Fosse se deixar levar por todos os comentários que tentavam colocá-la para baixo, a química brasileira Joana D’Arc Félix de Souza, 55 anos, não teria deixado a casa em que morava, nos fundos de um curtume no interior de São Paulo. Hoje, ao encerrar sua palestra na Campus Party 12, na noite dessa quarta-feira (13), Joana foi aplaudida em pé pelos tantos campuseiros que a assistiam. Disse um singelo “obrigada, gente” e até pediu desculpas “eu estourei o tempo, né”.
Fato é que Joana teve que resumir muito a sua vida e agilizar a fala em uma hora e meia para dar conta de compartilhar os altos e baixos da sua trajetória. Da menina que sofria preconceitos diários a premiada pós-doutoranda em Harvard, até seu retorno a mesma cidade que consta em sua certidão de nascimento. Foi em Franca, em uma Escola Técnica (Etec), que Joana deu início a um trabalho que não só a colocou como referência internacional em Educação como a fez mudar o destino de dezenas de alunos. “Se a gente olhar para os lados a gente desiste”, disse Joana ao contar sobre as tantas vezes que ouviu comentários racistas em sua jornada desde o ensino primário a pós-graduação.
Joana tinha 14 anos de idade quando entrou para o curso de Química na Unicamp. Lá deu início a uma precoce carreira de pesquisadora. Mal concluiu a graduação, emendou o Mestrado e na sequência o Doutorado. Foi nessa ocasião da vida que chegou até a Carolina do Sul, nos Estados Unidos.
“Meu orientador disse para mim ‘Joana, você não é obrigada a ir para Carolina do Sul’. Porque lá eu poderia sofrer preconceito por conta da cor da minha pele. Conversei com o meu pai e ele disse ‘vai embora, não perca a sua oportunidade’. E eu fui. Cheguei lá e o foi o pior ano da minha vida”, lembra Joana. “Mas porque foi importante eu não desistir? Na última semana do doutorado lá, eu fui convidada para fazer o pós-doutorado em Harvard”.
O retorno ao Brasil não estava mais nos planos da cientista Joana, mas ela voltou a fixar residência em Franca após o falecimento do pai e de sua irmã, ambos quase na mesma época. Sua mãe seguia muito doente.
“Pensei, vou voltar e cuidar da minha mãe. Mas também pensava o que eu ia fazer em Franca?”, indagava-se. “Em 30 dias que eu já estava lá, abriu o concurso para ser professor da ETEC Carmino Corrêa Junior, um curso técnico em curtimento de materiais”, complementa. Era o início da história de Joana como professora.
Na Escola Agrícola de Franca, no curso técnico em agropecuária, o mais antigo da escola, Joana se comprometeu a levar a iniciação científica aos jovens em situação de vulnerabilidade. Meninos e meninas com cerca de 14 anos e que se encontravam no tráfico de drogas e na prostituição. Convencer os alunos e até mesmo os professores de que aquele trabalho seria transformativo não foi tarefa fácil. Mas os esforços se pagaram.
“Hoje eu sei que foi a melhor decisão que tomei na minha vida”, ressalta. Joana ainda lembra que na época procurou seu orientador do doutorado em busca de uma motivação. “Ele falou: Joana, não é porque você estudou em Harvard que você precisa trabalhar na melhor universidade. Muda a realidade que você tem aí, muda a forma como esses meninos estão inseridos no tráfico. Faça pesquisa, mostra para o seu pai que você pode transformar, faça pesquisa como se estivesse nos EUA. Não baixe o nível da pesquisa porque você está aí’”, conta parafraseando o orientador. “Eu fiquei morrendo de vergonha, né. Depois, eu queria mudar a escola da noite para o dia”, completa.
Mas como transformar uma metodologia tradicional de ensino, uma aula expositiva, em algo prazeroso para o aluno? Como despertar o espírito investigativo neles? Eram essas perguntas que Joana se fazia. “Cheguei a conclusão que estimular a iniciação científica nos jovens a partir do ensino fundamental era o caminho. Assim teremos jovens mais críticos no futuro”, ensina.
Joana orientou 40 alunos em iniciação científica na ETEC. Desses, oito foram para o mercado de trabalho e 32 estão em universidades, alguns já no Doutorado. “Não tivemos nenhuma desistência. Para vocês verem que a educação é o caminho”.
Entre os saldos do trabalho, a cientista e seus alunos conseguiram uma série de patentes para fertilizantes, cimento verde e até mesmo desenvolveram uma pele humana para transplantes confeccionada a partir da pele do porco. Um trabalho que ganhou o Prêmio Pesquisador do Ano. “A educação e a ciência tem o poder de transformar vidas. São 103 prêmios ate o momento, 15 patentes internacionais”, conta.
O trabalho de Joana também foi reconhecido pela ONU (Organização das Nações Unidas). Uma publicação da organização detalhou o trabalho da cientistas e de seus alunos e foi distribuída em um evento em Genebra. A mesma entidade a convidou para falar sobre transformação social em uma palestra. “Lembrei lá trás, do meu orientador que dizia ‘faça sua escola ser conhecida no mundo todo’”.
Antes de concluir, Joana ainda deixa um recado: “Fazer inovação, fazer pesquisa de ponta, não é exclusivo das universidades. Podemos fazer pesquisa em escolas, em escolas técnica, basta querer. No ano passado, eu dei uma palestra em uma grande universidade e depois um professor perguntou se a gente não tinha vergonha do nosso laboratório”, recorda Joana. “Estamos em um laboratório de quinta categoria, mas nossos projetos são de primeira classe”.
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