Desculpe, mas não pirateio.

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7:16 pm - 25 de setembro de 2011

A reserva de mercado e suas consequências

Comecei a usar computador na segunda metade dos anos oitenta do século passado. Naqueles dias, tanto os programas quanto os sistemas operacionais eram em inglês.

Havia, sim, alguns em português. Não lembro o nome, porque ninguém os usava. E não usava por diversas razões. A primeira é que funcionavam mal. A segunda é que eram cópias não autorizadas, mal feitas e mal traduzidas de uma das versões comerciais do DOS original, em inglês, feitas por empresas brasileiras que alegavam terem desenvolvido o sistema quando na verdade o haviam cinicamente copiado do original (o folclore da informática incorpora casos bizarros de situações em que, sem mais nem menos, afloravam mensagens de erro em inglês em um SO supostamente desenvolvido em português por uma empresa nacional).

É que vivíamos na tenebrosa era da ditadura militar em que estava em plena vigência a não menos tenebrosa lei da reserva de mercado da informática segundo a qual era proibido usar qualquer hardware ou software que não fosse desenvolvido ou fabricado no país.

Estas empresas, então, praticavam pirataria. Mas era uma pirataria oficial, protegida pelas autoridades militares da época que haviam, com o inacreditável apoio da esquerda nacionalista, forjado a maldita lei da reserva de mercado que, quem podia, descumpria. Pois quem descumpre leis ditatoriais, como ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão.

Começou assim a se formar a mentalidade de que usar produtos de informática contrabandeados e programas pirata eram atividades perfeitamente aceitáveis por descumprir uma lei claramente injusta e burra. O que fez com que se tornassem práticas usuais e correntes. E todos a ela aderiram. Inclusive este que vos tecla.

Mesmo porque não fazer isto era se expor a extorsão.

Por exemplo: no final dos anos oitenta eu andei me metendo a programar. E programava em C e Assembly. Portanto precisava de um bom compilador.

Havia o da Microsoft, que todo o mundo pirateava. Seu maior concorrente era um soberbo conjunto de programas desenvolvidos pela Borland, o pacote “Turbo”. E, na época, havia no Largo do Machado um “centro comercial de informática” constituído por meia dúzia de arapucas com aspecto de lojas que vendiam hardware supostamente nacional e programas, alguns importados, tudo isto a preços extorsivos.

Passei por lá para verificar o que conseguiria comprar para compilar meus programas. Encontrei o Turbo C da Borland, versão 1.5, por um valor equivalente a pouco mais de mil dólares americanos. Não dava. Afinal, eu programava por prazer, não por profissão, e gastar aquela grana preta não estava nos meus planos.

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Mas acontece que por alguma razão eu tinha agendada uma viagem aos Estados Unidos mais ou menos naquela ocasião. E lá, encontrei (e comprei) o mesmo Turbo C, porém versão 2.0, por pouco mais de cem dólares (a figura 2 mostra a capa da embalagem da versão 3.0). Menos de dez vezes o preço que me haviam cobrado aqui por uma versão desatualizada. Uma diferença injustificável ainda que se levasse em conta os impostos escorchantes.

Conclusão: naqueles dias, comprar software legal era se submeter a um tipo de extorsão legalizada. E, pior: legalizada por um dispositivo institucional criado pela ditadura militar para beneficiar meia dúzia de seus protegidos. O resultado disto é que esta prática generalizou-se e passou a ser considerada mais ou menos como uma ação em legítima defesa.

Foi assim que o uso de software pirata, mesmo ilegal, acabou se tornando prática tida como justa e aceitável entre usuários de computadores. E não apenas os usuários domésticos: a maioria das empresas também recorria a eles.

Pois bem, as coisas mudaram.

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