Internet das Coisas nas empresas brasileiras: alguns dados e dois alertas

Artigo por Leonardo Melo Lins*

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por ABES
1:13 pm - 17 de julho de 2023

Internet das Coisas nas empresas brasileiras: alguns dados e dois alertas

Artigo por Leonardo Melo Lins* 

Segundo recente relatório da Global System for Mobile Communication (GSMA), em 2030 o mundo vai atingir 37,4 bilhões de conexões de Internet das Coisas (IoT), representando mais do que o dobro do número registrado em 2021. Com aplicações amplas sendo utilizadas em domicílios e empresas, é fácil observar o impacto da internet das coisas em nosso cotidiano, a ponto de o relatório de 2021 da mesma GSMA estimar que 7,1% do produto interno bruto da América Latina teve como origem a IoT.

Sobre o impacto na economia, a nova versão da pesquisa TIC Empresas trouxe dados interessantes sobre como a IoT está sendo implementada no setor produtivo brasileiro. A partir de um padrão desenvolvido pelo Eurostat, o Gabinete de Estatística da União Europeia, a TIC Empresas averiguou quais os usos que as empresas brasileiras fazem da IoT em suas rotinas, sendo possível comparar o caso brasileiro com países europeus de economia mais complexas.

De acordo com os resultados da TIC Empresas, aproximadamente 73.300 empresas usaram algum tipo de dispositivo de internet das coisas, representando 14% das empresas brasileiras. O uso foi mais frequente naquelas de grande porte (250 pessoas ocupadas ou mais), e na comparação internacional, o Brasil apresenta uma das menores proporções de uso de dispositivos de IoT por pequenas empresas (até 49 pessoas ocupadas).

Gráfico 1 – Empresas que utilizaram dispositivos inteligentes ou internet das coisas e porte

% (total de empresas)

Grafico 1 LML

 

E como que os dispositivos de internet das coisas são usados? De acordo com a pesquisa, dentre as empresas que afirmaram que utilizaram IoT, 85% disseram que usaram para segurança de instalações (como sistemas de alarme, detectores de fumaça, travas de portas e câmeras de segurança inteligentes); em segundo lugar, 44% das empresas que usaram algum tipo IoT o fizeram para gerenciamento de consumo de energia (como medidores, termostatos ou lâmpadas inteligentes). Dessa forma, os dispositivos de IoT adentram na empresa para auxiliar processos já estabelecidos, não sendo relacionados com a finalidade do negócio e muitas vezes são soluções adquiridas no mercado.

Gráfico 2 – EMPRESAS QUE UTILIZARAM DISPOSITIVOS INTELIGENTES OU INTERNET DAS COISAS, POR TIPO

(%) Total de empresas que utilizaram dispositivos inteligentes ou Internet das Coisas

Grafico 2 LML

 

Portanto, é importante destacar que os dispositivos de internet das coisas estão presentes para auxiliar processos ou realizar monitoramentos, sendo tecnologias empregadas de forma uniforme por todas as empresas, independentemente do setor de atividade econômica. No gráfico abaixo, é possível perceber que não há grandes diferenças nos usos por setor, sendo que os dispositivos de IoT para segurança são os mais presente por toda a estrutura produtiva do país.  Observa-se alguns poucos usos mais pontuais por setor, tal como o uso de dispositivos de gerenciamento de consumo de energia na indústria e na construção e de gestão de logística no setor de transportes, mas nada próximo da presença dos dispositivos de segurança.

Gráfico 3 – EMPRESAS QUE UTILIZARAM DISPOSITIVOS INTELIGENTES OU INTERNET DAS COISAS, POR TIPO E SETOR

(%) Total de empresas que utilizaram dispositivos inteligentes ou Internet das Coisas

Grafico 3 LML

 

A disseminação de dispositivos de internet das coisas entre as empresas evidencia um aumento na tendência de uso de dispositivos comunicando-se entre si, à medida que cada vez mais soluções serão desenvolvidas e colocadas no mercado. Do ponto de vista regulatório, é importante mencionar que o Brasil possui legislação recente que cria um ambiente propício à proliferação de dispositivos, uma vez que a Lei da Internet das Coisas reduziu a zero as taxas sobre os sistemas de comunicação máquina a máquina.  No entanto, ainda que haja certa segurança jurídica no uso dos dispositivos, sua proliferação entre as empresas deve ser acompanhada de duas considerações.

Em primeiro lugar, deve-se atentar sobre o uso de dados pessoais coletados por dispositivos de IoT. Muitos dos dispositivos usados não possuem interface adequada para possibilitar ações de consentimento, o que pode violar artigos centrais da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Uma vez que o uso mais reportado pelas empresas foi o de dispositivos de segurança, é importante se atentar às regras sobre guarda e descarte de dados pessoais, bem como às regras de coleta de informações sensíveis, por exemplo a biometria.

Outra consideração importante versa sobre a cibersegurança: quanto mais dispositivos conectados, maior a exposição aos riscos de segurança digital, expondo a empresa a possíveis ataques de negação de serviços (DDoS) ou até mesmo tendo seus dispositivos usados para ataques a terceiros. Portanto, é importante que as empresas atentem as configurações de segurança de seus dispositivos e busquem manter uma rotina de atualização dos sistemas, buscando sempre fortalecer a resiliência da sua rede.

Portanto, tendo em vista que o uso de dispositivos de IoT entre as empresas tende a aumentar nos próximos anos, é importante que este crescimento venha acompanhado de duas preocupações: a conformidade com a LGPD e o comprometimento com a segurança digital.  

Leonardo Melo Lins

Leonardo Melo Lins é Pesquisador do Think Tank da ABES, membro do Programa de Pós-Doutorado do IEA/USP e Analista do Cetic.br | NIC.br

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