Um bicho gregário
Mas vamos adiante que ainda não cheguei ao ponto que me motivou a escrever esta coluna. Vejamos como o cerumano se comporta em relação a seu semelhante.
Em princípio, o cerumano é gregário. Ele tende a se agrupar e conviver com outros cerumanos. O que, aparentemente, é uma atitude positiva. Pelo menos assim parece até vermos como se comportam esses grupos em relação uns aos outros, sejam turmas, gangues, torcidas de futebol, compatriotas, seitas religiosas ou seja lá qual for o tipo ou porte do grupo.
Eles parecem se odiar.
Vejamos. No Rio Grande do Sul os naturais da cidade de Rio Grande nutrem um notório desprezo pelos da vizinha Pelotas, que retribuem o sentimento. Mas se unem com os habitantes das demais cidades gaúchas quando se trata da antipatia que devotam aos paulistas, que a devolvem com sobras. Porém gaúchos e paulistas, assim como os nativos dos demais estados brasileiros, se põem de acordo quando se trata de repudiar os argentinos que, como os paraguaios, retribuem o sentimento classificando os brasileiros de “macaquitos” (veja Figura 4, publicada no jornal paraguaio Centinela em 1867 e obtida no sítio Pirata dos Sete Mares). O que, naturalmente, não impede que argentinos, brasileiros, paraguaios e cidadãos dos demais países latino-americanos cultivem um sentimento misto de inveja e repúdio aos grandes irmãos do norte, que por sua vez devotam aos primeiros um indisfarçável desprezo, classificando-os de “cucarachos”. E os habitantes das Américas…
Ah, deixa pra lá, está ficando cansativo…
Menos mal seria se pelo menos cultivassem seu ódio em silêncio. Mas não: cedo ou tarde a coisa explode. Uma situação exemplar foi o que ocorreu na antiga República Socialista da Iugoslávia, onde sérvios, croatas, montenegrinos, bósnios e macedônios foram mantidos unidos por algumas décadas pela mão de ferro e pelo sorriso sedutor do Marechal Tito. Após sua morte, em 1980, foi o que se viu: uma série de conflitos explosivos entre vizinhos, com chacinas, genocídios e exemplos de crueldade inaudita que acabaram despedaçando o país em seis repúblicas e ceifando centenas de milhares de vidas de inocentes.
E o pior é que esta é a regra, não a exceção. Tanto quanto é do meu conhecimento, jamais se passou um único minuto na história da humanidade sem que um grupo não estivesse em conflito com outro. Conflitos que variam de escala desde a disputa localizada por territórios entre tribos indígenas até conflagrações mundiais como as duas grandes guerras do século passado. E a guerra da Coreia. E a do Vietnã. E a do Yom Kippur. E a do Golfo. E a que hoje assola a Síria. Além de dezenas de outras das quais mal ouvimos falar: há países africanos que se mantêm há décadas em estado de guerra e ninguém se importa sequer em divulgar. Ou seja: não há um só minuto em toda a história conhecida da humanidade em que em algum lugar do planeta um cerumano não estivesse se dedicando com empenho à cruel missão de tirar a vida de outro.
E olhe que vou deixar de lado os conflitos de fundo religioso. Mesmo porque me recuso terminantemente a discutir este tipo de questão já que é impossível argumentar contra a fé. Mas não posso deixar de mencionar que, para mim, a expressão “matar (ou morrer) em nome de Deus” jamais fez sentido. Parece-me o paradoxo máximo. Como tirar uma vida justamente em nome de algo que prega o mais absoluto respeito a ela? Mas, como mencionei acima, trata-se de uma questão de fé, que não aceita argumentação. Quando penso nela me vem à mente uma citação de Richard Dawkins na última edição comentada de seu excelente livro “The selfish gene”: “But what, after all, is faith? It is a state of mind that leads people to believe something ? it doesn?t matter what ? in the total absence of supporting evidence. ? faith seems to me to qualify as a kind of mental illness. It leads people to believe in whatever it is so strongly that in extreme cases they are prepared to kill and to die for it without the need for further justification” (Mas, afinal, o que é fé? É um estado de espírito que leva as pessoas a acreditar em algo ? não importa no que seja ? na ausência total de qualquer evidência que o comprove. … a fé me parece se qualificar como um tipo de doença mental. Ela leva pessoas a acreditarem seja lá no que for tão intensamente que em casos extremos elas estão preparadas para matar e morrer por isto sem a necessidade de qualquer justificativa adicional). Note que estou apenas citando Dawkins e, como disse antes, me recuso terminantemente a discutir assuntos de fundo religioso, portanto comentários sobre este tema serão solenemente ignorados. Quem quiser arguir o assunto sugiro uma visita ao sítio da Richard Dawkins Foundation for Research and Science, criada por ele para, entre outras coisas, sustentar este tipo de discussão. Incidentalmente: cultivo opinião semelhante sobre o conceito de “patriotismo”. Dia desses li em algum lugar uma frase que coincide com minha opinião sobre tal sentimento: “Na guerra o importante não é morrer por seu país. É fazer com que o adversário morra pelo dele”.
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