Não faltam exemplos de negócios que estão adotando IA apenas pelo hype, sem estratégia, e quebrando a cara.
Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto a intensa implementação de inteligência artificial e outras tecnologias em empresas dos mais variados tamanhos e segmentos. Por isso, posso afirmar com propriedade que muitas delas o estão fazendo pelos motivos errados e, consequentemente, colhendo resultados aquém do esperado. Segundo dados do relatório State of AI 2025 da McKinsey, apenas 39% das companhias atribuem qualquer nível de impacto no EBIT ao uso de IA, e, entre essas, a maioria diz que menos de 5% do EBIT total é atribuível à tecnologia.
No Brasil, 82,6% das organizações ampliaram o uso de ferramentas de IA no último ano, mas somente 31,5% atingiram um nível elevado de maturidade na aplicação da tecnologia, de acordo com o Leading Tech Report 2026 da BossaBox. Dados como esses reforçam a tese de que o uso e investimento em tecnologia sem ter como retorno um efeito positivo e significativo na margem não passa de performance corporativa.
Atualmente, as principais aplicações de IA corporativa saíram do espectro da teoria e entraram em processos que mexem com margem, velocidade e risco: atendimento, vendas, pricing, fraude, supply chain e decisão executiva. Porém, curiosamente, muitas lideranças ainda discutem IA como se estivessem em uma feira de tecnologia com café ruim e PowerPoint otimista.
Não faltam exemplos de negócios que estão adotando IA apenas pelo hype, sem estratégia, e quebrando a cara. Ao invés disso, as empresas deveriam se questionar em quais processos a tecnologia melhora receita, reduz custo, acelera decisão ou diminui risco de forma mensurável. Vale o lembrete: empresa séria não compra tendência, compra alavanca.
Leia também: A corrida pelos agentes de IA e os equívocos que comprometem resultados
É justamente nesse ponto que a IA corporativa começa, de fato, a gerar valor. Existe um certo padrão nas aplicações que entregam resultado: elas automatizam tarefas, preveem eventos, recomendam ações ou geram conteúdo e interação conectados diretamente à margem, receita, redução de risco ou ganho de velocidade operacional. Por isso, áreas como atendimento, vendas, operações, finanças, RH, jurídico e tomada de decisão executiva costumam concentrar os primeiros casos de ROI mensurável. São funções em que a tecnologia ultrapassa o discurso de inovação e passa a influenciar produtividade, eficiência e competitividade de maneira concreta.
Além disso, um dos maiores erros das companhias hoje não é usar pouca IA, mas aplicá-la em processos nos quais nada realmente relevante muda. Em muitos casos, organizações investem em ferramentas que geram visibilidade ou percepção de inovação, mas pouco impacto concreto em receita, eficiência ou redução de risco. Nesse cenário, ganha força a necessidade de separar iniciativas estratégicas de projetos superficiais. Um critério que pode ajudar nessa priorização é a matriz IAR (impacto, adoção e risco), que avalia o potencial financeiro do caso de uso, a probabilidade de adesão operacional e os riscos regulatórios, técnicos e reputacionais envolvidos.
Outro ponto importante é entender onde a IA já entrega valor de forma prática e mensurável. Sabemos que a tecnologia cria impacto quando automatiza tarefas, prevê eventos, recomenda ações ou gera conteúdo e interação. É exatamente isso que explica os ganhos já observados em áreas como atendimento, vendas, supply chain, logística, prevenção a fraudes, planejamento financeiro e produtividade corporativa. As aplicações mais valiosas, inclusive, muitas vezes acontecem nos bastidores: não rendem grandes anúncios ou apresentações chamativas, mas melhoram margem, velocidade operacional e competitividade.
O próximo estágio dessa transformação (com melhora mais comprovada na receita) demanda uma integração entre agentes inteligentes, dados e sistemas capazes de executar fluxos completos com supervisão humana. Ao mesmo tempo, esse avanço amplia discussões sobre governança, privacidade, vieses, segurança e uso responsável da tecnologia, e companhias que estão capturando valor real da IA são justamente as que conseguem combinar inovação com disciplina operacional, dados estruturados, revisão humana e clareza estratégica. Não tem para onde fugir: transformação de verdade só vem com aplicação da IA com método e estratégia.
Por fim, como uma provocação final, sugiro a seguinte reflexão: a sua empresa não precisa usar IA em tudo, mas é essencial que use naquilo que muda o jogo. O resto é performance para plateia. E plateia, como sabemos, aplaude hoje e esquece amanhã.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!