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Na Flip, neurocientista que trocou Brasil pelos EUA critica política científica

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que deixou o Brasil há um mês e meio para continuar seu trabalho de pesquisa nos Estados Unidos, disse ontem (30/6), ao participar de debate na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que “agora pode fazer seu trabalho”. Suzana também criticou a incorporação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação ao Ministério das Comunicações pelo governo interino de Michel Temer.

“Não acho nada surpreendente [a fusão], porque é apenas mais uma evidência do quanto a ciência é desvalorizada no Brasil”. Segundo ela, com a perda de importância da pasta, o país tende a se tornar cada vez mais dependente do conhecimento e da tecnologia gerada no exterior.

Suzana disse achar sintomático que sua decisão de aceitar a proposta de lecionar na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, tenha causado comoção. “Se eu recebo uma proposta melhor de trabalho e aceito ou não aceito, não deveria ser da conta de ninguém”, criticou a pesquisadora, que disse ter certeza de que tomou a decisão certa e que está “extremamente satisfeita com sua rotina” nos EUA.

“Eu agora trabalho em um lugar onde a administração é feita por administradores, onde a informática é cuidada por pessoas especializadas em informática, onde eu não sou minha própria agente de viagens, contadora, eletricista, torneira mecânica, etc” comparou. Suzana era pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e defende mais cobrança por resultados no meio acadêmico brasileiro.

Autora de sete livros, a neurocientista dividiu a mesa na Flip com o neurocirurgião britânico Henry Marsh, que lançou seu primeiro livro após 36 anos de carreira. Durante o debate, os dois compartilharam expectativas em relação a avanços científicos, crenças e comentaram hipóteses como o prolongamento da vida e a possibilidade de reproduzir um cérebro humano artificialmente.

“Me parece muito improvável [que se possa viver até os 400 anos em um futuro próximo]. Mas, mesmo se fosse possível, acho uma péssima ideia. Seria caríssimo e só os muito ricos viveriam”, disse Marsh. Segundo ele, a inteligência artificial ameaça mais a humanidade na substituição de empregos que na perda do controle sobre as máquinas.

Ciência e poesia
O neurocirurgião contou à plateia que sua carreira teve operações desastrosas e que a experiência trouxe menos confiança em si mesmo e mais humildade. “Sinto alívio quando me saio bem. Não me sinto triunfal. Sinto que tive sorte.”

A pesquisadora brasileira contou que seu trabalho de comparar o cérebro humano com o de outros animais permitiu desenvolver a teoria de que o cozimento dos alimentos tem papel central no destaque da humanidade sobre as outras espécies.

“Se a gente comesse como todos os primatas comem, a gente não deveria estar aqui, pois deveríamos passar nove horas e meia por dia apenas procurando comida.” Segundo a pesquisa de Suzana, o cozimento permitiu aproveitar melhor os alimentos e dedicar menos tempo à subsistência, o que liberou mais tempo para o desenvolvimento das capacidades do cérebro humano. “A cozinha é algo extraordinário que a gente precisa reverenciar.”

Os dois cientistas concordaram no ponto de vista de que a consciência e a vida são resultado de conexões eletroquímicas no cérebro, mas defenderam que isso não diminui a importância ou a poesia para o ser humano.

“Para muita gente, a noção de que a gente não é mais do que matéria é quase insultante”, disse Suzana. “Tem gente que acha que os cientistas querem tirar a magia da coisa, querem explicar o mundo e que isso acaba com a poesia. Muito pelo contrário. Acho extraordinário olhar para aquele pedaço de matéria e entender que são moléculas, mas que, por causa de uma configuração e de uma maneira muito particular que elas se organizam, aquilo se transforma em um ser capaz de pensar, se colocar na vida e ter opiniões sobre o universo, e que inclusive é uma pessoa que te desperta emoções, amor profundo e interesse. Isso pra mim é a poesia suprema.”

Brexit
Durante a Flip, o autor britânico criticou o resultado do plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia e disse temer que as consequências econômicas da decisão pesem sobre o sistema de saúde britânico. “Nunca achei que viveria para ver a Inglaterra passar por isso. É um pesadelo”, lamentou.

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