados, e poucos ainda têm um guia prático pra isso. Portanto, a ideia de que clientes que buscam por BI sabem do que precisam – ou têm noção do que é possível – é um exagero.
É nossa responsabilidade garantir que investimentos em tecnologia sejam mais do que flertes. Para isso, aqui listo cinco solicitações de BI vindos de clientes “que sempre têm razão”, que podem parecer inteligentes, mas as organizações de TI devem contestar.
1. Vamos entregar o que estiver no RFP/BRD.
Porque, afinal, foi montado com o input de todos. E o que poderia dar errado quando há tanto consenso envolvido, certo?
Bueller?
Antes de ler seu próximo RFD ou BRD, faça um favor a si mesmo e coloque “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, na sua playlist. Se você for um nerd devoto, vai reconhecer a música de “2001: Uma odisseia no espaço”. Aquele homem primitivo usando alegremente o osso gigante como uma ferramenta representa o momento em que nos tornamos humanos. E é inteiramente apropriado ter essa música tocando ao fundo enquanto você lê seu próximo RFD ou BRD, porque enquanto nós superamos, como espécie, todos aqueles pelos, nós nunca superamos o osso.
O que o tempo ainda não nos ensinou é que enquanto as ferramentas servem para aprimorar capacidades humanas, elas geralmente têm de construir alguma coisa. E, quanto mais sofisticada a ferramenta – por exemplo, software que automatiza uma função ou processo complexo – mais provável se torna a necessidade de ter alguma habilidade presente antes da ferramenta.
Em outras palavras, se insight de negócio acionável, o recheio da lenda de BI, for o pico do Monte Everest, então, mesmo com as melhores botas de escalada não será possível conseguir fortalecer as panturrilhas organizacionais ou melhorar a capacidade pulmonar. Não há porque construir ou comprar melhores picaretas de gelo se a equipe de escalada não tiver braços. E eu te desafio a encontrar um RFP ou BRD que não seja focado em botas e picaretas.
Nossa centralização em ferramentas conectadas precisa de uma seringa no pescoço. E o diálogo entre tecnologia e negócio, capturado em RFDs e BRDs, precisa focar exclusivamente na criação de competências e habilidades para popular e consumir os fascinantes painéis de BI.
Falando nisso…
2. Vamos focar em fazer painéis incríveis
O ponto aqui é simples: O valor de BI é o investimento que você faz em dados. Aqueles belos painéis não são sequer “a última milha”. Estão mais para a última polegada. E tudo que vem antes deles é mais importante. A entrada de dados é mais importante. ETL, metadados, taxonomia, relatórios de exceção. Tudo.
O que torna muito mais difícil quando ouço…
3. Vamos trabalhar com os dados que temos
Uma rápida piada. Uma mulher entra em uma sala cavernosa e completamente escura. A única luz no lugar é uma pequena lâmpada em um canto, presa à parede, iluminando o chão. Um homem está ajoelhado no chão abaixo da lâmpada, o rosto próximo ao chão, procurando por alguma coisa. A mulher pergunta o que ele está procurando e ele responde: “percepção de negócio”.
A mulher se ajoelha e começa a procurar também. Depois de um tempo, ela olha para ele e pergunta: “você perdeu aqui?”. Ele responde: “Não, mas aqui tem luz”.
Esse homem é o típico cliente de BI. E essa luz está iluminando os dados que ele acha que tem.
Seu objetivo deveria ser iluminar todo o ambiente ou se poupar de gastos com implementação de BI. Porque, em minha experiência, nunca é aquele conjunto de dados “iluminados” que interessa. E sim a relação entre esses dados e o resto dos dados não iluminados que contêm real valor de negócio.
Por exemplo, colocar todos os seus contatos de venda em um sistema de CRM é pouco útil. Mas, o verdadeiro valor dos dados pode brilhar quando você aprofunda-se nas relações entre seu telefone, seu e-mail e logs de viagem, o que te permite responder a perguntas como: as comissões de vendas são realmente merecidas?
Ao se limitar aos “dados que temos”, a maioria dos painéis de BI é ambiciosamente desafiada.
Eles mal respondem os “o quês” e deixam os mais interessantes “porquês” à imaginação.
A parte imperdoável é que eles dão a sua organização um falso conforto de que você está tomando decisões baseadas em dados, quando, na verdade, você está operando em instinto.
