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Google é antiético e um monopólio predador, diz especialista

São poucas as pessoas que se “atrevem” a discordar ou a criticar o Google. A empresa, que há cerca de 14 anos nasceu com foco inicial em ajudar a encontrar dados no amontoado espalhado pela web, evoluiu seu propósito e diz ter, como principal objetivo, organizar todas as informações mundiais. E é exatamente esta a grande preocupação de Scott Cleland, que já já testemunhou três vezes no Congresso dos Estados Unidos contra a empresa. “Google é um monopólio, e um monopólio predador. Ele é extremamente ambicioso”, alarmou o executivo, que evita ao máximo usar qualquer serviço da marca, em entrevista ao IT Web.

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Fundador da Precursor LLC, consultoria que presta serviço de pesquisas em futuro da internet e inovação, e da associação Netcompetition.org, uma entidade pró-competitividade que representa os interesses do segmento de conexão de banda larga, Cleland traz nesta semana ao Brasil, pela editora Matrix, o livro “Buesque e Destrua”, no qual tenta passar ao leitor, ao longo de 348 páginas, um resumo dos quatro anos de pesquisa que fez sobre a companhia, alertando sobre os perigosos e supostos engodos da empresa, que sob o lema de “Não ser má”, pratica, em sua opinião, todo tipo de ação antiética.

Na visão do executivo, não há qualquer companhia capaz de competir com o gigante de buscas – que hoje oferece toda sorte de produtos, de e-mail, a rede social, a mapas, a sistema operacional móvel e hardware – o que traz um problema muito grande em termos de proteção à privacidade e à propriedade intelectual. Ele prevê que em cinco anos haverá “desastres de seguranças e muitos problemas de soberania, porque o Google não respeita a soberania dos países”.

“O Google está se tornando a própria internet para alguns usuários. você não pode confiar no Google, mas lhe dá tanta informação que ele se torna, praticamente, o seu dono. Se não há privacidade e nem respeito à propriedade, eles podem lhe chantagear, intimidar… eles têm todo o poder e você não tem nenhum”, completou o executivo, que alertou ainda para graves perigos envolvendo competição com a recente investida da empresa no mercado corporativo.

O especialista concedeu uma entrevista ao IT Web pelo telefone na última semana. Foi difícil cortar o material, porque as declarações de Cleland foram todas muito polêmicas. Por esse motivo, aconselho a leitura completa da entrevista, apesar de seu tamanho. O hábito de não ler é extremamente perigoso, segundo Cleland, especialmente quando o assunto são os Termos e Políticas de Privacidade do Google. Então vamos à prática.

  1. Gostaria que você me contasse mais sobre sua impressão sobre Google

Scott Cleland – É uma companhia incrível, que faz muitas coisas boas. Contudo, eles acham que fazer o bem é uma licença para fazer errado. O Google se vende como confiável, tem o lema de “Não ser mau” e diz que as pessoas podem confiar nele. Mas quando você olha para o registro das informações coletadas, é possível ver que o que eles fazem não e o que dizem . Eles têm a pior privacidade do mundo e o pior registro de privacidade no mundo, e a pior política propriedade intelectual do mundo.

 

2. Mas as pessoas, quando surfam na internet, não se incomodam com isso. Eles aceitam os termos de privacidade sem sequer ler…

Cleland – O problema com o Google é que ele diz que podemos confiar na segurança, mas ela é muito faca. Ele não se previne de invasões, mas consertam depois de tomar consciência. Ele quer ser aberto e diz que isso é o mais importante. A Apple  é diferente. Quando alguém coloca um aplicativo na App Store, ela valida, porque eles querem ter certeza que não é um malware, ou um app ruim. O Google permite todo mundo lá e remove se há reclamações.

3. Mas há serviços do Google mais abertos do que outros? Quando você fala de app, você diz sobre Android. Mas quando uso outro serviço, como o Google+, por exemplo, o usuário sofre o mesmo risco?

