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O Big Data, o Big Brother e Snowden

A informação é um veículo privilegiado de conhecimento e de poder
político, econômico e militar, desde os primórdios das civilizações. Com
o desenvolvimento das tecnologias da informação e computação e o uso
generalizado da Internet, os fluxos crescentes de informação mudaram a
forma como a economia, as finanças, a governança e as relações
sociais mudaram, criando novos estilos de vida.

Estamos agora assistindo a uma nova e profunda transformação baseada
no fenômeno da Big Data, ou seja, no aumento vertiginoso do número e
diversidade de dados digitalizados que circulam, são tratados,
analisados e utilizados para os fins mais diversos, à escala global.

Calcula-se que, no início deste século, apenas cerca de 25% do total
da informação arquivada no mundo estava sob forma digital e a restante
preservada em papel, fotografia, filme e em outros meios. Atualmente,
passado pouco mais de uma década, essa percentagem aumentou para
mais de 90%.

Toda esta informação pode agora circular facilmente nas redes de
telecomunicações. De acordo com a IBM, criam-se a cada dia, no mundo,
aproximadamente 2,5 exabytes de informação, ou seja, 2,5×1018
unidades de informação digital ou bytes. Para ter uma ideia mais
concreta, um caracter de um texto digitalizado e armazenado em um
computador corresponde a um byte, as obras completas de Shakespeare
correspondem a cerca de 5 megabytes (5×106 bytes) e as obras completas de Beethoven a cerca de 20 gigabytes (20×109 bytes).

O Big Data evolui através do crescimento do volume de dados, do
aumento do fluxo da sua aquisição e velocidade de processamento e da
crescente variedade de tipos e origens de dados e respectivas
tecnologias de aquisição. Os bancos de dados crescem nos mais diversos
domínios, da ciência ao ambiente, à medicina, à sociologia, aos
transportes, à economia, à segurança civil e militar, e aos sistemas de
espionagem, devido ao uso crescente de redes de sensores em terra e no
espaço, a bordo de satélites, de identificadores de radiofrequências, de
outros sistemas de detecção e registo de dados e da proliferação e
utilização crescente das redes sociais.

Paralelamente, tornou-se possível usar estes gigantescos bancos de
dados para os fins mais variados devido ao contínuo aumento da memória
dos computadores, aos processadores cada vez mais rápidos, ao software
mais inteligente e a algoritmos mais evoluídos. Esta combinação da
crescente facilidade de detecção de enormes quantidades de dados e do
seu armazenamento, processamento e análise criou o fenômeno do Big Data.

O Big Data está mudabdo profundamente o modo como usamos a informação
através de três modos distintos. No passado, para fazer um estudo
estatístico de um sistema com elevado número de elementos, procurava-se
construir uma amostra que fosse representativa. Agora, o principal
objetivo é obter os dados relativos à totalidade do sistema. Tornou-se
viável armazenar, processar e analisar todos esses dados, o que permite
explorar e conhecer as características e comportamentos dos subsistemas.

Segundo, no passado, havia uma grande preocupação em que os dados
fossem todos muito fidedignos, agora é possível lidar com a incerteza
que resulta de alguns dados não terem a qualidade desejada.

Terceiro, o uso do Big Data permite-nos descobrir uma multiplicidade
de correlações entre os dados, que nos ajuda a
conhecer como o sistema funciona, mesmo que se desconheça o porquê desse
funcionamento. Em termos estritamente operacionais, interessa muito
mais conhecer a existência de uma correlação do que descobrir a sua
causa.

O Big Data tem permitido fazer avanços notáveis em ciência, por
exemplo, em astrofísica, onde cresce aceleradamente o volume das bases
de dados de observações realizadas em telescópios terrestres ou
espaciais, nas quais se procuram descobrir sinais muito raros, mas muito
relevantes. É o caso da procura de sistemas planetários extra-solares
com planetas semelhantes à Terra, ou seja, com a possibilidade de serem
habitáveis por formas complexas e até inteligentes de vida.

Outro exemplo é a genômica, onde o Big Data diminui a duração do
processo de decifração da sequenciação do DNA de um organismo vivo. No
caso do programa do genoma humano, iniciado em 1990, a primeira
sequenciação levou cerca de dez anos, mas pode agora realizar-se em
menos de uma semana.

