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‘O que acontece com o bitcoin é um fenômeno cultural, não econômico’

Dizem que o maior afrodisíaco para uma pessoa são os olhos de outros. Embora a psicologia desaprove essa validação externa, o bitcoin está aí para provar que, pelo menos nas finanças e na economia, o desejo alheio é um aditivo importante.

A moeda digital mais famosa do mundo acumula alta de 877,5% nos últimos 12 meses, e está à beira de ver sua negociação atingir, pela primeira vez, a marca de US$ 60 mil, sob valor de mercado de mais de US$ 1 trilhão.

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Com a disparada da moeda sobem também as dúvidas e desconfianças, sobretudo porque o bitcoin tem uma origem, no mínimo, curiosa. Nativo digital, o bitcoin “nasceu” em uma publicação levada ao ar em janeiro de 2009, assinada pelo misterioso Satoshi Nakamoto. Com o título “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” (algo como “Bitcoin: Um Sistema de Pagamento Eletrônico de Pessoa a Pessoa”), o estudo elabora as diretrizes de uma moeda digital descentralizada, que dispensa agentes intermediários, como bancos e afins.

Para o pesquisador e palestrante Tarun Wadhwa, autor do livro “Identified: The Digital Transformation of Who We Are”, o fenômeno acerca do bitcoin é muito mais cultural que econômico. “É sempre um pouco confuso acompanhar a movimentação dos preços e tentar fazer algum sentido disso, mas com um distanciamento você entende que o que está acontecendo é uma disparada da demanda por uma moeda que seja nativa digital, barata e livre de intermediários como bancos e governos”, disse à reportagem do IT Forum.

Ainda de acordo com Wadhwa, o valor “absurdo” do bitcoin está ligado também à demanda “estrelada”. O pesquisador faz referência ao interesse de pessoas públicas, como Elon Musk, o fundador da Tesla, que recentemente tem advogado a favor das criptomoedas em entrevistas e em redes sociais. Sob a liderança do empresário, a Tesla desembolsou, em fevereiro, US$ 1,5 bilhão para a compra de bitcoins e anunciou que já está se preparando para aceitar a moeda digital como pagamento por seus carros, produtos e serviços.

Outra gigante que também se curvou recentemente à potência do bitcoin foi o PayPal. Com quase 350 milhões de usuários, a companhia se tornou a maior fintech a apoiar a onda da moeda digital quando anunciou, em outubro, que passaria a aceitar transações do tipo.

A novidade chegou dois anos depois que sua rival de pagamentos nos Estados Unidos, a Square, fez o mesmo movimento, aceitando a transação de Bitcoins em seu aplicativo Cash. A abrangência do PayPal, porém, é maior, uma vez que a companhia vai admitir o uso do Ethereum e Litecoin.

No ano que vem, a estratégia da empresa é estender essa novidade para mercados internacionais e para sua plataforma Venmo, usada por 52 milhões de pessoas.

“A mudança para as formas digitais de moedas é inevitável, trazendo vantagens claras em termos de inclusão financeira e acesso; eficiência, rapidez e resiliência do sistema de pagamentos”, disse Dan Schulman, CEO do PayPal, em comunicado oficial.

Mas nem tudo são flores. Com a mudança no sistema, é necessário enrijecer os protocolos de segurança, para evitar prejuízos. No caso do PayPal, por exemplo, a plataforma vai limitar a compra de criptomoedas disponíveis em sua plataforma, proibindo seus usuários de transferir fundos de outras carteiras digitais para o saldo do PayPal.

Segundo o advogado David Haas, especializado no assunto, uma das maiores preocupações é quanto às fraudes. “O bitcoin é uma moeda legal e reconhecida pelos Estados Unidos. Inclusive, é um ativo que deve ser incluído nas obrigações fiscais dos cidadãos. Por se tratar de uma plataforma descentralizada, porém, os usuários devem estar constantemente atentos às falcatruas, porque dependendo do golpe, não há uma ação legal cabível”, afirmou o advogado ao IT Forum.

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Já incluso na pauta de discussão do G20 Summit, encontro dos líderes das maiores economias do mundo, o bitcoin deve continuar sendo notícia por conta de sua trajetória. Segundo monitoramento do departamento de economia da UCLA, a moeda digital experimentou picos em 2011 e 2013, e em ambos os casos chegou a despencar 90% após a alta.

Dessa vez, contudo, a história pode ser diferente. Isso porque uma pesquisa conduzida pela Piplsay com mais de 30 mil voluntários americanos, mostrou que cerca de 27% dos participantes tinham planos de investir em bitcoin ainda este ano, e outros 25% já estão investindo na moeda.

Curiosamente, o mesmo estudo indicou que 43% dos entrevistados não entendem de criptomoedas e cerca de 13% sequer ouviram falar do assunto.

“Não acho que a questão do entendimento seja central no bitcoin. Muita gente pode não entender como Facebook e Instagram funcionam, mas dominam sua aplicação básica: curtir, comentar, postar e compartilhar. Da mesma forma, mesmo aqueles que não compreendem profundamente o bitcoin podem também comprar e vender, e é só isso que precisamos para que esse sistema de moeda descentralizada funcione”, conclui Wadhwa.

 

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