Isaac Asimov ? A opinião de um gênio

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8:36 pm - 06 de março de 2011

Inventando Google e YouTube (ou coisa parecida)

BM: – Você acredita que este sentimento seja contagioso e se espalhe entre as pessoas comuns? Esta paixão que você tem por aprender? Poderemos ter uma revolução na educação?

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IA: Sim, eu penso que não apenas poderemos como seremos obrigados a isto. À medida que os computadores evoluírem, cada vez mais caberão a eles as tarefas que os humanos mesmo hoje já não deveriam estar fazendo porque não dependem do uso do cérebro e são maçantes. Um dia não mais sobrarão trabalhos deste tipo para os homens. Tudo o que restará para eles serão tarefas mais criativas. E a única forma pela qual poderemos nos entregar a tarefas mais criativas é ter cérebros voltados para elas desde o início. Você não pode fazer um ser humano trabalhar em algo que subutilize seu cérebro por décadas e décadas e de repente dizer: “bem, este trabalho não mais precisa ser feito por você, vá fazer algo mais criativo”. Você já tirou a criatividade dele. Mas se, desde o início, as crianças forem educadas no sentido de apreciar sua própria criatividade, então provavelmente poderemos, quase todos nós, sermos criativos. Na antiguidade poucas pessoas sabiam ler e escrever, o domínio da leitura e escrita é uma coisa relativamente nova e na verdade há muita gente que ainda não o exerce. Mas quando a sociedade se envolve em educação de massa, a maior parte das pessoas acaba alfabetizada.

Quando tivermos computadores em todas as casas, cada um deles conectado a enormes bibliotecas, nos quais qualquer um, mesmo uma criança, possa fazer qualquer pergunta e receber respostas e material de referência sobre qualquer tema em que esteja interessado, possa acompanhar o assunto mesmo em sua própria casa, mantendo seu próprio ritmo, seguindo sua própria direção em seu próprio tempo, então todos poderão apreciar o prazer de aprender.

Hoje, o que se considera “educação” nada mais é que forçar o conhecimento para dentro das pessoas. E todo o mundo é obrigado a aprender as mesmas coisas, no mesmo dia e obedecendo ao mesmo ritmo dentro da mesma sala de aula. Mas cada pessoa é diferente da outra. Para alguns é demasiado rápido, para outros demasiado lento e para outros ainda na direção errada. Então dê a elas uma oportunidade além da escola ? eu não sou contra a escola, o que imagino é algo complementar a ela ? para seguir sua própria vocação desde o início.

BM: – E o que você acha do argumento que computadores, máquinas, “desumanizam” a educação?

IA: Ora, pois na verdade é justamente o oposto. A mim parece que é justamente através das máquinas que poderemos estabelecer uma relação de um-para-um entre a fonte de informação e seu consumidor. Na antiguidade havia tutores para as crianças. Uma pessoa que tinha recursos financeiros podia contratar um educador para ensinar a seus filhos que, se fosse um bom profissional, adaptaria seus ensinamentos aos gostos e habilidades dos alunos. Mas quantas pessoas podiam contratar um educador? A maioria das crianças não tinham acesso à educação.

Hoje chegamos ao ponto em que se considera absolutamente necessário educar a todos. A única forma que podemos fazê-lo é contratar um professor para um grande número de estudantes. E para poder manter as coisas organizadas, foram estabelecidos currículos e disciplinas. Mas quantos professores são realmente bons? Como em qualquer outra atividade, o número de professores é muito maior que o número de bons professores. Então ou podemos garantir uma relação de um-para-um para poucos ou uma relação de um-para-muitos para a maioria. Com os computadores teremos a possibilidade de estabelecer uma relação de um-para-um para a maioria. Qualquer pessoa pode ter um “professor” na forma de acesso direto a todo o conhecimento acumulado da espécie humana.