A utilização e a análise estatística das enormes bases de dados das
redes sociais e das grandes empresas multinacionais são processos que
têm cada vez maior importância e valor do ponto de vista social,
político e económico.

Finalmente, quanto à governança, os governos dos países mais
poderosos, entre os quais EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Austrália, China,
Rússia, Alemanha e França, perceberam rapidamente o enorme potecncial do Big Data. Em 29 de Março de 2012, o Governo dos EUA lançou a
Big Data Research and Development Initiative, dotada de um orçamento
inicial de 200 milhões de dólares, com o objetivo de acelerar o ritmo
do desenvolvimento da ciência e tecnologia, de fortalecer a segurança
nacional e de transformar o processo de ensino e aprendizagem.

O programa envolve seis ministérios e financia também universidades
para promover o desenvolvimento de ações de formação avançada e
investigação em Big Data aplicada aos mais diversos domínios, da saúde
ao ambiente, ao clima e à economia. Para usufruir do Big Data, são
necessários computadores poderosos em termos de velocidade de
processamento e memória. De acordo com o projecto Top500, dos 10
computadores mais poderosos do mundo em Junho de 2013, cinco são
americanos, dois chineses, dois alemães e um japonês, sendo o primeiro
lugar ocupado pelo Tianhe-2, um computador do Centro Nacional de
Supercomputadores em Guangzhou (China).

Antes da iniciativa de Março de 2012, o Governo dos EUA já utilizava o Big Data para atividades de espionagem à escala global, mas de forma
clandestina. O projecto PRISM, conduzido pela National Security Agency
(NSA), funcionava desde 2007 de forma secreta até ao momento em que os jornais Guardian e Washington Post revelaram as suas atividades em 6 de
Junho de 2013 com base em depoimentos feitos por Edward Snowden, um
ex-analista contratado pela NSA que abandonou os EUA, se refugiou em
Hong Kong e espera agora obter asilo político na Rússia.

Apesar de haver fortes suspeitas sobre a extensão e profundidade da
espionagem eletrônica conduzida pelos americanos, as revelações de
Snowden caíram como uma bomba em todo o mundo, especialmente nos
círculos governamentais dos EUA. O PRISM é capaz de registar os
conteúdos de todas as formas de comunicação eletrônica a nível mundial,
incluindo todos os emails, todas as chamadas de celulares, todas as
navegações feitas na Internet, todas as imagens e dados obtidos em
satélites, bem como toda a espécie de dados pessoais, empresariais,
institucionais e governamentais que estejam sob forma digital e circulem
nas redes de telecomunicações.

Temos vários “big brothers” que espiam e registam continuamente as
nossas vidas sem qualquer base legal, sendo atualmente os EUA o maior
deles. O Big Data veio favorecer enormemente as atividades do “big
brother”. Nos EUA, estas atividades são feitas com o fraquíssimo
controle legal do Foreign Intelligence Surveillance Court, que é
independente do poder judiciário. A justificação que tem sido dada para o
secretismo e ausência de controles legais fortes é a da segurança,
concretamente da luta contra o terrorismo. Porém, as revelações de
Snowden mostraram que isso é falso. Há provas de que os EUA vigiavam
clandestinamente cerca de 38 embaixadas, muitas delas de países aliados,
bem como várias instituições da UE.

A verdade é que aquilo que os EUA procuram prioritariamente são
informações de carácter econômico e financeiro que poderão favorecer as
suas empresas e bancos. Empresas como a Thomson-CSF e a Airbus perderam
grandes contratos a favor de empresas americanas depois de terem sido
reconhecidamente espiadas pelos EUA.

A ferocidade com que o Governo dos EUA pretende capturar Snowden para
o condenar e silenciar para sempre revela bem a importância que as
atividades de espionagem eletrônica baseadas no Big Data têm para o
país assegurar a sua supremacia econômica e militar a nível mundial. O Big Data é um meio crucial de os “big brothers” manterem as suas
hegemonias econômicas, financeiras e militares num mundo dominado cada
vez mais pela ganância e no qual os recursos naturais começam a
escassear.

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