E daí? Que que tem? Qual o problema? Que mal faz?

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10:56 am - 18 de setembro de 2011

Corrupção no atacado

Há a corrupção dos políticos que elegemos para fazer nossas leis e administrar o país, estados e municípios, indiscutivelmente a mais óbvia e visível. Recentemente tivemos no Rio de Janeiro um governo (com minúscula mesmo, que este não merece maiúscula nem no nome) que, ao findar, teve o chefe de polícia preso sob a acusação de, enquanto exercia suas funções, chefiar quadrilha armada. Um acontecimento que, tanto quanto eu saiba, é inédito na história da humanidade. E basta ler os jornais, acompanhar os noticiários no rádio e televisão ou, talvez, prestar atenção nas conversas nas mesas de bar para ter certeza que não se trata de lenda urbana: a corrupção dos políticos existe e permeia as estruturas dos três poderes (há alguns anos eu cultivava a ilusão que o judiciário era a exceção que confirmava a regra, mas veio o juiz Lalau com seus apartamentos em Miami e, depois, alguns de seus colegas presos por venda de sentença que mataram mais esta crédula ilusão).

Há também a corrupção policial, mas sobre esta não convém nos estendermos muito considerando o que ocorreu recentemente com a Juíza Patrícia Acioli em Niterói, covardemente assassinada com quinze disparos de arma de fogo por haver decretado a prisão de três policiais corruptos. Tenho algum amor à parca parcela de vida que ainda me resta e pretendo aborrecer vocês com minhas colunas por mais algum tempo para me arriscar a detalhar o assunto. Mas que a corrupção policial existe e é tão reprovável quanto a que assola a classe política é indiscutível.

Convém não esquecer também a corrupção administrativa. Não há muito tempo assisti a um quadro humorístico que retratava uma repartição pública cujo peso administrativo dos despachos concedidos dependia do tamanho do carimbo usado que, por sua vez, era diretamente proporcional ao valor pecuniário da propina. O mais eficaz era o “carimbaço”, cujo emprego exigia que uma considerável quantia fosse desembolsada. E, embora o retrato fosse um tanto caricato, o que não falta por aí são repartições públicas ? e privadas ? que seguem o mesmo figurino. Inclusive alojando a moça cuja única função era abrir a gaveta inferior do arquivo, para os que se lembram do quadro.

E estas são apenas as manifestações mais visíveis da corrupção. Pense um pouco e certamente se lembrará de outras que vão desde o porteiro do teatro que aceita discretamente uma nota dobrada em vez do ingresso até o fiscal que organiza filas e embolsa o equivalente à popular “cervejinha” para reduzir o tempo de espera de alguns privilegiados.

Naturalmente o povo brasileiro tem se manifestado contra todas elas. O que é digno dos maiores encômios, para dizer o mínimo. Bradamos todos, altissonantes, contra a corrupção, com a natural exceção dos que dela se locupletam ? se bem que, curiosamente, mesmo alguns destes têm se manifestado contra de forma efusiva e, o que é pior, sincera, fenômeno curioso e só explicável porque há quem considere que a corrupção é como certas doenças que só “dão” nos outros.

Mas o que dizer sobre a corrupção trivial? Aquela pequena corrupção que grassa por aí, que passa quase despercebida e por vezes afeta justamente àqueles que tão bravamente se alevantam contra a outra, a que chega às manchetes, a dos políticos, administradores, policiais, membros do judiciário, funcionários públicos ou fiscais disto ou daquilo?

Ou será que um povo que se movimenta tão maciçamente contra a corrupção é majoritariamente incorruptível?

Bem, antes de tudo convém lembrar que toda generalização é no mínimo perigosa, quando não preconceituosa. Afirmações como “o português é inteligente”, “o francês é asseado”, “o judeu é perdulário”, “o baiano é diligente” ou “o pelotense é mucho macho”, por genéricas, nem sempre são verdadeiras. Certamente haverá exceções e, eventualmente, em tal quantidade que se podem se mostrar mais numerosas que as citadas como regra. Portanto não cairei na armadilha de escrever que “o brasileiro é…” isso ou aquilo. Em vez disto me limitarei a citar certos comportamentos que tenho testemunhado com alguma frequência entre meus concidadãos. Comportamentos que talvez se manifestem em outros países e outras culturas mas que eu, que tenho viajado bastante por este mundão velho sem porteira, ainda não consegui identificá-los em outras plagas ? pelo menos não com a mesma frequência ou intensidade com que os percebo por aqui. Comportamentos que citarei abaixo, a maior parte deles colhidos em uma mensagem que circula pela Internet sem autor declarado, destas que as pessoas costumam encaminhar aos amigos. Eu a recebi de minha amiga Sueli Catão, que a recebeu de um amigo que a recebeu de outro e assim por diante e, por não saber a quem creditá-la, agradeço à Sueli por me a haver enviado e, sobretudo, a seu autor, seja ele quem for, por havê-la concebido. Mas, para não levar a pecha de roubar dados sem citar a fonte ? um dos comportamentos a serem anexados à lista ? deixo claro que sua autoria não é minha.

Talvez você considere que tais comportamentos não configuram corrupção pelo fato de nem sempre envolverem desvio de dinheiro ou bens materiais. Se é assim, convém atentar para o que o Houaiss define como “Corrupção“. Lá está, entre outras acepções: “substantivo feminino – depravação de hábitos, costumes etc.; deterioração, decomposição física, orgânica de algo“. E este “algo” pode perfeitamente representar os valores morais de uma sociedade. Então vamos ser claros: todos eles são, sim, manifestações claras de corrupção. Quem quiser amenizar um pouco chame-os de corrupção no varejo. Mas corrupção.

O fato de serem tão comuns entre nós não implica que o afável leitor ou a mimosa leitora os pratique e nem eu estou sugerindo que seja este o caso. Mas pense um pouco e provavelmente identificará alguém que é dado à prática de um ou outro deles sem que isto o leve a se considerar corrupto. Pelo contrário, crê que são perfeitamente justificáveis e continua se achando um cidadão exemplar, pronto a se envolver de corpo e alma nas campanhas contra tudo aquilo que está errado (desde que praticado pelos outros) e pró moralidade pública e privada.

E já que falamos em privada, vamos a eles. Mas, antes, uma observação. O fato de serem tão comuns e difusos em nossa sociedade e, algumas vezes, habitualmente praticados por pessoas tidas como cidadãos exemplares, indica que muitos deles já se integraram a nossos usos e costumes, perdendo seu caráter reprovável. Quase todos são justificados com uma das indagações “qual o problema?” (que um ministro use como meio de transporte o avião de uma indústria cujos produtos são licenciados por seu ministério), “o que que tem?” (que um parlamentar receba uma polpuda contribuição para sua campanha de uma prestadora de serviços de telecomunicações quando a lei que regula o assunto está prestes a entrar em discussão no congresso), “e daí?” (que a mulher ou amante ou filha ou genro ? escolha ? de uma autoridade pública trabalhe no gabinete de um colega, recebendo salário dos cofres públicos, quando por coincidência a mulher, ou amante, ou filha, ou genro ? escolha ? do colega trabalha nas mesmas condições no gabinete do primeiro). “Que mal faz?” (que a magnífica reforma do apartamento do não menos magnífico reitor seja paga pela verba da universidade destinada ao ensino). Indagações que fazem crer que quem os pratica considera que, por não serem explicitamente ilegais, os comportamentos são tidos como corretos.

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