Cleland – Eu não digo mau, eu digo antiético. O lema: “Não seja mau” é o mais antitético. Porque quando ele diz isso, tudo o que não seja mau, mas seja antiético, ele faz.

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4. Mas quando ele começou  a ficar assim?

Cleland – Desde o começo. Eu pesquisei a empresa por quatro anos e eles sempre fizeram isso. Eles não acreditam que precisam pedir permissão.

5. Mas com todo o alcance que o Google tem, como podemos fugir dele?

Cleland – É muito difícil. O importante é que o Google faz muitas coisas boas, tem ótimos produtos, mas o problema é que eles escondem os problemas, o que eu digo é que as pessoas deveriam ser os olhos abertos e não confiar cegamente. Você quer usar a pesquisa? Tudo bem, ela é muito boa. Mas quando falamos em política de privacidade, há alguns produtos que não deveriam ser utilizados. Não use o Gmail. O que é o Google+? Ele está fazendo o Google social e integrando tudo o que você tem em apenas um arquivo. O grande problema que falo em meu livro é a supercentralização. Nunca ouve uma companhia tão ambiciosa, que quisesse coletar todas as informações do mundo. Eles dizem tudo mesmo, e isso inclui suas informações privadas também.

6. Isso pode gerar uma ditadura do Google?

Cleland – Sim.  No último capítulo do livro eu falo sobre isso. Eles, por ter tantas informações, acham que podem dizer a você o que fazer amanhã. Eles têm agora um produto chamado Google Now…

7. Exatamente, eu ia falar sobre isso. Eles apresentaram nesta semana este produto durante  I/O. Ele é um assistente pessoal como a Siri, do iPhone 4S, mas muito mais do que isso, porque ele é proativo.

Essa é a diferença com o Google. Ele nunca acha que precisa pedir sua permissão, ele assume que sabe o que é melhor para você. Isso é o que um ditador faz. Um ditador da internet. Eles assumem que sabem melhor e que não precisam lhe perguntar, porque você confia neles.

8. E como lidar com isso?

Cleland – Há duas coisas principais: eles dizem que são éticos e nós deveríamos esperar que eles seguissem a regra de ouro e tratassem os usuários como gostariam de ser. A segunda:  a força da lei ao redor do mundo deveria promover uma lei no Google. Ele opera como se fosse uma bolha, como se não precisassem seguir as mesmas regras e éticas que as demais pessoas seguem.

9. Mas toda uma economia nasceu do Google. Se não fosse o buscador, a internet não estaria indexada como está hoje, o conceito Web 3.0 não seria uma realidade, talvez, publicidade online, profissionais de SEO, e-commerce talvez não existissem…como você imagina um mundo sem o Google?

Cleland – Haveria mais privacidade e proteção da propriedade.

10. Mas esses atos continuariam acontecendo no mundo offline, não? A internet não é apenas um espelho do mundo real?

Cleland – Não. O que os engenheiros do Google fazem é deixar o mundo online muito diferente, eles querem ser igualitários, onde não há propriedade, não há privacidade, e ninguém pode dizer não a ninguém. No mundo real temos propriedade privada, temos privacidade e informações privadas.

11. Mas ainda assim temos pirataria, não?

Cleland – Sim, mas o Google tem interesse político e financeiro em minar o conteúdo que não seja dele. Ele esta tentando criar seu próprio conteúdo: Youtube, Maps, Google+, agora que eles têm um monopólio de busca eles querem ter produtos e conteúdo em que eles sejam o primeiro em todas as áreas. Ninguém consegue competir com isso. É como fazer “maço” no jogo de baralhos: dar para você boas cartas e, ao seu oponente, cartas ruins. Isso é trapacear.