Conforme você começa a iluminar toda a sala, você precisa colocar toda sua organização lá dentro. A adoção expandida das plataformas de BI é crítica para o sucesso. A adoção expandida é crítica porque o consumo regular e difundido de dados é o que força sua limpeza. E quanto mais gente os consome, maior a urgência por gerenciamento real de dados e investimento em qualidade de dados.
Mais luz leva a mais uso de dados, o que leva a dados mais limpos, que leva a mais luz.
Feito corretamente, este é circulo vicioso de BI. Leva ao tipo de cultura aberta e transparente que Louis Brandeis tinha em mente quando disse que “a luz do sol é o melhor desinfetante”.
4. Vamos focar nas prioridades do negócio
Dado que BI agrega mais valor quando é entrelaçado à vida cotidiana de toda a organização, apenas uma palavra desmorona toda a sentença acima: meu. É preciso que seja “nosso”, e isso na forma mais ampla possível.
xiste, sempre, um equilíbrio delicado. Eis um exemplo da mistura certa:
O escritório do CIO libera uma lista de valores da empresa que se aplicam a quase todos os funcionários em todos os níveis da organização. Valores tais como foco em execução, excelência operacional, resiliência, confiabilidade e gerenciamento de risco.
Cada valor está ligado a métricas específicas (por exemplo, gerenciamento de risco junta diversos indicadores de preparação para continuidade de negócio no plano do funcionário, registro de participantes em treinamento de compliance e uma mistura de objetivos semelhantes).
Desdobramentos hierárquicos são calculados para todos os indivíduos até o CIO e são agrupados na forma como a empresa é organizada. O CIO transforma em dever a revisão regular dos painéis com suas direções, responsabilizando líderes seniores por seus grupos.
As informações de todos são abertas para todos. E os painéis oferecem as legendas para completar a transparência sobre como os pacotes de métricas são calculados.
Eu já usei esses painéis e eles criam um ambiente competitivo apropriado acerca dos valores centrais da empresa. As pessoas, em todos os níveis da organização, começam a competir com seus colegas no tipo de comportamento positivo que importa.
Mudança cultural no estilo de Brandeis.
5. Vamos trazer um cara de dados esperto
Não posso enumerar as vezes que testemunhei um líder de prioridade do negócio dizer: “vamos contratar um cara de ____ esperto”. Preencha a lacuna com o que quer que aquele executivo sênior tenha ouvido de um cliente importante ou se inspirado na última conferência em que participou: dados, métricas, cultura, o que for.
“Trazer um cara” é o sinal mais claro de que “a mudança” – qualquer que seja – não é importante o bastante para que a empresa repriorize o que os melhores profissionais internos estão fazendo. E não acredite no raciocínio de que as estrelas existentes não têm a experiência certa. Isso nunca os impediu. É por isso que eles são as estrelas.
Existem muitas razões pelas quais BI ou dados ou uma cultura direcionada por dados mais ambiciosa deve ser liderada por uma estrela interna. Com mais probabilidade, a estrela:
— conhece todos os jogadores apropriados, interna e externamente;
— compreende a elasticidade da cultura existente;
— tem um rico histórico com a empresa (por exemplo, sabe onde os corpos estão enterrados).
Em outras palavras, as estrelas compreendem o contexto do negócio. E não consigo pensar em nada mais importante ao trazer uma mudança transformacional, já que seu negócio espera êxito.
Você não é especial.
Quando se trata de BI e quase todas as outras tecnologias, é tentador pensar nos clientes do negócio como infalíveis e nos problemas de seu negócio como exceção. Eles não são e eles não são.
Se você é um fornecedor de BI cuja renda principal vem de ferramentas/plataformas/licenças, recomponha suas ofertas para focar na criação de competências de dados.
Se você for um usuário corporativo, destaque a vaidade dos gastos com tecnologia que tornam mais fácil/mais rápido/mais barato fazer alguma coisa que sua organização não tem habilidade para fazer mais difícil/mais devagar/mais caro.
E inversamente, se você for um profissional de TI, sabe que, a não ser que você acelere a criação das habilidades necessárias para a melhor adoção de tecnologias, você não abrirá caminho para o consumo de tecnologias custo-eficientes. É uma forma pomposa de dizer que fracassou.
E deixando de lado a conversa pomposa, pelo amor de deus, tire-nos do ramo dos restaurantes: fale a verdade para o cliente.
