Bitcoin a 100k? Criptomineradora acredita que sim

Conversamos com a vice-presidente da Hut 8 Mining, mineradora de criptomoedas com maior volume de bitcoins auto-minerados do mundo

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11:01 am - 16 de novembro de 2021
Sue Ennis, VP da Hut 8 Mining (Foto: Divulgação)

Congelante, seca e com fortes ventanias: é em um lugar assim, pouco convidativo à vida, que a Hut 8 Mining encontrou solo fértil para cultivar um negócio bilionário. Uma das maiores mineradoras de criptomoedas do mundo, a companhia canadense vê sua estrutura na região de Alberta florescer graças ao êxodo chinês.

“Em julho a China baniu toda e qualquer mineração de criptomoedas e, com isso, uma grande quantidade de empresas que consumia uma enorme taxa de hash ‘desapareceu’, abrindo caminho para as empresas de mineração na América do Norte e em outros locais”, conta Sue Ennis, vice-presidente da Hut 8 Mining, ao IT Forum. De acordo com a executiva, a capacidade de produção da empresa aumentou 50% nas 72 horas após a determinação chinesa.

Hoje, a gigante canadense minera cerca de 10 bitcoins por dia, o que equivale, na cotação desta segunda-feira, 15 de novembro, a cerca de US$ 650 mil. Não à toa, a Hut 8 Mining vive sua máxima história na bolsa, onde passou a ser negociada em março de 2018. Avaliada, atualmente, em US$ 2,4 bilhões, a companhia viu seu valor saltar 320% desde que entrou para a Nasdaq – e não dá sinal de desaceleração.

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“Gosto sempre de lembrar que somos um dos players mais antigos deste setor, para que as pessoas entendam que vivemos os altos e baixos do bitcoin e que lidamos com isso sob uma perspectiva bastante conservadora”, diz Ennis sobre a empresa fundada em 2011.

Segundo a executiva, uma das estratégias da companhia é evitar fazer aportes tecnológicos consideráveis em tempos de fartura – “se a nossa classe de ativos caminha lateralmente, como vamos manter a margem de lucro? Somos fiscalmente muito conservadores e isso contribuiu demais para a força da nossa operação e equilíbrio financeiro”.

Diversificação

Ao mesmo tempo que adota uma posição tradicional diante dos negócios, a Hut 8 Mining mantém vivo seu lado inovador. Recentemente, a companhia comprou uma frota de unidades de processamento gráficos (GPU) de Etherum, outra criptomoeda bastante fortalecida. “Essas máquinas são as Ferrari das GPUs mineiras”, afirma. A frota, comprada da Nvidia, é uma edição limitada e apenas três clientes no mundo tiveram acesso a ela.

Apesar de usar o equipamento para minerar Etherum, a gigante canadense segue sendo remunerada em Bitcoin, em uma estratégia friamente calculada. “Gosto desta aposta porque ela nos dá dois bitcoins extras por dia e porque, se quisermos acumular Etherum, agora isso é possível, e nós estamos falando aqui da segunda maior criptomoeda do mundo”, continua Ennis.

Dona da maior quantidade de bitcoins auto-extraídos dentre todas as mineradoras públicas do mundo, a Hut 8 Mining não vende nenhuma de suas criptomoedas, guardando 100% de sua mineração, que está prestes a aumentar. “Como os novos equipamentos, acredito que possamos minerar entre 16 e 18 bitcoins por dia”, um aumento de pelo menos 60% da capacidade atual.

Com outras linhas de negócios ativas, como um servidor white-label que traz para os cofres da empresa cerca de 2 milhões de dólares por trimestre, a Hut 8 Mining está sempre ligada às oportunidades de melhor lidar com a volatilidade do mercado. “Tentamos desenvolver o maior número possível de linhas auxiliares de receita de negócios”, diz a vice-presidente da marca.

Sustentabilidade

Quanto às alegações de que o bitcoin e outras criptomoedas não são sustentáveis do ponto de vista ecológico, por conta do alto consumo de energia, Sue Ennis insiste em afirmar que tudo isso se trata de falácia. “A mineração de Bitcoin consome cerca de 0,12% de toda a energia global, mas ‘abate’ cerca de 0,38% de toda a energia que é desperdiçada”, explica.

Segundo ela, boa parte dos números e argumentos da insustentabilidade do assunto era por conta da China, que usava energia hídrica para 77% de sua mineração, mas que hoje as mineradoras trabalham em conjunto com plantas de energia solar e eólica. “Um dos problemas com a energia renovável é que há muita intermitência, então você tem períodos de alto congestionamento e depois períodos de baixa demanda”, explica, “então, como um operador de energias renováveis, às vezes tem um custo proibitivo montar um parque solar ou eólico, porque você tem esses problemas de intermitência, mas se você tem um parque solar ou eólico ligado centro de mineração de Bitcoin, você tem demanda 24 horas por dia, o que é consistente, e tem também um cliente que pode desligar seu sistema e auxiliar o sistema, se a rede estiver passando por um período de alta demanda”.

Enquanto afina seu discurso ecológico e corre com fortes lobistas junto aos governos do mundo todo, a fim de azeitar a legislação mundial, companhias com a Hut 8 Mining garantem a integridade de seu patrimônio junto a seguradoras e a empresas de custódia, mas mantém uma equipe de segurança, mesmo sabendo se tratar de um sistema altamente confiável. “A quantidade de energia e recursos que alguém precisaria investir para fazer um ataque de grande magnitude não compensaria, até porque todo mundo poderia acompanhar em tempo real as ações fraudulentas e agir para impedir o crime”.

Negócio de corporações

Toda essa megaestrutura que hoje faz parte do universo da mineração torna praticamente inviável a participação de agentes individuais. “O Ethereum e algumas outras moedas ainda são bastante democráticas, mas a mineração de Bitcoin realmente não tem sido. Quero dizer, existem alguns projetos, como o Raspberry Pi, que permitem que algumas pessoas participem como um nó na rede, mas é fato que você tem que gastar um bom dinheiro em escala, infraestrutura e energia para ser relevante”, e finaliza, “qualquer um pode comprar um Bitcoin, mas a menos que você tenha uma enorme quantidade de equipamento e poder para ganhar escala, é difícil participar”.

A cotação do dólar e as condições climáticas empurram as mineradoras a fazer morada em países do hemisfério norte, de onde Ennis faz uma matemática complicada para justificar que é possível que o preço Bitcoin pode passar dos 2 milhões de dólares, mas que acha pouco provável que isso aconteça. Segundo projeção da executiva, o valor da criptomoeda deve chegar na casa dos 100 mil dólares nos semestres seguintes e que “depois veremos para onde tudo isso vai”.

Para Ennis, porém, um bom indicativo é olhar para o clube dos trilhões, das quais fazem parte Apple e Microsoft, todas acima da marca de 2 trilhões de dólares de valor de mercado. “Eu adoraria ver uma empresa de mineração chegando a esse patamar e, olha, eu não sou nenhuma vidente, mas posso seguramente afirmar que temos ambições globais e uma CEO experiente e agressiva que sabe exatamente o que está fazendo – e estou ansiosa para mostrar isso para o mundo”.

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