Desculpe, mas não pirateio.

Por que não piratear?
Agora que acabo de escrever o subtítulo acima me ocorreu o quanto é surreal a necessidade de justificar a razão de não praticar uma ilegalidade. Mas, surreal ou não, em um país onde esta prática é tão disseminada, ela me parece necessária. Então vou explicar as razões que me levaram a não usar programas piratas.
Foi, naturalmente, uma decisão pessoal. Na verdade nem posso afirmar que tenha sido uma “decisão”. Considero que “decisão” é uma resolução tomada após avaliar uma situação e sopesar seus prós e contras. Neste caso não foi o que aconteceu. Pelo contrário, foi um conceito que, pouco a pouco, foi se cristalizando em minha consciência a partir de uma sucessão de eventos.
Começando com o fato de que, com a revogação da sinistra reserva de mercado da informática, eu poderia ter acesso aos programas que precisasse desde que pagasse o preço. Portanto, o acesso legal estava garantido. O que faltava era grana. E bota grana nisso.
Depois fui constatando que estes preços, inicialmente extorsivos, com o estabelecimento da saudável concorrência causada pela abertura do mercado foram se tornando cada vez mais justos e acessíveis. Já dava para comprar sem abrir falência.
Mesmo porque desenvolver um bom programa tem um custo. Até o programador independente que oferece um pequeno utilitário em regime de “shareware” ou em troca de uma contribuição voluntária, gastou algumas centenas de horas de trabalho para desenvolver e testar seu produto. Recusar-se a remunerá-lo por este trabalho, especialmente se o programa é bom, significa desestimulá-lo a continuar criando novos programas, secando assim uma boa fonte de software a preços razoáveis.
A tudo isto se somou o natural desconforto que eu sentia ao constatar que praticava um ato ilegal.
Finalmente, quando me conscientizei que, escrevendo em veículos que atingem centenas de milhares de leitores, eu definitivamente não me sentia bem cumprindo minha obrigação ética de condenar o uso de programas piratas enquanto na prática contrariava aquilo que pregava sem que tivesse qualquer necessidade de fazê-lo, criei o hábito singular, vejam vocês, de pagar pelos programas que uso quando não obtenho, legalmente, acesso gratuito a eles.
E deixei, espero que definitivamente, de ser um usuário de programas piratas.
De novo: não sou paladino da moral e dos bons costumes, definitivamente não me considero uma virgem em prostíbulo e não acho que sou mais ou menos honesto que qualquer outro de meus concidadãos. Nem escrevi esta coluna para pregar minhas virtudes ? mesmo considerando que, sendo poucas, merecem certa divulgação.
Nada disto.
Escrevi esta coluna apenas para explicar por que não uso programas piratas e instar a quem a ler a fazer um exame de consciência sobre sua própria atitude em relação à questão. E a agir de acordo com sua própria consciência, princípios, valores morais, formação ética e, naturalmente, necessidades.
Em outro país, que não tivesse sido subjugado por uma ditadura burra que impôs uma reserva de mercado absolutamente estúpida que praticamente coagiu os cidadãos mais honestos à constrangedora prática de uma ilegalidade tão disseminada que acabou por turvar a diferença entre o certo e o errado, uma coluna como esta, mais que desnecessária, seria inconcebível. Como justificar o fato de um indivíduo se dar ao trabalho de escrever algumas páginas apenas para explicar as razões pelas quais cumpre a lei? “Confessar”, como que se desculpando, que não usa programas piratas?
Pois aqui ela me pareceu necessária.
Mas isto não é o pior.
O pior mesmo é que, para alguns, ela parecerá absurda. E, com perdão da palavra, sei que muita gente a considerará uma basbaquice. Um mico, como está na moda.
É só esperar os comentários…
B.Piropo
