Por que a tecnologia precisa deixar de apenas automatizar tarefas para desenvolver habilidades?
Acredito que o futuro das organizações será construído sobre ecossistemas integrados, auditáveis e componíveis

Durante muito tempo, a conversa sobre tecnologia corporativa girou em torno de produtividade. As discussões giravam em torno de fazer mais rápido, reduzir cliques, encurtar processos e otimizar o tempo gasto com algumas atividades. Era uma verdadeira corrida por eficiência operacional. Hoje, porém, vejo uma mudança mais profunda na raiz dos processos propondo que não basta apenas automatizar tarefas, mas usar a tecnologia para operacionalizar o aprendizado e acelerar o desenvolvimento de habilidades.
Essa virada é especialmente visível na educação, mas não se restringe a ela. Toda empresa virou uma escola contínua. Os ciclos de inovação encurtaram, as competências envelheçam mais rápido e a requalificação deixou de ser eventual para se tornar permanente. Se as organizações não estruturarem ferramentas que transformem trabalho em aprendizado, simplesmente ficarão para trás.
É nesse contexto que observo o avanço de uma tecnologia que, para mim, simboliza essa nova fase: a IA agêntica. Diferentemente da IA generativa tradicional, que reage a comandos e produz respostas pontuais, os sistemas agênticos planejam, utilizam ferramentas externas e executam fluxos completos de tarefas de forma autônoma. Eles deixam de “ajudar” e passam a “resolver”. Saímos da IA que escreve textos para a IA que organiza processos inteiros.
Dados revelados pelo estudo da Pearson Skills Outlook “Solving the Tech Talent Gap from Within” reforçam essa percepção com números muito concretos. O levantamento mostra que profissionais de tecnologia no Brasil podem economizar mais de dois meses de trabalho até 2029 — o equivalente a 66 dias, considerando jornadas de oito horas — quando utilizam a inteligência artificial de forma eficaz. Na prática, isso representa entre 1,8 e 2,6 horas poupadas por semana ao longo de cinco anos.
Pode parecer pouco em um primeiro momento, mas, quando acumulamos esse ganho, o impacto é enorme. É tempo que deixa de ser gasto em tarefas repetitivas e pode ser redirecionado para capacitação, inovação e resolução de problemas mais complexos. É aproveitar a expertise do colaborador para resolver processos que exigem soluções estratégicas e direcionadas.
O estudo também detalha como esse ganho se distribui entre funções. Desenvolvedores de software de sistemas podem economizar cerca de 1,9 hora por semana; programadores, 2,1 horas; analistas de sistemas, 2,3 horas; e arquitetos de redes de computadores chegam a até 2,6 horas semanais. Mesmo os engenheiros e arquitetos de sistemas, menos impactados, ainda registram 1,8 hora de economia. Na prática, as tarefas são transformadas e otimizadas. É muito importante que se tenha em mente que a IA não substitui o profissional. Ela está ali, à disposição para potencializar sua capacidade.
Partindo para dados globais, a pesquisa da Pearson também mostra que a economia em determinadas áreas de trabalho pode chegar a quase um dia inteiro por semana, o que pode equivaler a 5,8 e 8,8 horas. Os dados levam em conta os mercados mais maduros tecnologicamente, como Estados Unidos, Reino Unido ou Austrália. Essa diferença mostra algo importante: maturidade digital e qualificação caminham juntas. Quanto melhor preparado o profissional, maior o retorno da ferramenta. Ter uma empresa que leva esses propósitos para o planejamento estratégico, é certeza de ganho na otimização dos processos.
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Ganho de curto prazo x ganho sustentável
É por isso que defendo que eficiência sem aprendizado é um ganho de curto prazo. Automatizar o “Run” (a manutenção da operação), só faz sentido se isso gerar fôlego para o “Build” (a construção do novo). Tenho visto líderes adotarem práticas como FinOps para controlar custos de nuvem e IA e reinvestir o que economizam em pesquisa, desenvolvimento e formação de pessoas. Esse é o caminho para a difusão do uso consciente e adequado da IA para o futuro das empresas que estão preocupadas com a otimização dos processos.
Na Pearson, essa lógica é quase orgânica. Como somos uma empresa de educação e aprendizado ao longo da vida, aplicamos o mesmo conceito internamente. Investimos em trilhas constantes de upskilling e reskilling porque entendemos que reter talentos passa por ampliar sua capacidade, não por restringi-la. O profissional que aprende todos os dias se torna mais produtivo, mais engajado e mais preparado para lidar com mudanças.
Essa estratégia também ajuda a enfrentar um dos maiores gargalos do setor: a falta de mão de obra qualificada. O mercado não consegue formar especialistas na velocidade que a transformação digital exige. Por isso, trabalhamos em três frentes: formação interna, uso da IA como copiloto para acelerar o desenvolvimento de profissionais juniores e parcerias com o ecossistema educacional para alinhar currículos às demandas reais do mercado.
Quando um analista pleno consegue entregar como sênior porque tem ferramentas inteligentes ao seu lado, não estamos apenas ganhando eficiência, estamos encurtando a curva de aprendizado. A tecnologia vira mentora. Claro que isso traz desafios. O excesso de softwares e plataformas, também conhecido por SaaS sprawl, fragmenta dados, dificulta governança e compromete a visão integrada. Sem interoperabilidade, APIs robustas e observabilidade centralizada, a empresa perde justamente o que mais precisa: clareza sobre onde estão as lacunas de habilidades e como evoluir.
Por isso, acredito que o futuro das organizações será construído sobre ecossistemas integrados, auditáveis e componíveis, onde ferramentas conversam entre si e geram inteligência acionável. Só assim conseguimos transformar dados em decisões e decisões em desenvolvimento real de competências. No fim das contas, a grande mudança que testemunho é cultural. Estamos saindo de uma mentalidade em que tecnologia servia apenas para cortar custos e entrando em outra, em que ela amplia capacidades humanas. Essa diferença muda tudo.
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