A vantagem da IA está nos dados que a empresa controla

Empresas precisarão controlar os dados, os processos e a governança que sustentam decisões estratégicas

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Imagem: shutterstock
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Empresas enfrentam mais um desafio. No caso, a quantidade de ferramentas de inteligência artificial usadas internamente sem que a TI, o jurídico, a segurança ou o compliance tenham visibilidade. Esse é o ponto que torna a Shadow AI, o uso dessas ferramentas sem visibilidade da empresa, mais delicada que a antiga Shadow IT. Antes, o problema era a proliferação de software fora do radar. Agora, o que se move com o software é o contexto da empresa. Dados de clientes, minutas comerciais, relatórios internos, políticas de preço, códigos, e-mails, atas de reunião, documentos estratégicos e formas próprias de raciocinar sobre o negócio passam a circular em ambientes que nem sempre foram avaliados, contratados, configurados ou auditados. Sem política, contrato, configuração, segregação e logs, as empresas não sabem com segurança quais dados saíram, onde foram processados, quem pode acessá-los, se foram retidos e com que finalidade.

A adoção já passou do ponto em que poderia ser tratada como experimento isolado. Estudos afirmam que 88% dos respondentes dizem que suas organizações usam IA regularmente em ao menos uma função, mas quase dois terços ainda não começaram a escalar IA pela empresa. O número mostra uma contradição importante para qualquer CIO. A IA marca presença, mas nem sempre está institucionalizada. Está no fluxo de trabalho, mas não ainda completamente no fluxo de governança. A distância entre uso e controle é exatamente onde surge a arquitetura invisível.

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Essa arquitetura tende a ficar mais complexa. O mesmo estudo mostra que 23% dos respondentes dizem que suas organizações já escalam algum sistema de IA agente, enquanto outros 39% experimentam agentes. Há projeções de que até 40% das aplicações corporativas terão agentes de IA específicos por tarefa até 2026, ante menos de 5% em 2025. Isso muda a natureza do SaaS (Software as a Service). A proliferação não será apenas de sistemas contratados por áreas de negócio. Será também de copilotos, plugins, agentes, extensões e automações embutidas em ferramentas que a empresa já usa ou que colaboradores conseguem ativar sem grande fricção. O debate sobre “SaaS-pocalypse”, metáfora relacionada à explosão descontrolada de plataformas que entram nas empresas mais rápido do que a capacidade de governá-los, deve ser lido menos como funeral do SaaS. É sintoma de uma reavaliação do modelo em uma era na qual software passa a agir, não apenas registrar.

O comportamento dos usuários confirma o tamanho do desafio. Uma pesquisa com 1.250 profissionais de escritório em empresas com receita anual mínima de US$ 500 milhões encontrou que dois terços usaram ferramentas de IA no trabalho mesmo acreditando que isso não era permitido pela política corporativa. Também aponta que 88% compartilharam informações de trabalho com ferramentas públicas de IA, 34% inseriram dados ou informações de clientes e 31% compartilharam informações financeiras ou documentos e estratégias confidenciais. A amostra descreve um comportamento que muitos executivos já reconhecem internamente. O usuário quer velocidade. A empresa, quando não oferece alternativa, perde visibilidade.

Leia também: Modelos de IA sem comando nas empresas viraram o passivo técnico de 2026

Esse é o erro de leitura mais comum. Tratar governança de IA como trava de segurança. Segurança faz parte do problema, mas não esgota o tema. Governança de IA envolve estratégia de dados, gestão de fornecedores, compras, jurídico, compliance, arquitetura, identidade, classificação da informação, auditoria, desenho de processos e responsabilização executiva. A pergunta adequada não é apenas “qual ferramenta podemos liberar?”. É “quais dados podem alimentar quais modelos, sob quais permissões, para quais decisões, com qual rastro e com qual direito de contestação?”.

Os sinais de risco já aparecem. Estudos afirmam que 97% das organizações que reportaram incidente de segurança relacionado a IA não tinham controles adequados de acesso à IA, e que 63% não tinham políticas de governança para gerir IA ou prevenir a proliferação de Shadow AI. O dado não autoriza pânico, mas sim prioridade. Controle de acesso, política de uso e gestão de identidade deixaram de ser detalhes administrativos. Viraram infraestrutura de confiança para qualquer empresa que pretenda usar IA em escala.

A boa governança não precisa matar a velocidade. Ao contrário. Proibir sem oferecer alternativa empurra a IA para a sombra. A empresa madura cria trilhos. Define casos de uso permitidos, dados proibidos, ferramentas homologadas, exigências contratuais, logs mínimos, critérios de retenção, revisão de fornecedores, integrações seguras e modelos de responsabilização. IA deve ser tratada como sistema de gestão, com requisitos para estabelecer, implementar, manter e melhorar um sistema de gestão de inteligência artificial.

A próxima etapa da adoção corporativa de IA não será vencida por quem instalar mais assistentes, liberar mais contas ou anunciar mais pilotos. Modelos tendem a ficar mais acessíveis, interfaces mais parecidas e funcionalidades mais fáceis de copiar. O que não se copia com a mesma facilidade é o contexto proprietário. É a qualidade dos dados, a história das decisões, as permissões, o conhecimento acumulado, os processos internos, os critérios de auditoria e a capacidade de transformar tudo isso em uso seguro e mensurável.

A empresa que tratar IA como ferramenta vai medir acesso. A que tratar IA como arquitetura de decisão vai medir consequência. A diferença aparecerá no controle sobre o próprio conhecimento. Na era da inteligência artificial, a questão deixou de ser qual modelo usar. A pergunta que separa eficiência passageira de vantagem competitiva será outra: quem governa os dados que tornam esse modelo capaz de decidir algo relevante sobre os negócios?

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Sobre o Autor

Julio Cesar Guapo é diretor de TI da Positivo Tecnologia. Com mais de 20 anos de experiência como executivo de alta gestão em grandes empresas, é responsável pela criação do Positivo Labs na parte de desenvolvimento de software e projetos de inovação.

Possui experiência nas áreas de TI, Gestão, Planejamento, Inovação, Operação, Governança, LGPD, Negociação, Comércio Eletrônico, Processos e Projetos, sendo responsável pela gestão de mais de 350 projetos de alto valor agregado ao negócio.

É Graduado em Ciência da Computação, Pós-graduado em Administração e Marketing, MBA em Finanças e cursando Transformação Digital no MIT.

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