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Competitividade Digital: Brasil avança para 51ª posição em ranking global

Por Carla Matsu

O Brasil subiu seis posições no ranking global de Competitividade Digital, ilustrando agora a 51ª posição. Trata-se da melhor colocação desde a criação do estudo, em 2017. Feito pelo Núcleo de Competitividade Global do IMD, escola de negócios da Suíça, em parceria com a Fundação Dom Cabral, e com o apoio do Movimento Brasil Digital (MDB), o estudo avaliou 63 países e analisou como as economias empregam tecnologias digitais.

De acordo com o relatório, o Brasil subiu no ranking, pois conseguiu mostrar avanços em relação a questões como concentração científica, estrutura regulatória, capital e agilidade para negócios. Esta última, em especial, apresentou avanços na maioria de seus componentes, tais quais a transferência de conhecimento entre universidades e setor privado e a agilidade das empresas.

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Como é feita a avaliação

A pesquisa levou em consideração a análise de três fatores:

  • Conhecimento: know-how necessário para descobrir, compreender e construir novas tecnologias
  • Tecnologia: as condições gerais que possibilitam o desenvolvimento de tecnologias digitais;
  • Prontidão para o futuro: o nível de preparo para explorar as transformações digitais.

Os resultados do relatório são construídos a partir da combinação de dados de percepção obtidos anualmente junto a representantes da comunidade empresarial e dados estatísticos coletados anualmente nos países junto a organizações internacionais.

A pandemia na equação

A edição deste ano do estudo apresentou um desafio para análise dos resultados: a crise econômica, social e sanitária provocada pela pandemia de covid-19 e que aflige o mundo todo. “As pesquisas de opinião foram coletadas durante a primeira onda da COVID-19 em muitos países e, embora não tenham tratado diretamente de questões relacionadas à pandemia, é natural que as respostas obtidas reflitam, em certo grau, a situação em curso”, destacou os responsáveis pelo estudo.

O Brasil em foco

Em quatro anos de divulgação do relatório, o Brasil sempre se manteve entre as economias com as piores avaliações. A trajetória do País em análises anteriores foi a seguinte: da 55ª posição em 2017, caiu para o 57º lugar em 2018, onde permaneceu em 2019.

Para o Professor Carlos Arruda, Coordenador do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, o avanço do Brasil no Ranking de Competitividade Digital 2020 está atrelado ao ganho de posições para o fator de conhecimento, tendo sido mantida estabilidade nos demais fatores. “Se analisarmos os dados para os últimos cinco anos, observamos que o País parece estar se recuperando de uma perda anterior para conhecimento, mas enfrenta dificuldades para sustentar o ritmo de avanço para prontidão para o futuro, que configura, ainda assim, seu melhor fator”, avalia o professor.

O estudo coloca três subfatores para compor o fator de conhecimento:

  • Talento
  • Preparo e educação
  • Concentração científica.

Apesar de configurar entre os 10 países que mais investem publicamente em educação (9º), o Brasil apresenta um dos piores resultados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) para a disciplina de matemática, ocupando a 55ª posição. Da mesma forma, a taxa aluno-professor (46º), a realização de educação superior (56º) e as graduações na área de ciências (55º) também não apontam na mesma direção que a dimensão dos gastos públicos em educação.

Entretanto, Carlos Arruda destaca algumas conquistas no cenário de competitividade brasileiro. “Os componentes da concentração científica apontam bons resultados: o País é o 8º com maior participação das mulheres nas pesquisas científicas, apesar de 51º para mulheres graduadas, o 9º com maior produtividade da P&D por publicação e o 14º com maior emprego de robôs na educação e P&D. Esses dados refletem os gastos totais com P&D (31º), apesar da baixa composição de pessoal de P&D (44º) e baixa empregabilidade técnica-científica (40º) relativas”, diz Arruda.

Iniciativa privada

Ainda segundo o estudo, componentes do subfator talento apontam a percepção negativa do empresariado brasileiro em relação à suficiência da experiência internacional dos administradores (58º), atratividade de pessoal qualificado estrangeiro (58º), eficiência da gestão das cidades para incentivo do desenvolvimento de negócios (60º) e disponibilidade de mão de obra digital-tecnológica (62º).

