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E se ninguém contar aos líderes que eles também colapsam?

Laércio Albuquerque comanda as operações da Cisco na América Latina. Executivo com trajetória brilhante, entrou ainda estagiário na empresa, passou por todos os cargos possíveis até chegar à liderança. Em outubro de 2020, pouco antes de ser chamado a responder pela região latino-americana, quando ocupava o cargo de CEO no Brasil, publicou no LinkedIn um texto intimista no qual explicava como estava à beira do burnout.

“Tudo começou com um alerta do meu próprio corpo. Em uma semana de trabalho excepcionalmente exigente, tive um episódio de mal-estar como poucas vezes vivenciei, senti forte tontura e tive um pico de arritmia incontrolável, que elevou minha pressão arterial a níveis não conhecidos pelo meu corpo até então. Após uma indesejável noite em observação no hospital e muita medicação, recebi o diagnóstico: era o estresse que, se mal-cuidado, me levaria ao conhecido burnout”, escreveu naquele dia. A solução foi tirar 30 dias de descanso, totalmente desconectado, para se recuperar.

O caso de Laércio não é único. Nesta pandemia, burnout se tornou palavra da moda. Todos levaram para casa a sobrecarga profissional, que se somou às preocupações da ocasião (adoecer) e à administração de uma rotina familiar virada de ponta-cabeça.

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Existe uma cultura muito forte nas empresas de que o líder é um super-herói. Não está expresso literalmente nas atribuições de cargos de comando, mas nas entrelinhas da aceitação do posto.

Este é um traço da cultura corporativa que traz uma pressão psicológica muito grande sobre os profissionais e pode levá-los ao colapso. Do herói espera-se não apenas resiliência, mas também a visão clara do que deve ser feito para o time superar uma grave crise.

Em momentos instáveis, como o atual, todos os olhos se voltam ao líder na expectativa de que ele diga: “Calma, eu sei o que fazer”. É outra pressão importante sobre aquela pessoa, que por mais preparada que seja, nem sempre está pronta para um acontecimento nunca visto.

O papel da equipe

Existem casos de liderança fora da curva, que beiram o heroísmo e sem dúvida demonstram uma visão diferenciada de futuro. Um exemplo recente é do presidente da Pfizer, Albert Boula. Quando a Organização Mundial da Saúde declarou que vivíamos uma pandemia, no começo de 2020, Boula reuniu os engenheiros e pesquisadores da empresa. Fez um discurso de incentivo no qual dizia que a farmacêutica era uma das poucas, se não a única, capaz de produzir uma vacina para a Covid-19 em apenas seis meses. Na ocasião, ele deixou claro que era o momento de se arriscar pelo bem comum e se algo desse errado, ele, Boula, seria o responsável. No pior dos cenários, ressaltou, a Pfizer perderia US$ 2 bilhões – um baque administrável para uma das maiores indústrias farmacêuticas do planeta.

O que ele demonstrou foi coragem e confiança na equipe, e se colocou como escudo protetor das pessoas que lhe são subordinadas. No momento de grande pressão, todo mundo olhou para ele, e ele foi capaz de responder com um plano que rendeu frutos.

Mas é importante, como os casos de burnout nos mostram, reconhecer que todo líder é um ser humano. Não é imune a doenças, dúvidas ou quaisquer dificuldades.

Coragem e obstinação

O que há de traço comum na personalidade do líder é sua coragem. Ele não foge. Entende o papel que tem que desempenhar. Justamente por isso, ele está suscetível a se esgotar.

Pela minha experiência como fundador de duas empresas, tendo passado por posições executivas em outras, a chave do equilíbrio do líder está em sua capacidade de montar a equipe que lidera – e de confiar nela.

Imagino que Boula, da Pfizer, fez o que fez por ter consciência das qualidades e limitações do time que montou. Ele não agiria como agiu se não confiasse na equipe.

O líder é capaz de tirar o máximo da equipe que possui. Vai tomar decisões difíceis e executá-las da melhor maneira possível, dando seu sangue, com o perdão do clichê, mas sempre amparado.

Chegar ao burnout pode ter a ver com o time. Com uma equipe qualificada, é possível distribuir adequadamente as pressões. Se você, ao contrário, descobre que não tem para quem delegar ou que a coisa vem “quadrada” e você tem que refazer o trabalho, abre-se a trilha rumo à sobrecarga.

Em resumo, o líder é humano, tem problemas pessoais e pode falhar. Mas tem coragem, obstinação e conhece a capacidade da própria equipe. Se você quer abraçar tudo para si, não tem plena confiança no time e é incapaz de ter momentos seus de abstração, fique atento. Nem sempre haverá alguém por perto para lembrar que líderes também colapsam.

* Sergio Lozinsky é sócio-fundador e CEO da Lozinsky Consultoria

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