O Cerumano

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11:53 am - 05 de outubro de 2012

O instinto homicida

O que nos leva, afinal, ao mote que me levou a escrever esta coluna: o homo sapiens sapiens, apesar de se achar sabido, é uma espécie tão predatória que, tanto quanto eu tenha conhecimento, é a única capaz de matar seu semelhante por motivos banais ou até mesmo sem qualquer motivo além do prazer que sente com isto.

Não que membros de outras espécies deixem de lutar ente si. Lutam. Mas, na imensa maioria das vezes, por uma dentre duas razões: machos disputando o privilégio de acasalar com fêmeas (veja Figura 5, obtida no sítio Heavy) e grupos defendendo seu território. Mas em ambos os casos são levados à disputa por irresistíveis compulsões de origem genética. No primeiro trata-se de selecionar o mais apto: o vencedor do embate, em princípio, é o melhor apetrechado para gerar prole, portanto a luta é um mecanismo natural para aprimorar o “pool” de genes da espécie. No segundo, trata-se de garantir a sobrevivência: grupos de indivíduos ligados a um território dependem dos recursos naturais deste território. Deixá-lo ser invadido por outro grupo é correr o risco de desaparecer por privação de meios de sustento. Portanto a luta visa a própria sobrevivência do grupo.

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Pois bem: ainda assim, com exceção do cerumano, quando indivíduos da mesma espécie se envolvem em qualquer tipo de luta, raramente ocorrem vítimas fatais. Em geral o resultado do embate se resume ao derrotado abandonar a liça com o rabo entre as pernas e alguns ferimentos dos quais o mais grave é no amor próprio. Mortes, nestes enfrentamentos, são raríssimas, se é que ocorrem.

Já o cerumano…

A Wikipedia tem um tópico que me faz sentir repulsa quando o leio. Trata-se do “List of wars and anthropogenic disasters by death toll” (Relação de guerras e desastres antropogênicos por número de vítimas fatais). Quem gosta de assuntos lúgubres que o leia. Melhor, porém, é se restringir aos números abaixo, que talvez lhe surpreendam.

O número de mortos na segunda grande guerra é estimado entre quarenta e setenta e dois milhões. Nas conquistas mongólicas do século treze foram mortas entre trinta e sessenta milhões de pessoas (proporcionalmente à população do planeta, muito mais que na segunda grande guerra). Na segunda guerra do Congo, ocorrida há pouco mais de dez anos e da qual provavelmente você sequer ouviu falar por ter sido pouco noticiada, houve entre quatro e cinco e meio milhões de vítimas fatais.

Mas não são apenas as guerras, há também os genocídios, mais assustadores porque covardes (nas guerras ao menos os adversários pode se defender; nos genocídios, as mortes são só de um lado). Vou deixar de lado, por polêmico, o Holocausto, onde se estima que foram sacrificadas entre quatro e dezessete milhões de pessoas. Mas você sabia que, no início dos anos trinta do século passado, entre dois e meio e oito milhões de ucranianos foram levados propositalmente à morte por inanição em um genocídio conhecido por Holodomor? Que entre dois e cem milhões de nativos foram sacrificados durante a colonização das Américas pelos europeus?

A relação da Wikipedia é impressionante e inclui ainda as vítimas de campos de concentração e sacrifícios rituais (além de alguns desastres naturais, mas estes não foram provocados pelo cerumano). Eu não somei ? me falta estômago para tanto ? mas simplesmente passando a vista pela relação conclui-se que mais de um bilhão de pessoas foram mortas propositalmente por outras pessoas pelos motivos mais estúpidos.

É o cerumano matando o cerumano.

Por que este fenômeno ocorre em tão gigantescas proporções?

Não consigo explicar, mas me parece uma característica do cerumano. Há algum tempo tomei conhecimento que, em São Paulo, um jovem que esperava um ônibus na calçada envergando a camisa de seu clube foi alvejado mortalmente por um grupo de mentecaptos de uma torcida rival que passava em um carro por ser considerado “inimigo”. No Rio, “brigas de torcida” estão se tornando comuns. Pior: ao que parece são agendadas e não raro terminam com vítimas fatais. Ou seja: torcer por outro clube já se tornou razão para cometer um homicídio. E não é só no Brasil. Estão aí ? ou lá, felizmente ? os “hooligans” britânicos que não me deixam mentir.

Mas o fato que efetivamente me levou a publicar estas ponderações foi um crime brutal, hediondo e repulsivo ocorrido recentemente na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro (eu quase qualifiquei o crime como “selvagem” mas me dei conta que as espécies animais que vivem nas selvas jamais praticariam um ato tão cruel).

Pois ocorre que um grupo de seis jovens no final da adolescência, todos estudantes ou trabalhadores, todos membros de famílias humildes e honestas, todos queridos na comunidade onde viviam, decidiram fazer um dos poucos programas dominicais que estava ao alcance de seus parcos bolsos: tomar um banho de cachoeira em uma reserva natural não muito distante de suas residências.

No dia seguinte seu corpos foram encontrados, com marcas de tortura, à beira de uma via pública.

Foram covardemente torturados e assassinados.

Por que?

Ao que tudo indica os rapazes, inadvertidamente, cruzaram uma região onde ainda prevalecem os integrantes de certa facção criminosa. E um dos jovens, em seu telefone celular, tinha gravada uma música ? na verdade não era exatamente uma música, era um funque (e não me venham dizer que a grafia está errada, eu falo e escrevo em português) ? que tecia elogios a uma facção rival. Atenção: note que os jovens, comprovadamente, não eram membros de facção alguma, apenas um deles tinha a tal peça gravada em seu celular.

Segundo as autoridades policiais este foi o motivo para que um cerumano tomasse a decisão de ordenar a tortura seguida da morte dos seis jovens.

Diante disto, eu não tenho muito que dizer. Ou fazer. A coisa me parece demasiadamente estúpida. No máximo posso propor a mudança do nome da espécie sugerindo aos biólogos, antropólogos, taxonomistas ou seja lá quais forem os responsáveis pela designação das espécies, que o Homo sapiens sapiens seja doravante denominado de Cerumanus stupidus stupidus. E continuar estrilando quando me deparar com um absurdo como o que acabei de descrever.

Nesta altura dos acontecimentos talvez algum leitor pense que esta coluna não tenha sido escrita por um cerumano. Ou que eu, embora o sendo, me considere “melhor que os outros”. Não é o caso. Sou um cerumano nem melhor nem pior que os demais. Padeço dos mesmos instintos homicidas ? que, no entanto, consigo controlar ? diante de grupos de pagode, cantores de funque, indivíduos que deixam os telefones celulares ligados em teatros e cinemas e que quando os atendem em público falam alto para que todos os circunstantes percebam como ele é importante. E, sobretudo, sinto intensa compulsão de eliminar do rol dos vivos pessoas que costumam recorrer à frase “Você sabe com quem está falando?”. Portanto sou um cerumano como qualquer outro, sujeito às suas fraquezas e defeitos. Afinal, somos da mesma espécie.

A diferença é que sinto uma profunda vergonha de pertencer a ela.

B.Piropo

Um bicho gregário

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