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O Cerumano

Se você reparou no título desta coluna e ainda assim decidiu lê-la, presumo que já saiba que ela nada tem a ver com informática ou qualquer tipo de tecnologia. Não obstante, sendo este um Fórum dedicado essencialmente a tais temas, reitero logo no começo para evitar reclamações daqueles que tiverem a complacência de lê-la até o final esperando que a partir de algum ponto ela venha a se voltar para eles: não vai acontecer. Toda ela será dedicada aos repulsivos hábitos de um estranho animal, um bípede mamífero da ordem dos primatas, animal imperfeito, egocêntrico e predador que, por razões que não consigo entender, “se acha”.

Há alguns anos ? na verdade, muitos anos, lá pela década de setenta do século passado ? li um excelente livro de Desmond Morris, “The naked ape”. Há uma tradução em português, “O macaco nu”, porém presumo que esteja esgotada. Por outro lado, fuçando aqui e ali, encontrei em um sítio russo dedicado a publicações científicas algo que parece uma reprodução do original inglês em formato PDF. Confesso que não a li toda, portanto não posso assegurar que seja fiel. Mas, pelo pouco que dela li, a recomendo a quem tem conhecimento suficiente do idioma. O autor, um zoólogo brilhante com quem compartilho (na verdade, com quem aprendi) muitas das ideias sobre o dito primata, adota uma postura interessante: imagina que um casal da referida espécie, sobre a qual ele finge ignorar qualquer conhecimento prévio, tenha casualmente dado com os costados no jardim zoológico em que trabalha. Para devidamente catalogá-la ele passa a estudar seu comportamento e o livro é um extraordinário relato sobre o que descobriu. Começa por batizá-la. E, considerando que existem 193 espécies de primatas não extintas das quais 192 têm o corpo totalmente coberto de pelos, ao contrário do casal da espécie desconhecida que acabou de receber, decide batizá-la de “macaco nu” – de onde deriva o nome do livro. Nesta coluna nos referiremos a este mesmo animal como “cerumano”.

O que Morris fez é um simulacro do ramo da biologia denominado “etologia”, ou “estudo do comportamento social e individual dos animais”. E conheço poucas coisas mais estranhas do que o comportamento social e individual do cerumano. Senão vejamos.

Afirmam os antropólogos que os primeiros exemplares da espécie surgiram há 195 mil anos no extremo sul do continente africano. De lá eles povoaram a África de onde, há cerca de setenta mil anos, atravessaram o Mar Vermelho e, pela costa da Arábia, atingiram a Ásia. Dali se espalharam: para o sul, povoaram a Oceania, para oeste, há cerca de quarenta mil anos, ocuparam a Europa, e há cerca de quinze mil anos, atravessando a pé um Estreito de Bering congelado por mais uma glaciação, penetraram nas Américas pelo norte, infestando assim todo o planeta Terra.

Planeta que nasceu há cinco bilhões de anos.

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