Com ele, até a pessoa que procura apenas informações sobre, digamos, baseball, acaba se envolvendo com matemática ao examinar as estatísticas dos jogadores. E quanto mais ela se envolve com as estatísticas mais se envolve com matemática tentando interpretar o que realmente significam. Isto pode fazer com que ela acabe se interessando mais por matemática que por baseball, sem ser obrigada a isto, desde que esta seja sua verdadeira vocação. Por outro lado, uma pessoa que se interesse por matemática pode ficar intrigada com a forma pela qual se pode arremessar uma bola em curva. E acabar se envolvendo pessoalmente com o esporte. Por que não?

BM: – Temos um grande problema educacional em nosso país, especialmente no que toca a prover educação para as crianças pobres. Você acha que poderemos fazer com que cada uma delas tenha acesso a seu próprio computador?

IA: Talvez não no início. Mas é um problema equivalente a suprir cada cidadão deste país com água potável. Há algumas nações onde é impossível fornecer água a todos exceto em circunstâncias especiais… Mas há países onde é possível abastecer quase toda a população. Os Estados Unidos são um país que abastece com água pura uma porcentagem de sua população maior que qualquer outro país. Não é que esperemos que cada um tenha seu próprio computador completo com igual acesso às fontes de informações, mas deve-se tentar atingir esta meta. E à medida que o tempo passa, cada vez mais pessoas terão. Quando eu era jovem, poucos tinham seu próprio carro ou telefone e quase ninguém tinha ar condicionado. E hoje estas coisas são bens comuns quase universalmente. Com os computadores pode acontecer o mesmo…

BM: – Seria como se cada aluno tivesse sua própria escola particular?

IA: Sim. E uma escola que pertencesse a ele ou ela. Ele seria o único a determinar o que aprender, o que estudar nela. É claro que esta não seria sua única fonte de conhecimento, ele ainda teria que ir à escola para interagir com os professores e outros alunos e aprender certas coisas que precisa saber, não se poderia fugir disto. Mas ele teria meios de encontrar a alegria da vida que é seguir sua própria vocação.

BM: – Esta revolução que você menciona, a busca pessoal pelo conhecimento, não seria apenas para jovens, pois não?

IA: Claro que não. E este é um excelente ponto. Jamais apenas para os jovens. E esta é outra dificuldade que estamos encontrando na educação. Ela é concebida para os jovens e por isto as pessoas são levadas a pensar que o aprendizado é algo que pode se terminar. E o que é pior: que este término é um rito de passagem para a idade adulta: “eu já acabei meus estudos, não sou mais uma criança”. Em consequência disso, tudo aquilo que se reporta à escola, como ler livros, ter ideias, fazer perguntas, é “coisa de criança”. “Agora você é um adulto, não faz mais este tipo de coisa”.

BM: – A escola torna-se uma prisão, a recompensa é sair dela…

IA: Exatamente. E toda criança sabe disto. Toda criança acredita que só vai para a escola porque é pequena, fraca. Faz o possível para sair dela o mais cedo possível e, quando consegue, se regozija por ser “um homem precoce”… E a consequência disto é que as pessoas têm como objetivo “não aprender mais” e sentem vergonha de ter que voltar a estudar. Mas se tivermos acesso (referindo-se o acesso universal à informação através dos computadores) então qualquer pessoa, em qualquer idade, poderá aprender sozinha. Poderá continuar a se interessar por aprender.

Ora, se você sente prazer em aprender, não há qualquer razão pela qual deva parar quando chega a certa idade. As pessoas não param de fazer o que gostam ao chegarem a uma determinada idade. Não param de jogar tênis só porque completaram 40 anos, não deixam de fazer sexo só porque completaram 40 anos, continuam fazendo estas coisas enquanto podem só porque gostam de fazê-las. E o mesmo ocorrerá com a educação. O problema é que a maioria das pessoas não sente prazer com ela devido às circunstâncias. Dê-lhes a possibilidade de ter prazer e seguirão aprendendo. Há um caso famoso de Oliver Wendell Holmes, que viveu até os noventa anos. Certa ocasião ele estava hospitalizado, já no fim da vida, próximo aos noventa, quando recebeu a visita do Presidente Roosevelt, que o encontrou lendo um compêndio de gramática grega. E, ao ser indagado pelo presidente por que lia aquilo, respondeu: “- Para exercitar minha mente, Senhor Presidente”.

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