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Agentes de IA consomem 450% mais rede que humanos, e a Cisco quer ser a infraestrutura que sustenta isso

Cada agente de inteligência artificial consome 450% mais tráfego de rede do que um humano executando a mesma tarefa. O dado, publicado pela Cisco duas semanas antes do evento numa pesquisa própria sobre redes corporativas, pautou a abertura do Cisco Live 26*, realizada nesta terça-feira (02/06), em Las Vegas, nos Estados Unidos. Mais de 20 mil profissionais de tecnologia de 75 países acompanharam os anúncios presencialmente; a transmissão global foi aberta ao público sem custo.

O presidente e diretor de produtos da Cisco, Jeetu Patel, explica a diferença em termos práticos: enquanto um assistente virtual responde a perguntas e gera picos isolados de consumo, um agente autônomo opera 24 horas por dia, sete dias por semana, comunicando-se com outros agentes, acessando ferramentas e tomando decisões sem parar. O tráfego deixa de ser esporádico e vira uma corrente contínua. “Humanos clicam, agentes operam em massa”, diz Patel.

As projeções da Cisco indicam que o tráfego corporativo crescerá nove vezes até 2035 com a adoção de agentes autônomos, contra 2,5 vezes no cenário sem IA agêntica. O tráfego associado a cargas de IA deve triplicar nos próximos três anos. Patel chama o momento de “superciclo de rede” e afirma que o fenômeno não se limita aos centros de processamento de dados: os ambientes corporativos de escritório e filiais também precisarão de atualização.

Leia também: Empresas líderes em IA geram ganhos até 7,2 vezes maiores, aponta PwC

Plataforma unificada para humanos e agentes

O anúncio central do dia foi o Cisco Cloud Control, plataforma que unifica o gerenciamento de redes, segurança, computação, observabilidade e colaboração num único painel, com acesso por linguagem natural. A solução reúne os produtos Meraki, Nexus, Intersight, Splunk e Collaboration, e traz operações autônomas de rede com ciclos de correção fechados sem intervenção humana.

Dentro da plataforma, a Cisco apresentou o AI Canvas, espaço de trabalho compartilhado onde operadores humanos e agentes investigam e resolvem incidentes a partir dos mesmos dados em tempo real. Uma fila de ações exibe recomendações com análise de causa raiz e índices de confiança antes que qualquer mudança seja aplicada. O Cloud Control Studio, previsto para o final de 2026, acrescenta um construtor de agentes com conexão a mais de 50 plataformas de terceiros via protocolo aberto, além de um construtor de aplicações integrado ao Codex, ferramenta de programação da OpenAI.

A disponibilidade do Cloud Control começa pelos Estados Unidos, com expansão prevista para os trimestres seguintes. Na sessão com jornalistas, Patel diz que o ciclo de incorporação de retorno dos clientes ao produto já corre em horas. “Queremos que os primeiros clientes tenham sucesso antes de escalar. É assim que a adoção se sustenta.”

Quando o intervalo entre vulnerabilidade e ataque caiu para minutos

O CEO da Cisco, Chuck Robbins, e Patel voltaram ao Mythos, modelo de IA da Anthropic, mais de uma vez ao longo da manhã. Com modelos dessa geração, argumentam, o tempo entre a divulgação de uma vulnerabilidade e sua exploração por atacantes caiu de semanas para minutos, às vezes segundos. “Estamos num mundo pós-Mythos”, diz Patel. “A segurança tem que estar fundida à rede, não instalada em cima dela.”

Em resposta a isso, a Cisco anunciou a expansão do Live Protect para proteger mais produtos, incluindo os switches Nexus 9000, contra novas vulnerabilidades em tempo de execução, sem reinicializações, atualizações ou interrupções. O produto funciona como um escudo aplicável nos intervalos entre ciclos de correção, exatamente o período em que o risco é maior.

O AI Defense, lançado há 18 meses para monitorar modelos de linguagem em produção, foi expandido para agentes autônomos, com suporte declarado para Claude, Codex e outras plataformas. O Defense Cloud, anunciado na conferência de segurança RSA em abril e disponível como código aberto, verifica servidores de contexto e integra-se ao Splunk Cloud.

A Cisco comprometeu-se a tornar a maioria de seu portfólio principal resistente a ataques quânticos até dezembro de 2026, e anunciou que todos os roteadores, switches e sistemas de proteção de rede empresariais lançados a partir de agora virão com essa proteção por padrão.

Na sessão com jornalistas, o medo de ficar para trás

A sessão de perguntas com jornalistas e analistas expôs o diagnóstico de Robbins sobre o momento do mercado. Questionado sobre o risco de bolha no setor de inteligência artificial, o CEO responde com a experiência de quem viveu o estouro da bolha ponto-com: “Fomos de 80 dólares por ação a seis. Tenho as cicatrizes. Mas o risco de não fazer nada é maior do que o risco de agir.” Robbins preside o Business Roundtable nos Estados Unidos, grupo que reúne os presidentes das 240 maiores empresas do país, e diz que a demanda por orientação sobre governança de IA nesses fóruns nunca foi tão alta.

O CEO resume também o que ouviu de clientes ao longo do último ano. “Sem exceção, todos me disseram que querem reduzir o número de parceiros estratégicos para conseguir se mover mais rápido.”

Patel acrescenta o argumento estrutural: a infraestrutura de IA está sendo consumida conforme é construída, diferente de outros ciclos em que a oferta esperava pela demanda. “O risco de bolha estaria no momento em que o custo de processamento e o valor gerado por ele deixassem de estar em equilíbrio. Por enquanto, ainda estamos na fase um: aprendendo a usar.”

No campo da computação quântica, um executivo da Cisco presente na sessão alerta que a maioria das organizações sequer sabe que já está sob ataque do tipo “coleta agora, descriptografa depois”. “Quando fazemos uma avaliação de prontidão quântica, os clientes ficam surpresos com onde estão de verdade”, diz. O recurso de avaliação integrado ao Cisco IQ identifica os ativos mais expostos a esse vetor e gera um roteiro priorizado de resposta, com disponibilidade global prevista para julho de 2026.

As operadoras de telecomunicações também foram mencionadas. Robbins diz ver uma aceleração de investimentos nesse grupo, com empresas buscando monetizar sua infraestrutura de rede e centrais telefônicas antigas convertidas em pequenos centros de processamento de dados. Patel diz ter recebido três mensagens de um operador interessado em parceria enquanto a sessão ainda estava em curso.

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