O Cerumano

Animais superiores
Agora vamos lá: estique seu braço na horizontal e imagine que seu comprimento do ombro até a extremidade da unha do dedo médio de sua mão espalmada, represente uma linha do tempo onde são marcados os fatos relevantes da evolução do planeta Terra. Imagine ainda que você considere o aparecimento do primeiro cerumano como um destes fatos relevantes e marque sua posição nesta linha do tempo medindo, a partir da extremidade da unha do dedo médio, um comprimento que represente proporcionalmente os últimos 195 mil anos.
Muito bem. Agora, pegue uma lixa de unhas destas bem grossas e execute uma única “lixada” na unha do dedo médio. Uma só, e nem precisa ser muito forte. Basta ser suficiente para raspar metade de um décimo de milímetro do comprimento da unha. Uma coisica de nada.
Feito?
Pois bem, levando em conta o conceito de “linha do tempo”, você acabou de remover da história do planeta Terra todos os vestígios da existência do cerumano. Nada restou. E só com uma lixadinha de unha…
Não obstante isto este animal cheio de si acha que o planeta no qual, historicamente, chegou agorinha mesmo, foi criado exclusivamente para seu desfrute e gozo e se considera dono dele. “Chegou agora e já quer sentar na janela”, como diria o Romário, futebolista que exibia um péssimo caráter até a vida lhe dar uma lição de humildade que o transformou em um deputado federal bastante atuante nas questões relativas à inclusão social de pessoas portadoras de deficiências.
Acha que estou equivocado? Então pense um pouco. Quem classifica as espécies vivas é o próprio cerumano. Que de tão presunçoso que é, ao distribui-las de acordo com o critério de “superiores” e “inferiores” estabelecido por ele próprio, se coloca no topo da pirâmide e encaixa os insetos perto da base. No entanto os carrapatos já perambulam pelo planeta há cem milhões de anos e a Periplaneta é um dos poucos gêneros que sobreviverá a qualquer tipo de catástrofe que atinja o planeta, inclusive doses maciças de radiação.
Ah, não conhece a Periplaneta? Se engana. Conhece, e bem. É a barata comum, um animal que existe em todo planeta, resiste às condições ambientais mais desfavoráveis, mede poucos centímetros e é praticamente inofensivo mas que, apesar disto, tem um mecanismo inato de defesa que a faz induzir tamanho medo no próprio cerumano ? inclusive nos machos da espécie, embora finjam que não ? que os faz correr para longe em vez de esmagá-la simplesmente pisando nela (olhe para a Figura 2 e veja se não lhe inspira uma vontade difícil de resistir de se afastar dela).
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E o cerumano acha que o “superior” é ele. Mude o critério para algo mais eficaz para a espécie, como por exemplo: “superior é a espécie que tem capacidade de sobreviver a hecatombes preservando seu material genético” e veja quais são aquelas efetivamente superiores…
Mas a presunção não para por aí. Pois como, além de classificar as espécies, é ele que as “batiza”, o cerumano escolheu para a sua o nome Homo sapiens sapiens. Ou seja, se acha tão sabido que, não lhe bastando um “sapiens”, recentemente acrescentou mais um.
Pois este bicho vaidoso e imperfeito se acha dono do planeta onde desembarcou ainda ontem e não se dá conta que, do ponto de vista da conservação ambiental, se comporta como uma praga.
