Há mais de duas décadas atendo C-level: diretores de TI, CISOs, CTOs. Um padrão se repete em empresa grande, média e startup com dinheiro de fundo: o diretor de TI está sofrendo — e a liderança acima dele não faz ideia do porquê.
Existem cinco dores que esse profissional carrega. Todas conhecidas. Todas ignoradas. E todas com algo que raramente aparece na pauta executiva: um custo jurídico concreto. Não é metáfora. É risco real de passivo, de multa, de responsabilidade pessoal.
O mercado de TI tem muita gente boa resolvendo o que quebrou ontem. Tem pouquíssima gente estruturando o que vai quebrar amanhã. O diretor sabe disso — e não consegue mudar porque o processo seletivo não valoriza essa visão. A vaga pede “experiência comprovada”, não “capacidade de antecipar”.
Quando a empresa sofre um incidente e não demonstra que adotou medidas técnicas preventivas adequadas, ela responde sob a LGPD. A ANPD não aceita “não tínhamos profissional qualificado” como excludente de responsabilidade.
Nenhum CEO ou CFO estuda seriamente o papel de TI nos negócios. Sabem que existe. Sabem que custa caro. Mas não sabem o que TI protege, o que viabiliza, o que deveria impedir. O resultado: TI não senta à mesa estratégica. A empresa fecha contratos sem envolver a área técnica, assina termos que criam obrigações impossíveis de cumprir — e o jurídico valida algo que operacionalmente não funciona. Integração entre TI, jurídico e estratégia não é burocracia. É prevenção de contencioso.
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TI é convocada para resolver problemas pontuais. Não existe planejamento estrutural nem política de tecnologia ligada à estratégia de crescimento. Quando muda o gestor — e gestores mudam —, muda tudo: fornecedor, sistema, processo. Sem documentação, sem critério, sem continuidade.
As consequências jurídicas são diretas: contratos rescindidos sem justificativa adequada geram passivos trabalhistas e cíveis; migrações sem due diligence podem resultar em quebra de sigilo de dados; e a ausência de política documentada é o primeiro item que a ANPD solicita numa investigação.
Fornecedor entra por amizade com o gestor. Sai quando o gestor muda. Compras olha só para preço — não para histórico, compliance ou o que está escrito no contrato. O resultado: recursos desperdiçados e contratos sem SLA, sem cláusulas de proteção, sem responsabilização em caso de incidente. Um contrato de TI mal feito não é apenas um contrato ruim. É evidência de que a empresa não tem governança sobre o que está comprando — e isso pesa em disputas contratuais e processos regulatórios.
O advogado interno não entende o que é um data center. O externo, tampouco. Quando surge uma questão de privacidade de dados ou contrato com fornecedor SaaS internacional, ninguém tem vocabulário para tratar o tema com precisão. TI não entende o “juridiquês”. Os advogados, em geral, não compreendem o “bit-bytês”. As questões se acumulam. Algumas somem. Outras explodem — e só então a empresa descobre que carregava um passivo há anos porque ninguém o identificou como problema jurídico. Falta de alinhamento entre jurídico e TI não é gap de comunicação. É risco sistêmico.
O que essas cinco dores têm em comum
Nenhuma delas é um problema de TI. Todas são problemas de governança, contrato e responsabilidade jurídica que se manifestam dentro da área de tecnologia porque é lá que o impacto aparece primeiro. O diretor de TI não resolve isso sozinho — e não deveria ter que resolver. A solução está na forma como a empresa estrutura a relação entre tecnologia, direito e estratégia. Enquanto essas três dimensões operarem em silos, as dores continuam.
E o passivo cresce.
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