Neutralidade da rede pode inviabilizar cloud computing e próprio acesso à web, diz Cisco

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11:33 am - 31 de maio de 2012

O movimento de neutralidade da rede, uma reivindicação que nasce com o uso cada vez mais intenso da web ao redor do mundo ? pode inviabilizar tecnologias como a de cloud computing, VPN e telepresença.  Outros processos ainda não tão difundidos no Brasil, como a telemedicina, não sairiam do papel. Em um segundo momento, a liberação total dos acessos a qualquer tipo de serviço também não é sustentável, economicamente falando.

A complexidade da situação foi levantada por executivos da Cisco que citaram, em evento realizado nesta quarta-feira (30/05) em Brasília (Distrito Federal), a impossibilidade de priorizar situações críticas em um ambiente sem gestão da disponibilidade da banda.

O tema é um tanto quanto complexo, então vamos por partes.   O processo de neutralidade da rede é um movimento que prega a divisão igualitária do conteúdo disponível na web. Pela premissa, todos os dados devem ser trafegados da mesma forma e navegados na mesma velocidade.

No caso das tecnologias que se tornariam inviáveis neste contexto, o motivo seria a disputa por qualidade de acesso sem critério. Em um modelo First in First out [Fifo, que significa primeiro a entrar, primeiro a sair], a telepresença seria a primeira a ser massacrada, explicou Giuseppe Marrara, diretor de relações governamentais da Cisco no Brasil. A tecnologia depende de um link de 5 megabytes para downlink e outros 5 megabytes para uplink. Sem um direcionamento superior dessa disponibilidade, outros tipos de uso consumiriam essa capacidade e o encontro virtual não ocorreria.

Tomando o exemplo  VPN e cloud computing, por outro lado, a visão é maior necessidade de latência, apesar do menor consumo de banda. O que mais importa para o usuário, em ambos, é atualização constante das informações e a disponibilidade do acesso. Sem critério, uma alta latência comprometeria sua efetividade.?Cada serviço é sensível a uma gestão específica de rede?, justificou Marrara.

Na avaliação de Rodrigo Dienstmann, diretor de Operadoras da Cisco Brasil, saindo da perspectiva corporativa e olhando sob um viés de país, por exemplo, a falta de gestão da disponibilidade pode ser um risco ainda maior. O excesso de visualização de fotos e vídeos de uma atriz poderia inviabilizar a realização de uma cirurgia à distância. ?Imagine a vida de uma pessoa dependendo disso?, questionou.

Já no que se refere ao modelo de negócio e viabilidade econômica, a situação também tem sua complexidade. ?Hoje existe um descompasso entre expectativa do usuário e possibilidade de oferta de serviço?, alertou Marrara, explicando que a cobrança de acesso à internet é empacotada, dependendo pouco ou quase nada do perfil de consumo do cliente. Desta forma, um usuário do topo da pirâmide, que consome streaming de vídeo e faz diversos downloads, paga o equivalente ao cliente que usa a web somente para acessar e-mail e um ou outro site. ?Ou seja: o conteúdo da web é consumido majoritariamente pelo usuário do topo da pirâmide, mas o custo da infraestrutura é dividido por todos?, declarou.

E este contexto tende a ficar ainda mais injusto com a necessidade de aumento dos investimentos trazida pela alta demanda do consumo de dados. Previsões da Cisco apontam que o mundo caminha para trafegar mensalmente 1,3 zetabyte de dados através de suas redes fixas e móveis em 2016, o que representa um aumento de quatro vezes sobre os 369 exabytes atuais. No Brasil, a situação é ainda mais intensa, já que é esperado um aumento de oito vezes nessa proporção, com o atingindo 3,5 exabytes mensais em 2016.

?Se imaginarmos que temos hoje toda a infraestrutura necessária para atender à demanda, temos de aumentar os investimentos em infraestrutura em oito vezes para chegarmos ao nível necessário. O modelo ?all you can eat? [tudo o que você conseguir comer, em tradução livre] não é sustentável. Seria adequado pagar mais por mais consumo de conteúdo?, sugeriu Marrara. Este processo ficará ainda mais necessário com a evolução da tecnologia de TV digital, que, conforme a Cisco, deve atingir 1,3 bilhão de assinantes em âmbito global no ano de 2016, contra  694 milhões registrados em 2011.

Na visão dos executivos, seriam duas as formas de equacionar o problema: gestão da disponibilidade de tráfego e nova estrutura de precificação de acesso à internet, combinada no tripé operadora, servidor de conteúdo e cliente.

Segregação jamais

De qualquer forma, os executivos são taxativos ao afirmarem que não deve ser feita qualquer restrição a acesso por tipo de conteúdo. ?Nenhum serviço pode ser segregado. O que deve haver é uma gestão?, explicou. Desta forma, ao acessar informações menos críticas, como no caso do exemplo da atriz e da cirurgia acima citados, a maior disponibilidade seria direcionada para a missão mais crítica, ao passo que os usuários teriam acesso ao  outro conteúdo, mas não na velocidade total.

A jornalista viajou a Brasília a convite da Cisco

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