Notícias

Backup de Schrödinger: a incerteza que define a resiliência cibernética moderna

Por Daniel Porta

Em 31 de março, celebra-se o World Backup Day. Em um cenário dominado por Inteligência Artificial, nuvens hiper conectadas e automação em escala, pode parecer anacrônico ainda precisarmos de uma data dedicada a cópias de segurança. Afinal, o backup não deveria ser um princípio fundamental da maturidade digital? Na prática, o que se observa é um erro crítico de interpretação: em grande parte das organizações, o backup ainda é tratado como um requisito operacional secundário, quando deveria ser encarado como o pilar central da resiliência operacional.

Para entender essa fragilidade, vale recorrer a uma metáfora da física quântica que define bem a realidade de muitos CISOs: o “Backup de Schrödinger”. Trata-se de um estado de incerteza onde os dados estão simultaneamente íntegros e comprometidos dentro da “caixa” da TI, e a verdade só é revelada no momento exato da crise.

Essa distinção é vital porque, no atual cenário de ciberameaças, o backup deixou de ser um simples mecanismo de recuperação para se tornar o principal determinante da continuidade de negócios. A urgência é validada pela industrialização do crime cibernético: dados do FortiGuard Labs (2025) indicam um aumento de 42% no roubo de credenciais, alimentando sistemas automatizados capazes de executar cerca de 36 mil varreduras por segundo em busca de vulnerabilidades. Esse nível de escala transformou ataques em operações contínuas e altamente eficientes, exigindo que a resposta do mercado também evolua.

Historicamente, essa resposta foi consolidada na regra do 3-2-1: três cópias dos dados, em dois tipos de mídia, com uma armazenada fora do ambiente principal. No entanto, diante da sofisticação dos ataques de ransomware e suas estratégias de dupla extorsão, esse modelo tornou-se insuficiente.

Leia mais: Novo grupo de ransomware coloca Brasil entre alvos prioritários

Os ataques modernos não visam apenas criptografar os dados de produção; o objetivo agora é localizar e inutilizar os próprios mecanismos de recuperação. Se o backup é acessível pela rede, ele é, inevitavelmente, um alvo. Por isso, a maturidade cibernética exige uma evolução estrutural para modelos como o 3-2-1-1-0, que introduz a necessidade crítica de cópias imutáveis ou totalmente isoladas (air-gapped), além da validação contínua por meio de testes automatizados. Sem a imutabilidade e a verificação de zero erros, a organização permanece presa ao paradoxo de Schrödinger, confiando em uma proteção que pode não existir no momento do restore.

Ainda assim, muitas organizações operam sob a falsa premissa de que o pagamento de resgates representa o caminho mais rápido para a recuperação, mas as estatísticas da Fortinet desconstroem essa tese: em média, apenas 60% dos dados são recuperados após o pagamento, e meros 4% das empresas conseguem restaurar completamente suas informações. Além disso, 80% das organizações que pagam sofrem novos ataques posteriormente.

O impacto vai muito além da tecnologia. No Brasil, o custo médio de um vazamento de dados atingiu R$ 7,19 milhões em 2025, segundo o relatório da IBM e do Ponemon Institute, com períodos de inatividade que podem chegar a 24 dias. Nesse contexto, o backup deixa de ser um tema técnico e passa a ser um fator crítico de risco financeiro e governança.

A verdadeira resiliência não nasce da existência passiva de cópias, mas da arquitetura que sustenta sua confiabilidade. Isso inclui a definição clara de RPO (Recovery Point Objective) e RTO (Recovery Time Objective), aliados a processos contínuos de validação. No contexto da cibersegurança moderna, o backup deve ser entendido como parte integrante de uma arquitetura de resiliência, e não como um componente isolado.

Neste World Backup Day, o convite é para avaliarmos se a organização seria capaz de se recuperar hoje, pois, em um ambiente onde interrupções digitais impactam diretamente a economia e a confiança do mercado, a resiliência deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade estrutural. Em cibersegurança, a esperança não é um plano; a sobrevivência depende da capacidade de retornar à operação quando tudo o mais falhar.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Recent Posts

Movida lança agente de IA no WhatsApp em parceria com a Meta e aposta em nova experiência de locação

A plataforma de locação de automóveis Movida lançou um agente de inteligência artificial integrado ao…

9 horas ago

Oracle nomeia Marcelle Paiva como nova VP de vendas, Data&AI Hub na América Latina

A Oracle anunciou Marcelle Paiva como nova vice-presidente de vendas, Go-to-Market (GTM) e ecossistema para…

10 horas ago

Mercado de IPOs de tecnologia ganha força com avanço da IA

O mercado de ofertas públicas iniciais voltou a ganhar tração em 2026, impulsionado principalmente pelo…

10 horas ago

Oracle adiciona US$ 85 bilhões em contratos de IA e encerra trimestre com carteira recorde de US$ 638 bilhões

A Oracle encerrou o quarto trimestre e o ano fiscal de 2026 com resultados recordes,…

10 horas ago

Disputa entre Anthropic e OpenAI expõe divergências sobre o futuro da inteligência artificial

A disputa entre Anthropic e OpenAI ganhou novos contornos e se tornou um dos principais…

11 horas ago

Marketing B2B precisa se reorganizar para atender compradores mais autônomos, diz Forrester

As áreas de marketing B2B precisam rever sua estrutura operacional para acompanhar a transformação do…

12 horas ago