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Na tecnologia, inovar é puxar mulheres para cargos de gestão

Imagem: Shutterstock

Diversidade e igualdade são pautas presentes nas falas de muitas empresas, mas poucas realmente a colocam em prática no dia a dia profissional em prol de um ambiente equilibrado em oportunidades.

Na tecnologia, isso não é diferente, mesmo com o gap enorme de oferta e demanda de mão de obra qualificada, mulheres ainda são minoria nos cursos de formação em áreas estratégicas como desenvolvimento, por exemplo, um alerta importante para que nós, profissionais que já se estabeleceram na área, aproveitemos o mês de março, mas não só ele, para refletir do porquê a tecnologia ainda não atrai tanto as mais novas.

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Sabemos que o imaginário coletivo sobre a carreira de TI ainda se apresenta como algo próprio para homens, motivo pelo qual muitas jovens nem cogitam a área no momento de pleitear vaga na faculdade. Na minha época de caloura em ciências da computação, cerca de 25 anos atrás, essa jornada era ainda mais solitária – não havia colegas mulheres na minha sala, uma característica que me perseguiu no mercado profissional também.

Leia também: Katia Vaskys: diversidade, inclusão e renovação como legado

Eu sempre amei a minha profissão e encarei os desafios com muita garra e entusiasmo, mas hoje eu vejo que a ausência de precedentes nas empresas em que trabalhei me fez mirar por muito tempo num padrão sobre humano de profissional, marcado por jornadas de mais de dezesseis horas diárias de trabalho e pouco tempo para mim. Esse ritmo, que me fazia bem até então, deixou de fazer sentido quando engravidei, em 2008, época em que já gerenciava a área de sistemas de uma companhia processadora de cartões de crédito.

Minha filha nasceu com um problema de saúde que demandava maiores cuidados e, logo, me vi em descompasso com a agenda pesada que vinha sustentando até aquele momento. Decidi me dedicar exclusivamente a ela e fiz minha primeira pausa na carreira, sentindo na pele o peso da maternidade sobre o lado profissional que lutei tanto para lapidar.

Provavelmente, se eu tivesse tido mais apoio naquela época, não teria rompido meu vínculo empregatício dessa forma, mas as barreiras mais simples do dia a dia, como a ausência de um lugar adequado para eu extrair o leite para a minha filha, por exemplo, ou mesmo a impossibilidade de seguir trabalhando tanto todos os dias, se converteram em tabus.

Fiquei fora do mercado durante quase três anos e, ao tentar reingressar, recebi um feedback misógino logo na primeira entrevista, na qual o diretor de tecnologia da empresa contratante me disse, sem titubear, que havia adorado meu currículo, mas que não seria possível me contratar porque eu era mãe de uma menina de 2 anos e ele precisava de alguém dedicado à equipe. Isso foi tão forte (negativamente falando), que cheguei a pensar que minha carreira tinha acabado, aos 31 anos de idade, pelo simples fato de ter tido uma filha. É um absurdo, mas sabemos que infelizmente muitas mulheres vivem isso até mesmo nos dias de hoje.

Papel de transformação da mulher

Falando ainda sobre a falta que uma liderança feminina faz, na ausência de precedentes femininos no mercado de trabalho, lidei com aquela porta fechada com a mesma resiliência que eu encontrava na minha mãe, uma mulher que, de posse do seu diploma do ensino básico, lutou para que eu concluísse os estudos, em meio a muitas adversidades. Fui à luta e reagi, encontrei meu espaço em empresas que valorizaram a sabedoria adquirida na minha caminhada. E desde então, por onde eu entrei, trouxe mais mulheres comigo.

Hoje, aos quarenta e três anos, sou mãe, diretora de client success para as Américas na Pegasystems, atuo na liderança de um grupo de trabalho que discute e implementa ações afirmativas para o contingente feminino global da companhia, e tenho o orgulho de dizer que compus o time mais diverso de toda a empresa.

À frente da área que trabalha para promover o sucesso dos clientes, penso sempre no sucesso dos funcionários como o alicerce das nossas atividades. Para mim, que conheço de perto o impacto do machismo no mercado, é muito gratificante dizer que essa porta que abri para praticar equidade de gênero no meio corporativo atinge não apenas mulheres que desejam ser mães, mas também funcionários LGBTQIA+ que trazem, na sua bagagem de excelência profissional, episódios análogos de exclusão e insegurança e que, muitas vezes, almejam a mesma estabilidade que eu busquei quando me tornei mãe para colocarem em prática o sonho de constituir família.

Uma das tarefas que mais me entusiasmam no dia a dia é aconselhar jovens profissionais que trilham os primeiros passos no mercado. Todas querem saber como eu faço para ser “tudo isso”: mãe e ao mesmo tempo uma profissional bem-sucedida. Acredito que o papel das empresas é fomentar um ambiente pró-diversidade, preparado para apoiar seus profissionais ao longo do seu amadurecimento. Luto para que as mulheres na tecnologia ou em qualquer outra área se vejam cada vez mais em posições de liderança, livres do dilema maternidade x vida corporativa.

Toda e qualquer mulher tem o direito de maternar e manter a carreira. Este tabu está mais do que na hora de ser quebrado. Na verdade, se for da vontade dela, ela pode ser o que ela quiser, e ninguém pode dizer o contrário. É isso que eu desejo para todas nós.

As mulheres têm uma única obrigação nessa longa jornada de vida: ser feliz. O restante, quem decide somos nós.

* Elenita Betiol é Director of Portfolio Client Success Americas da Pegasystems

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Published by
Redação
4 anos ago

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