O XP morreu. De novo?

Um começo difícil
É verdade que, como todo sujeito bem sucedido, o XP teve um início de vida ingrato. E não deveria ter tido, já que oficialmente foi lançado para substituir o Windows Me, talvez o único sistema operacional mais malvisto pelos usuários que o Vista. Mas era grande demais a mudança de paradigma em relação ao Windows 98, seu real antecessor (vamos esquecer o Me; na verdade a MS está tentando fazer isto desde setembro de 2000, quando o lançou, mas não consegue; suspeito que seus desenvolvedores de vez em quanto despertam no meio da noite, aterrorizados, em meio a um pesadelo onde ainda são obrigados a rodar o monstrengo que criaram, mas para nós, usuários, é fácil fingir que ele não existiu).
Mas, voltando ao XP: no princípio o mercado relutou em aceitar um SO aparentemente tão diferente, com novidades como a área de notificação (que Windows 7 eliminou, fundindo-a com a Barra de Tarefas, mas que foi um enorme avanço para a época) e a própria Barra de Tarefas, com seu Menu Iniciar e botões que permitiam interagir com os programas ativos mesmo minimizados.
Relutou tanto que a MS, espremida entre um Windows Me, cuja usabilidade oscilava perigosamente perto de zero e cuja estabilidade ainda era mais baixa, e o próprio XP, que então sofria de rejeição por parte dos usuários, teve que fazer uma apressada maquilagem no seu sistema operacional corporativo, o velho Windows NT, que então já havia evoluído e se chamava Windows 2000, dotá-lo de uma interface mais amigável, pendurar nele alguns brinquedos tipo joguinhos, tocadores de música e passadores de filmes (“media player“), adocica-lo um pouco para quebrar a seriedade de um sistema criado para os sisudos escritórios e, enfim, pô-lo ao alcance do usuário doméstico.
Eu mesmo fui um dos que adotaram o Windows 2000 nos primeiros tempos do XP que, aqui entre nós, na tenra infância pecava um pouco no que toca à estabilidade e por isto mesmo angariou certa má fama da qual só se livrou algum tempo depois que foi lançado seu primeiro pacote de serviços, o Windows XP SP1, em 9 de setembro de 2002, pouco menos de um ano depois do lançamento. Além disso, como todo sistema operacional recém-lançado, o XP esperava rodar em uma máquina “de ponta”, o que fez com que os proprietários de sistemas mais antigos o acusassem injustamente de lentidão.
As queixas contra a lentidão desapareceram na medida em que o parque instalado de PCs nas mãos de usuários domésticos foi aos poucos se atualizando. E o SP1 efetivamente corrigiu praticamente todos os defeitos congênitos do XP. Mas, como sabem certas donzelas, principalmente de pequenas cidades do interior (ah, meu Deus, vou ser acusado de machista de novo…) da má fama, depois que “pega”, custa um pouco a se livrar mesmo quando se mantém por um bom tempo um comportamento irrepreensível. E surgiu então um fenômeno curioso: o XP, inquestionavelmente o mais bem sucedido sistema operacional para micros pessoais, foi também o mais criticado (é verdade que o Vista e o Me disputaram com empenho este duvidoso laurel, mas como duraram menos tempo no mercado, perderam de longe). Tanto assim que a Wikipedia mantém um artigo exclusivamente sobre o assunto.
A razão das críticas reside no fato de ser o mercado ingrato como certos amantes (homens, desta vez) que não sabem viver sem a amada mas, não obstante, dela reclamam o tempo todo (como já veremos, a MS se deixou levar pelas queixas ao lançar o Vista e quebrou a cara).
Expliquemos.
Das queixas, a principal era a falta de segurança. O curioso é que, exceto seu irmão mais velho 2000 que, como sabemos, foi concebido para uso corporativo, o recém-falecido XP foi o primeiro sistema operacional desenvolvido para uso doméstico que, justamente para aumentar a segurança, procurou isolar o usuário da raiz do sistema permitindo a manutenção de uma conta com privilégios de administrador para tarefas como instalação de programas e coisas que tais, e a criação de contas individuais com privilégios limitados. Que, se fossem usadas pela maioria dos usuários, evitariam que pragas como vírus, cavalos de Tróia e outros programas mal intencionados se instalassem na máquina.
Mas o usuário é preguiçoso. E, em sua máquina e no mercado, é soberano. Resultado: o que se via em toda parte eram máquinas de uso compartilhado nas quais todos os usuários detinham privilégios administrativos. Uma festa. E um caldo de cultura para vírus, um prato cheio para a instalação de todo e qualquer programa, bem ou mal intencionado, com ou sem o conhecimento do usuário. Que, então, reclamava.

Durante toda a vida do XP (e, por paradoxal que pareça, ainda por mais quatro anos depois de sua morte; já falaremos nisto) a MS se esforçou para tapar buracos, emitindo uma após outra sucessivas atualizações de segurança e, por duas vezes depois do lançamento do SP1, consolidando-as em pacotes de serviços. O Windows XP SP2 foi emitido em 24 de agosto de 2004 e o Windows XP SP3 em abril de 2008, pouco antes da primeira tentativa de assassinato por parte da MS (pois, como vimos, as vendas avulsas do sistema foram suspensas três meses depois). Mas a imaginação criativa dos biltres que desenvolvem programas mal intencionados e a teimosia dos usuários em só usar contas com privilégios de administrador faziam com que a tarefa de tapar buracos se assemelhasse à tentativa de transportar água em peneiras. Bagle, Blaster, Mydoom, Netsky, Sasser e outras tantas pragas tornaram-se então tristemente famosas. E haja atualizações de segurança…
