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Espelhos do Mundo

David Hillel Gelernter, professor de Ciências da Computação da Universidade de Yale (EUA), lançou, em 1991, um livro chamado Mirror Worlds: or the Day Software Puts the Universe in a Shoebox…How It Will Happen and What It Will Mean. Em uma livre tradução: “Espelhos do Mundo: ou o dia em que o software coloca o universo em uma caixa de sapato… como isso acontecerá e o que isso significará.”

Gelernter imaginava “olhar para a tela de um computador e ver a realidade – uma imagem de sua cidade, com todos os padrões de trânsito identificados; ou uma imagem que representasse a situação em tempo real de toda uma empresa.” Para ele, essas representações eram chamadas de Espelhos do Mundo e estariam disponíveis para todos em breve. Por meio delas, seria possível explorar o mundo em profundidade e detalhes sem precedentes e sem que precisássemos sair de casa.

O “espelho” nada mais era do que um modelo de software que representaria a realidade, alimentado e constantemente atualizado por rios de dados vindos de sensores conectados. O livro nos oferece um relato lúcido e humanista da evolução dos softwares, antevendo a grande revolução que a Internet faria.

Mais de duas décadas depois da publicação de Espelhos do Mundo, a chamada “Internet das Coisas” passa a transformar em realidade o pensamento descrito pelo professor. Milhões de sensores, aplicativos inteligentes e redes convergentes passam a trazer a realidade do nosso cotidiano, da nossa cidade e empresas para a tela de um computador.
Em 2011, a IBM lançou um programa audacioso: os Centros de Operações Inteligentes para Cidades – e a cidade olímpica do Rio de Janeiro foi uma das beneficiadas. Localizado no bairro Cidade Nova, o Centro de Operações da Prefeitura do Rio de Janeiro-RJ (COR) é um moderno ambiente de tomada de decisões que funciona em regime 24/7.

Na sala de controle, 400 operadores se revezam para acompanhar o funcionamento da cidade e cerca de 900 câmeras trazem a realidade do trânsito e do cotidiano para uma imensa tela de monitoramento.

O COR agrega mais de trinta órgãos da prefeitura envolvidos na rotina operacional do município, auxiliando de forma integrada a cidade no seu dia a dia, no planejamento de grandes eventos e em situações de emergência. Por meio de um radar meteorológico, é possível alertar as comunidades em áreas de risco de deslizamento sobre a possibilidade de uma chuva forte ao som de sirenes. Moradores cadastrados também recebem por SMS o alerta em seus celulares. Para a rápida tomada de decisão em situações de crise, o COR está conectado via telepresença (solução de vídeoconferência imersiva) à casa do prefeito e à sede da Defesa Civil.

Quem já teve a oportunidade de visitar o Centro de Operações Rio percebe que os investimentos em tecnologia têm um efeito positivo imediato para a cidade. Fica a sensação de que outros municípios deveriam fazer o mesmo.
Uma curiosidade: o COR não é exatamente uma novidade. Há mais de um século e meio, o projeto Outlook Tower de Edinburgh, na Escócia, foi uma espécie de precursor vitoriano do Centro de Comando do Rio de Janeiro. De lá, as pessoas observavam a cidade e sua rotina. Especialistas tomavam decisões em função das observações dos diversos padrões de comportamento registrados.
Veja, o COR, assim como seu percussor do século XIX, nada mais é do que um Espelho do Mundo. Espelho de uma realidade que é trazida por sensores inteligentes, câmeras e outros dispositivos eletrônicos (a internet das coisas), por meio dos quais será possível conhecer todo o sistema nervoso da cidade.
Conhecimento é poder, já dizia Francis Bacon (1561-1626). Conhecer a cidade e sua constante metamorfose é dotar o cidadão de poder para que ele atue como um agente ativo das transformações que as cidades do século XXI já exigem.

*Lucas Pinz é gerente sênior de tecnologia da PromonLogicalis

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