Imagem: Shutterstock
Por Leandro Cesar Lopes
O Brasil pode estar mais preparado para a era da inteligência artificial do que muitas economias consideradas mais maduras. A questão é que nossas empresas talvez ainda não tenham percebido isso.
O recém-lançado Work Trend Index 2026, da Microsoft, trouxe um dado que deveria chamar a atenção de qualquer liderança executiva: o Brasil possui hoje a maior proporção de “Frontier Professionals” do mundo, com 27%, muito acima da média global de 16%.
Mas o que isso realmente significa?
Na prática, estamos falando de profissionais que não usam IA apenas para acelerar tarefas simples. São pessoas que já começam a reorganizar a própria forma de trabalhar, coordenando agentes, automatizando fluxos, conectando ferramentas e criando novas formas de execução operacional.
Isso muda completamente a discussão sobre IA dentro das empresas brasileiras.
Durante muito tempo, o debate esteve concentrado em acesso à tecnologia. Quem tinha ferramenta, quem tinha modelo, quem tinha licença. O Work Trend Index mostra que essa fase está ficando para trás, e que o comportamento das pessoas já começou a mudar. E talvez mais rápido no Brasil do que em muitos outros mercados.
Outro dado da pesquisa reforça isso de forma importante: 72% dos profissionais brasileiros afirmam que hoje conseguem produzir trabalhos que seriam impossíveis há apenas um ano. A média global é de 58%.
Existe um movimento real acontecendo dentro das operações.
O problema é que as estruturas organizacionais ainda não acompanharam essa velocidade.
O mercado ainda insiste em tratar a IA como uma camada adicional de produtividade, quando o que está acontecendo é uma mudança operacional muito mais profunda.
As empresas não estão apenas incorporando novas ferramentas. Elas estão entrando em uma fase em que decisões e relações entre áreas começam a ser redesenhadas pela presença de agentes. Isso cria uma tensão que muitas organizações ainda não sabem administrar.
Enquanto os profissionais experimentam IA diariamente, boa parte das empresas continua operando com estruturas construídas para um mundo anterior: governança fragmentada, áreas isoladas, processos lentos de decisão, dados desconectados e pouca clareza sobre ownership operacional.
O que aconteceu foi que as empresas aceleraram a adoção antes de estruturar a operação. O resultado começou a aparecer em iniciativas desconectadas, agentes criados sem coordenação, automações sem sustentação e uma crescente dificuldade de escalar qualquer iniciativa além da fase de piloto.
O maior risco da IA no Brasil não é tecnológico, mas organizacional.
Leia mais: Custos de IA expõem problema de contexto e gastos
O próprio relatório da Microsoft aponta algo importante: os fatores organizacionais têm hoje muito mais impacto na transformação da IA do que fatores individuais. Isso significa que o gargalo deixou de ser capacitação técnica das pessoas. Agora o problema está na capacidade das empresas de absorverem essa nova dinâmica operacional.
Curiosamente, o Brasil também aparece acima da média global em outro indicador extremamente relevante: 93% dos profissionais brasileiros afirmam manter a responsabilidade humana sobre decisões e julgamentos, utilizando IA como ponto de partida, e não como substituição do pensamento crítico.
Esse dado talvez seja um dos mais importantes da pesquisa. Porque ele desmonta uma visão superficial de que a adoção de IA significa dependência irrestrita da tecnologia. O que começa a surgir no mercado brasileiro é um modelo mais híbrido, no qual humanos e agentes passam a operar juntos dentro dos fluxos de trabalho.
Isso ajuda a explicar por que o Brasil aparece tão forte em maturidade operacional relacionada à IA. Não estamos falando apenas de adoção de ferramentas, mas da adaptação cultural.
Existe uma diferença enorme entre usar IA e conseguir operar IA em escala.
Hoje, muitas organizações ainda confundem acesso à tecnologia com maturidade operacional. Ter agentes ou automações espalhadas pela empresa não significa necessariamente evolução. Em muitos casos, isso apenas amplia a complexidade operacional existente. Sem governança clara, integração entre áreas, estratégia de dados e ownership definido, a tendência é que a IA acelere o caos organizacional em vez de resolver gargalos.
Esse é o ponto mais subestimado da atual corrida da IA, pois o debate deixou de ser sobre ferramentas, e passou a ser sobre modelo operacional. As empresas que irão liderar os próximos anos não serão as que adotarem mais ferramentas de IA, e sim aquelas que conseguirem transformar conhecimento operacional em inteligência contínua, integrando agentes ao negócio com governança e capacidade real de evolução.
O Brasil tem uma oportunidade única nesse cenário. Os dados mostram um mercado altamente adaptável, aberto à experimentação e cada vez mais confortável em operar junto à IA. Poucos países aparecem tão avançados nessa combinação entre adoção, agência humana e transformação prática do trabalho.
Mas isso também aumenta a responsabilidade das lideranças. A próxima fase será definida pela capacidade das empresas de transformar essa energia em geração contínua de valor, e o Brasil pode liderar essa transformação.
O Work Trend Index 2026 mostra que o Brasil já passou da fase da curiosidade em torno da IA.
Os profissionais brasileiros estão entre os mais avançados do mundo no uso prático da tecnologia, na adaptação de fluxos de trabalho e na colaboração com agentes inteligentes. O comportamento mudou mais rápido do que as estruturas das empresas.
A próxima fase não será definida por quem consegue acessar as ferramentas primeiro. Agora, a vantagem competitiva está nas empresas capazes de estruturar governança e transformar IA em capacidade organizacional contínua, escalando a tecnologia como modelo operacional, e não apenas como ferramenta.
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