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Especialistas alertam para o risco de uma sociedade cada vez mais produtiva e menos integrada

A promessa de que máquinas liberariam os humanos do trabalho pesado e abririam espaço para mais tempo livre, criatividade e vida social acompanha tecnologia desde a revolução industrial.

Essa discussão veio novamente à tona em Austin, nos Estados Unidos, durante o SXSW 2026. Em uma conversa organizada pela White Rabbit e o WhatsApp, Ian Beacraft, futurista e fundador da Signal and Cipher, e Kasley Killam, especialista em social health e autora do livro “A arte e a ciência da conexão”, defenderam que a automação não tem produzido mais tempo livre e que o avanço da inteligência artificial (IA) pode reverberar um problema já evidente nas organizações: a desconexão entre as pessoas.

“Durante décadas ouvimos que máquinas e tecnologia nos dariam mais tempo para lazer e para viver melhor”, afirmou Kasley. “Mas isso nunca aconteceu. Na prática, continuamos apenas preenchendo o tempo com mais trabalho.”

Quando empresas aceleram a adoção de agentes de IA capazes de executar tarefas de forma autônoma e discutem como integrar humanos e máquinas no cotidiano corporativo o tema é urgente.

Nos bastidores da transformação digital, muitas empresas começam a imaginar estruturas híbridas nas quais líderes passam a gerenciar pessoas e agentes de IA ao mesmo tempo. Mas, segundo os especialistas, a discussão sobre “gestão de agentes” muitas vezes parte de uma premissa equivocada.

“O problema é que muitas organizações estão pensando primeiro na tecnologia, quando deveriam pensar nos objetivos”, explicou Beacraft.  “Agentes funcionam melhor quando definimos claramente o que significa sucesso e quais são os resultados desejados. Sem isso, você apenas cria sistemas que vão quebrar e precisar de correções constantes”, sentenciou.

A mudança, segundo ele, não é apenas técnica, mas conceitual. Em vez de programar cada passo, empresas precisam estabelecer condições e métricas de resultado para que a IA encontre os caminhos para atingir esses objetivos. Esse modelo aproxima o trabalho humano da lógica de supervisão e investigação, enquanto máquinas assumem tarefas repetitivas.

Leia também: Como inovar com orçamento apertado: o que a ciência espacial ensina sobre fazer mais com menos

O que vai acontecer nas empresas?

A adoção de agentes de IA também deve provocar uma mudança profunda na arquitetura das organizações, concordam os especialistas.

Para eles, um dos sinais mais claros dessa transformação é a crescente aproximação entre duas áreas historicamente distantes nas empresas. Um é a Tecnologia e a outra é Recursos Humanos.

“Hoje ainda existe uma separação clara entre CIO, CTO e CHRO. Muitas vezes eles quase não conversam”, afirmou Beacraft. “Mas isso vai mudar rapidamente. As decisões sobre tecnologia agora impactam diretamente a estrutura da empresa e o desenho do trabalho”, prevê.

Segundo ele, a tendência é que recursos humanos ganhe relevância estratégica, passando a participar de decisões sobre desenho de funções, novas competências, reorganização de equipes e suporte psicológico aos funcionários.

“Veremos mais líderes de RH nos conselhos de administração. Porque estamos redesenhando o que significa trabalhar em uma organização”, acrescentou Beacraft.

Outro efeito possível é o achatamento das estruturas hierárquicas. Com agentes executando tarefas operacionais, alguns gestores podem voltar a atuar de forma mais direta no trabalho técnico.

Conectados, mas isolados, um contrassenso

A transformação tecnológica promete ganhos de produtividade, mas também levanta a dúvida sobre qual será o impacto nas relações humanas. Na conversa, Kasley incluir sua visão sobre saúde social, a qualidade das relações que as pessoas mantêm ao longo da vida.

Pesquisas citadas por ela mostram que relacionamentos fortes estão associados a menor risco de depressão, doenças cardiovasculares e até maior longevidade. “A conexão humana não é apenas algo que nos faz felizes. Ela impacta diretamente nossa saúde, nossa capacidade de trabalhar bem e nosso bem-estar geral”, explicou Kasley.

Ao mesmo tempo, especialistas observam que a hiperconectividade digital pode criar uma sensação paradoxal. Nunca estivemos tão conectados e, ainda assim, nunca houve tanta solidão, ou isolamento.

“Essas pequenas interações on-line são como petiscos”, explicou Kasley. “São agradáveis e rápidas, mas não nutrem da mesma forma que conversas profundas e relações reais.” Segundo ela, relações presenciais, vulnerabilidade emocional e trocas genuínas continuam sendo insubstituíveis para a saúde social.

Futuro possível

Beacraft e Kasley foram provocados a imaginar uma manchete de jornal cinco anos no futuro, um sinal de que a sociedade teria conseguido equilibrar tecnologia e humanidade.

As respostas revelaram mais esperança do que previsões técnicas. Uma delas propôs um cenário no qual a IA não substitui valores humanos fundamentais. “A manchete que eu gostaria de ler seria: ‘A inteligência artificial (IA) não matou a graça humana’”, afirmou Beacraft.

Já Kasley gostaria de ver uma notícia dizendo que 100% das pessoas sentem que têm alguém que as ama. Para ela, o futuro ideal é aquele em que humanos continuem conectados uns aos outros.

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