Ao mesmo tempo, o empresariado admite que o treinamento profissional não é uma prioridade nas empresas (59º). “O ranking mostrou que uma das grandes dificuldades do Brasil ainda é sustentar o ritmo de avanço. A COVID-19 acelerou o processo de transformação digital de muitas empresas, sob o risco de deixar de fora do mercado as empresas que não se adequassem de maneira ágil e eficiente. Longe de ser o ideal, já que estamos falando de um movimento forçado causado por uma pandemia, mas a expectativa é que essa aceleração se reflita em ganhos de competitividade”, avalia Vitor Cavalcanti, Diretor Executivo do Movimento Brasil Digital.

A competitividade na prática

Em painel virtual realizado nesta quinta-feira (01/09), o professor Carlos Arruda, da FDC, conversou sobre o estudo com o membro do Conselho do Movimento Brasil Digital, Silvio Genesini; a co-head do Cubo Itaú, Renata Zanuto; e o CEO da green4T, Eduardo Marini. Renata refletiu os resultados do índice no cenário de empreendedorismo de startups no Brasil, lembrando que em 2019, o País teve um salto no número de startups unicórnio, quando o valor de mercado dessas empresas superam o US$ 1 bilhão. Ao mesmo tempo, destacou investimentos no ecossistema e na aproximação de empresas tradicionais das startups.

“A gente veio de um ano em 2019 para 2020 com muitas expectativas, pois nunca o ecossistema esteve tão forte”, disse Renata. “Só ficamos atrás da China e EUA em números de unicórnios”, completou ao se referir aos resultados do ano passado. “É um mercado muito grande, de classe global”. Apesar da pandemia do coronavírus, em um primeiro momento, ter freado os investimentos nas startups locais, Renata destaca que isso já ficou para trás e que, no âmbito das startups que têm como vocação também avançar a competitividade digital, as expectativas são positivas.

“As grandes empresas também fizeram sua própria transformação digital. As empresas foram obrigadas a investir em tecnologia para viabilizar e ter esse diferencial. Viram seus desafios e desafiaram suas verdades absolutas”, complementou.

Silvio Genesini, entretanto, fez um chamamento da responsabilidade das grandes organizações na formação de talentos com habilidades digitais. “Vemos ações de empresas que afetam 10 mil pessoas. Mas precisamos de ações que afetem 100 mil, 500 mil, 1 milhão de pessoas. Mas esses processos são mudanças a longo prazo”, disse.

Ele destaca a relação do investimento em transformação digital com a contratação de talentos. “Se não houver políticas públicas, participação das comunidades, não temos uma bala de prata aqui. É uma soma. A empresas precisam saber que têm um papel muito importante na contratação, na formação e inclusão necessárias”, alertou dando como exemplo o recente anúncio do Magalu que decidiu que, para seu programa de trainees em 2021, só contrataria profissionais negros.

Eduardo Marini, CEO da green4T, lembrou que no que tange a infraestrutura de tecnologia, o Brasil ainda apresenta um grande gargalo que impacta o avanço da Transformação Digital como um todo. Altos custos e a distribuição em um país continental são alguns dos fatores, diz Marini. “Temos muito espaço para correr atrás quando olhamos o mundo”, disse. “O Brasil é 2% do PIB mundial e nosso investimento é de 1% em tecnologia. Isso, a longo prazo, não tem como ser bom”, alertou. Mas o executivo reconhece os avanços digitais que, em sua opinião, caminham para tornar cidades e governos mais transparentes e inclusivos. “Precisamos ter pessoas para poder inovar e criar, com isso melhora-se a vida delas, de suas famílias, com isso subimos rankings de competitividade e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) sobe junto. Uma nação mais competitiva vai ser uma nação mais humana, e é isso que o mundo quer”, concluiu.

A competitividade digital no resto do mundo

O topo do ranking manteve-se relativamente estável, com Estados Unidos e Singapura na liderança, seguidos por Dinamarca (3º), que ultrapassou a Suécia (4º) e Hong Kong (5º), este pela primeira vez entre os cinco líderes. A China avançou 6 posições e sustentou sua tendência ascendente. O Chile (41º) segue à frente dos países latino-americanos, com avanço tímido de 1 posição em relação à edição anterior.

“Não existe uma única nação no mundo que tenha obtido sucesso de forma sustentável sem preservar a prosperidade de seu povo. A competitividade refere-se a tal objetivo: determina como os países, regiões e empresas gerenciam suas competências para alcançar crescimento de longo prazo, gerar empregos e aumentar o bem-estar. A competitividade é, portanto, um caminho para o progresso que não resulta em vencedores e perdedores – quando dois países competem, ambos estão em melhor situação”, avalia Arturo Bris, Diretor do Centro de Competitividade Mundial do IMD.

O estudo completo pode ser acessado no link.