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Dia Mundial do Refugiado: da invisibilidade à potência

O Dia Mundial do Refugiado [celebrado nessa terça-feira, 20] chega ao calendário com uma notícia impactante da Organização das Nações Unidas: o planeta atingiu a maior quantidade de deslocados já registrada na história. Esse contexto leva um tema importante a ser discutido à condição de urgência.

Meu primeiro contato com a causa de pessoas refugiadas e migrantes foi em 2016, durante a graduação. Assim como a maior parte das pessoas, tinha informações sobre grupos de pessoas que chegavam em meu país, sem entender o verdadeiro impacto que a migração tinha nas suas vidas e como elas poderiam contribuir no Brasil.

Ao longo das pesquisas que eu e meu grupo de extensão universitária elaboramos durante o ano de 2017, aprendemos sobre a potência que pessoas refugiadas e migrantes têm para nosso país. 59% das pessoas são trilíngues, 31% bilíngues, 55% possuem ensino superior completo, 13% pós graduação completa, 63% são pessoas negras e 46% são mulheres (dados atuais de pesquisas internas da Toti).

Segundo dados divulgados em dezembro de 2021 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil abrigava mais de 1,3 milhão de imigrantes e refugiados, vindos de diferentes nacionalidades por situações de pobreza, violência, fome e vulnerabilidade social. Mas os números vêm subindo desde então, devido a conflitos bélicos, mudanças climáticas e crises econômicas.

No início deste ano, o governo federal revelou um acúmulo inédito de pedidos de refúgio. Ao todo, 134 mil solicitações. Aumento no volume de migrações de venezuelanos, manutenção das rotas para os haitianos e a guerra na Ucrânia são outros motivos para esse aumento.

Leia também: Conheça 3 mulheres imigrantes que mudaram de vida com a tecnologia

Baseados em pesquisas e dados trazidos por ACNUR e OIM, entendemos que os principais desafios das comunidades de refugiados e migrantes no Brasil são:

  • Complexidade para revalidar seus diplomas;
  • Dificuldade de acesso a moradias salubres;
  • Barreiras criadas pela própria sociedade brasileira para ingressarem em empregos dignos, no qual possuem experiência prévia.

Ao mesmo tempo, compreendemos o quão, infelizmente, pessoas refugiadas ainda são invisibilizadas no planejamento de diversas ações na sociedade. Carência por políticas públicas que abracem suas demandas e vulnerabilidades, empresas que não os consideram como pauta de comitês de diversidade, dentre outros aspectos que tornam as comunidades refugiadas no Brasil cada vez mais distantes de possíveis soluções.

Por outro lado, víamos a área de tecnologia demandar cada vez mais profissionais qualificados e diversos. Sendo um segmento que está em crescimento exponencial, muitas vezes com mais vagas do que profissionais para preenchê-las e com faixas salariais significativas, proporcionando renda suficiente para que essas pessoas possam garantir uma vida digna no Brasil.

Além disso, o compromisso com ESG (sigla em inglês para Governança Ambiental, Social e Corporativa) firmado por empresas globalmente, abre portas para que grandes corporações invistam na pluralidade dos seus times. 

Sendo assim, desenvolvemos um projeto – na época voluntário – com o propósito de inspirar a mudança na vida de pessoas refugiadas e migrantes, através da educação profissionalizante para ingressarem em carreiras de tecnologia.

O tempo foi passando e nosso conhecimento pela causa de refugiados e migrantes amadureceu. Após 2 anos tocando o projeto e obtendo sucesso – 2 turmas realizadas, mais de 90% dos estudantes haviam sido contratados em menos de 45 dias – sabíamos que não era a hora de encerrar.

O que no início do projeto era uma hipótese, naquele momento virou uma certeza: pessoas refugiadas e migrantes possuem capacidade de ingressar e crescer em carreiras de tecnologia. Mais do que isso: podem aumentar a inovação nas equipes, promover trocas interculturais, auxiliar em projetos internacionais.

O que antes era invisível, agora era potência para gerar mudanças nas empresas que contratavam os profissionais formados conosco e em suas próprias vidas.

Sendo assim, decidimos nos desvincular da faculdade, criar uma empresa de impacto social e crescer a operação. Assim nasceu a Toti Diversidade em 2019, chancelada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), ambas agências da Organização das Nações Unidas (ONU).

A partir de 33 turmas de conteúdos diversos em Tecnologia (Análise de Dados, Programação Full Stack, Front e Back-End), impactamos a vida de 730 pessoas refugiadas e migrantes. Realizamos projetos educacionais em parceria com empresas como Nubank, Albert Einstein, Globo e Neon.

Nosso objetivo é promover educação tecnológica de qualidade para pessoas refugiadas e migrantes, viabilizar emprego digno e aumento de renda para esta população, ao mesmo tempo que auxiliamos empresas a terem profissionais qualificados e diversos e contribuímos para as métricas de ESG e Diversidade & Inclusão nas empresas.

Mas ainda temos muito a crescer. A causa dos refugiados e migrantes no Brasil precisa ser considerada e incluída na pauta dos desafios do nosso país. Somente assim, conseguiremos resultados ainda mais efetivos, tanto para nossa sociedade quanto para a vida desta população que tem tanto a contribuir e crescer no território brasileiro.

* Bruna Amaral é CEO e cofundadora da Toti Diversidade

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