12. Mas se não fosse o Google, não seria outra companhia?

Cleland – Não. O Google é único, porque nenhuma outra companhia tem a ambição ilimitada e o leque de acesso para ser tão ambiciosa. Por que eu escrevi um livro sobre a empresa e não sobre a internet? Porque ele é um monopólio da internet. O Google está se tornando a própria internet para alguns usuários. Quando você faz uma busca no Google, você não está fazendo uma busca efetiva na internet, é uma cópia da internet.

13. Empresas como o Facebook seriam tão perigosas quanto o Google?

Cleland – A rede social tem problemas de privacidade, mas não chega nem perto da ameaça que é o Google,  por duas razões: ele é só um pedaço da torta, já o Google é a torta inteira. O Facebook apenas apresenta publicidade, e isso é muito mais fraco do que pesquisa. Em termos de negócios, é mais parecido com AOL e Yahoo. É mais fraco.

14. Então não há companhia que pode competir com o Google?

Cleland – Não. Eu pensei em escrever meu livro há cinco anos quando a companhia comprou uma empresa chamada Double Click, que servia publicidade: quando você está em um site e tem de esperar alguns segundos até ele carregar as imagens é a Double Click servindo a vocês publicidade.  Quando eles compraram, vi o perigo do monopólio, porque a Double Click era a única outra empresa do mundo que tinha quase todos os usuários, publicitários e publicações. Quando põe tudo junto, o Google tem um bilhão de usuários, quase 95% da publicidade mundial e dos sites. E ninguém está perto disso. O Google está extremamente longe de qualquer competidor. Eu previ isso há cinco anos e efetivamente aconteceu.

15. Então o que você prevê para os próximos cinco anos?

Cleland – Muitas ações antitruste. Agora estão nos Estados Unidos, na Coreia do Sul, na Argentina e Índia. Haverá desastres de seguranças e muitos problemas de soberania, porque o Google não respeita a soberania dos países.

16. Em novos produtos, como os Óculos do Google, que saberá aonde você vai e as coisas que você vê,  como você avalia o aumento no número de dados que inserimos na marca?

Cleland – O amontoado de dados que colocamos está além da compreensão. A genialidade do Google é que eles entenderam quanto de dados seria  e compreenderam que a internet é um grande dispositivos de gravação.  O meu ponto é que você não pode confiar no Google, mas lhe dá tanta informação que ele se torna, praticamente, o seu dono. Se não há privacidade e nem respeito à propriedade, eles podem lhe chantagear, intimidar… eles têm todo o poder e você não tem nenhum.  É a verdadeira Big Brother Inc [fazendo alusão ao aclamado livro 1984, de George Orwell, que vislumbra um futuro onde o Estado, sob o ícone de líder chamado de O Grande Irmão, sabe tudo o que acontece em sua vida e controla seus passos].

17. O Google está se tornando mais forte nas empresas. Nos últimos anos cresceu com ofertas específicas para este mercado, baseadas em cloud computing, com as quais outras companhias não conseguem competir. Então, no começo, a empresa buscava informações pessoais. Agora, caminha para as corporativas. Isso seria mais perigoso?

Cleland – É um tipo diferente de perigo, pois envolve o perigo da competição. Como o Google grava tudo, eles sabem todos os competidores, todos os seus clientes, toda a demanda, eles têm um perfeito conhecimento de qual conteúdo as pessoas querem e quais empresas oferecem esse conteúdo.  Google tem toda sorte de informação confidencial, porque eles estão gravando tudo. Eu chamo isso de Googlelopólio [fazendo um neologismo com o nome da empresa e a palavra monopólio].

18. Quais produtos do Google você usa? Gmail, o sistema de buscas, Android…

Cleland – Não, eu não uso nada. Às as vezes eu uso a pesquisa, mas evito.

19. E o Facebook?

Cleland – Sou um usuário pouco intenso.

20. E em termos de e-mail?

Cleland – Qualquer um que não seja o Gmail. O problema com esse serviço é que ele obtém não somente os seus dados, mas também das pessoas que respondem para você, mesmo que seja de outro provedor. Então eu não respondo a e-mails do Gmail.

 

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